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Monólogo: O Poder da Palavra

Posted in Sem categoria on 12 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A palavra nasce antes do gesto.
E sobrevive depois do silêncio.
Ela não pede licença ao tempo,
Nem repousa na boca por acaso.
A palavra escolhe quem fere,
E também quem cura.
Uma sílaba pode erguer cidades,
Outra pode incendiá-las.
Reis tombaram por frases breves.
Povos caminharam por promessas.
A palavra não sangra,
Mas faz sangrar.
Não empunha lâmina,
Mas corta destinos.
Ela se infiltra nos ouvidos,
E constrói morada na alma.
Quando dita com verdade,
Sustenta o mundo.
Quando lançada com ódio,
Envenena gerações.
A palavra cria nomes,
E ao nomear, domina.
Tudo o que existe primeiro foi dito,
Mesmo o que jamais existiu.
O amor nasce pronunciado.
O medo também.
Há palavras que libertam grilhões,
Outras que os reforçam.


Um discurso pode ser abrigo,
Ou sentença.
Não há neutralidade no verbo.
Toda palavra escolhe lado.
Quem fala assume peso.
Quem escuta assume risco.
A palavra ensina a lembrar,
E obriga a esquecer.
Há palavras que salvam uma noite,
Outras que condenam uma vida.
Elas não envelhecem,
Apenas mudam de boca.
A palavra atravessa séculos,
Disfarçada de conselho,
De ordem,
De oração.
Quem domina a palavra,
Não precisa gritar,
Pois o eco trabalha por ele.
A palavra retorna sempre,
Mesmo quando negada.
Ela persegue consciências,
Assombra decisões,
Sustenta impérios invisíveis,
Derruba máscaras,
Revela intenções,
Cala covardias,
E desmascara mentiras.
A palavra jamais é inocente.

(Betto Gasparetto – viii-mcmxcvii)

Monólogo: Até as Sombras Choram

Posted in Sem categoria on 11 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há noites em que a luz desiste
E as sombras assumem o mundo
Elas crescem nas paredes
E aprendem a sentir
Sombras guardam memórias
Que os corpos rejeitam
Elas escutam tudo
Quando o silêncio domina
Até as sombras choram
Sem lágrimas
Mas com peso
O chão sente
As paredes absorvem
Sombras não mentem
Apenas refletem
O que foi esquecido
Elas se alongam
Quando a dor aumenta
Encolhem
Quando a esperança ameaça voltar
Há sombras que imploram
Outras acusam
Todas testemunham
O que ninguém confessa
Sombras conhecem segredos
Que a luz teme revelar
Elas vivem do resto
Do gesto incompleto
Da palavra engolida
Quando o amor parte
A sombra permanece
Quando o ódio grita
A sombra escuta
Sombras não escolhem lados
Mas sofrem as consequências
Até as sombras choram
Quando o humano falha
Quando o tempo pesa
Quando o perdão não vem
Elas tremem
Ao toque da culpa
E se espalham
Para não desaparecer
Sombras sabem
Que a luz é breve
E que o escuro
Sempre retorna
Por isso choram
Em silêncio disciplinado
Sem plateia
Sem absolvição
Sombras não pedem redenção
Apenas suportam
E guardam
Tudo o que caiu
Do coração dos homens

(Betto Gasparetto – viii-mcmxcvii)

Monólogo: Interlúdio Entre Amor e Ódio

Posted in Sem categoria on 10 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Entre o amor e o ódio há um intervalo.
Um espaço estreito onde o coração vacila.
Não é terra firme nem abismo.
É travessia.
Ali o afeto treme
E a raiva aprende a esperar.
O amor não parte inteiro,
O ódio não chega completo
Ambos respiram o mesmo ar.
E disputam o mesmo pulso.
Nesse intervalo mora a dúvida
Que beija e fere
Que acolhe e empurra
O amor lembra o que foi
O ódio anuncia o que pode ser
Nenhum deles dorme
Ambos vigiam
O amor implora permanência
O ódio exige ruptura
Mas no interlúdio
Eles se reconhecem,
Como espelhos deformados,
O amor sangra em silêncio,
O ódio grita para esconder a dor,
Entre um e outro.
O tempo suspende o juízo,
O coração hesita.
E nessa hesitação
Nasce o gesto mais humano
Perdoar
Ou ferir com consciência
O interlúdio não escolhe
Apenas expõe
Ali o amor aprende limites
E o ódio revela saudade
Nada é puro nesse espaço.
Nada é definitivo.
O amor se arma de cautela,
O ódio se veste de razão.
E o ser caminha,
Com ambos nos bolsos.
Sabendo que um passo errado,
Pode transformar carinho em cinza.
Ou devolver à raiva,
O rosto da ternura.
Entre amor e ódio,
O interlúdio governa…

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)

TUDO O QUE EU PRECISO É DE UM POUCO DE PAZ

Posted in Sem categoria on 9 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Tardo clama o peito em lida escura
Um mundo em guerra assedia o coração
De tanto peso nasce a noite impura
Onde a razão sangra sem redenção

Olhai: nem ouro acalma tal tormento

Quando a alma implora simples claridade
Um sopro basta ao frágil pensamento
E em silêncio encontre dignidade

Eu nada peço aos tronos nem à glória
Universos ruem longe do meu cais

Por entre ruínas busco a calma breve
Recanto humano onde o tempo cesse
Em paz repousa o ser que já não deve
Culpa ao passado que jamais esquece
Interno abrigo contra a voz do medo
Sem o clamor que a vida nos refaz
Onde o existir não seja mais degredo

Eis meu clamor, sem lâmina ou furor:

Desmanchei todo o silêncio em nós,

E acabei criando uma redoma!

Um instante só, liberto de voraz

Mesmo que o mundo arda em desrazão

Pouco me basta: um pacto com a luz
Os dias curvam-se à respiração
Um fio de sol que o ser conduz
Calma que ensina a resistir em vão
Onde a esperança, enfim, produz

Da eternidade não reclamo nada
Exijo apenas cessar a dor fugaz

Porque viver já é cruz demasiado
Ao homem que pensa, sente e cai
Zela-me o tempo: paz — só isso eu faço

(Betto Gasparetto – i-mcmxcvii)

Monólogo de uma Voz Que Mora no Espelho do Silêncio

Posted in Sem categoria on 8 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há no espelho uma voz que se recorda,
Não é minha — é o eco do que fui.
Ela fala baixo, pede-me que acorde,
E o reflexo devolve o que destrói.
Não há culpa: há memória e aprendizado,
E o olhar, mais manso, busca o essencial.
A noite é mestra, o corpo, aliado,
E o coração respira sem igual.
A voz no espelho ensina o que é sereno:
Aceitar-se é o amor mais pleno.

Falo com ela como se falasse
A um velho amigo, sábio e discreto.
Ela responde em luz, sem que me abrace,
Mas cada frase é toque indireto.
“Perdoa-te” — diz — “pelos descuidos,
Pelos excessos de querer o certo.
O amor é feito também de ruídos,
E o erro faz do caminho um deserto.”
Escuto, atento, e sinto em meu semblante
Que o perdão é abraço constante.

O espelho, cúmplice, não censura,
Apenas mostra o tempo e sua lida.
Cada ruga é lembrança e é ternura,
Cada traço é trilha refletida.
A noite entende o rito dessa fala,
E o ar se faz discípulo da calma.
O amor humano é casa que não cala,
É templo simples dentro da alma.
E o reflexo, entre o claro e o escuro,
Ensina a ser gentil com o futuro.

As sombras passam lentas pela parede,
E o espelho vibra em tom de serenata.
Eu o encaro, e ele cede e cede,
Transforma o medo em ponte delicada.
Vejo ao fundo rostos de outros tempos,
Gente que amei e ainda me habita.
O amor se estende, vivo em sentimentos,
E o coração, sereno, não limita.
A voz retorna e sussurra outra vez:
“Amar é errar com lucidez.”

Deixo o reflexo falar o que deseja,
Sem resistência, sem me explicar.
O silêncio é quem rege e enseja
Que o humano aprenda o verbo cuidar.
As palavras se dissolvem como neve,
E o quarto se ilumina em humildade.
A voz do espelho, agora mais leve,
Canta: “amar é pura liberdade.”
Eu sorrio, e o vidro se embaça,
Como se o próprio tempo me abraçasse.

A madrugada abre portas de ouro,
E o ar respira o cheiro da confissão.
A voz diz: “segue, o amor é tesouro
Que só se dá quando é doação.”
Eu me inclino e agradeço em silêncio,
Com olhos brandos e peito limpo.
O reflexo sorri, denso e imenso,
E o medo deixa de ser labirinto.
A noite entende e guarda a lição:
O amor é perdão em expansão.

Apago a luz, o espelho ainda brilha,
Como um farol discreto no horizonte.
E a voz se apaga, mas vigia, filha
Do que em mim deseja ser mais ponte.
Deixo o quarto e fecho a porta lenta,
Como quem encerra uma oração.
No corredor, o chão já se apresenta,
E o coração caminha em redenção.
O silêncio fala, a alma se refaz,
E o humano aprende a paz que traz.

Penso em ti — e a lembrança é ternura,
Não mais tormento, mas compreensão.
O espelho guarda, fiel, minha figura,
E nela mora a nossa união.
Pois quem se ama aprende a amar o mundo,
E quem se perdoa ensina a fé.
O amor humano é simples e profundo,
Não tem dogma, tem o que é.
A noite termina com rosto em lume:
Sou eu — completo, inteiro, costume.

Quando o sol nascer, o espelho dorme,
Mas deixará gravada a sua voz.
Ela dirá: “sê justo, sê conforme,
Ama o outro, mas ama o que é vós.”
E o dia abrirá suas cortinas brancas,
Com cheiro de café e de renovo.
A alma, limpa, em paz e franca,
Começará de novo, sempre novo.
E o amor, no espelho e em mim, reflete:
A vida é quem perdoa e repete.

(Betto Gasparetto- iii-mmxiii)