A palavra nasce antes do gesto. E sobrevive depois do silêncio. Ela não pede licença ao tempo, Nem repousa na boca por acaso. A palavra escolhe quem fere, E também quem cura. Uma sílaba pode erguer cidades, Outra pode incendiá-las. Reis tombaram por frases breves. Povos caminharam por promessas. A palavra não sangra, Mas faz sangrar. Não empunha lâmina, Mas corta destinos. Ela se infiltra nos ouvidos, E constrói morada na alma. Quando dita com verdade, Sustenta o mundo. Quando lançada com ódio, Envenena gerações. A palavra cria nomes, E ao nomear, domina. Tudo o que existe primeiro foi dito, Mesmo o que jamais existiu. O amor nasce pronunciado. O medo também. Há palavras que libertam grilhões, Outras que os reforçam.
Um discurso pode ser abrigo, Ou sentença. Não há neutralidade no verbo. Toda palavra escolhe lado. Quem fala assume peso. Quem escuta assume risco. A palavra ensina a lembrar, E obriga a esquecer. Há palavras que salvam uma noite, Outras que condenam uma vida. Elas não envelhecem, Apenas mudam de boca. A palavra atravessa séculos, Disfarçada de conselho, De ordem, De oração. Quem domina a palavra, Não precisa gritar, Pois o eco trabalha por ele. A palavra retorna sempre, Mesmo quando negada. Ela persegue consciências, Assombra decisões, Sustenta impérios invisíveis, Derruba máscaras, Revela intenções, Cala covardias, E desmascara mentiras. A palavra jamais é inocente.
Há noites em que a luz desiste E as sombras assumem o mundo Elas crescem nas paredes E aprendem a sentir Sombras guardam memórias Que os corpos rejeitam Elas escutam tudo Quando o silêncio domina Até as sombras choram Sem lágrimas Mas com peso O chão sente As paredes absorvem Sombras não mentem Apenas refletem O que foi esquecido Elas se alongam Quando a dor aumenta Encolhem Quando a esperança ameaça voltar Há sombras que imploram Outras acusam Todas testemunham O que ninguém confessa Sombras conhecem segredos Que a luz teme revelar Elas vivem do resto Do gesto incompleto Da palavra engolida Quando o amor parte A sombra permanece Quando o ódio grita A sombra escuta Sombras não escolhem lados Mas sofrem as consequências Até as sombras choram Quando o humano falha Quando o tempo pesa Quando o perdão não vem Elas tremem Ao toque da culpa E se espalham Para não desaparecer Sombras sabem Que a luz é breve E que o escuro Sempre retorna Por isso choram Em silêncio disciplinado Sem plateia Sem absolvição Sombras não pedem redenção Apenas suportam E guardam Tudo o que caiu Do coração dos homens
Entre o amor e o ódio há um intervalo. Um espaço estreito onde o coração vacila. Não é terra firme nem abismo. É travessia. Ali o afeto treme E a raiva aprende a esperar. O amor não parte inteiro, O ódio não chega completo Ambos respiram o mesmo ar. E disputam o mesmo pulso. Nesse intervalo mora a dúvida Que beija e fere Que acolhe e empurra O amor lembra o que foi O ódio anuncia o que pode ser Nenhum deles dorme Ambos vigiam O amor implora permanência O ódio exige ruptura Mas no interlúdio Eles se reconhecem, Como espelhos deformados, O amor sangra em silêncio, O ódio grita para esconder a dor, Entre um e outro. O tempo suspende o juízo, O coração hesita. E nessa hesitação Nasce o gesto mais humano Perdoar Ou ferir com consciência O interlúdio não escolhe Apenas expõe Ali o amor aprende limites E o ódio revela saudade Nada é puro nesse espaço. Nada é definitivo. O amor se arma de cautela, O ódio se veste de razão. E o ser caminha, Com ambos nos bolsos. Sabendo que um passo errado, Pode transformar carinho em cinza. Ou devolver à raiva, O rosto da ternura. Entre amor e ódio, O interlúdio governa…
Tardo clama o peito em lida escura Um mundo em guerra assedia o coração De tanto peso nasce a noite impura Onde a razão sangra sem redenção
Olhai: nem ouro acalma tal tormento
Quando a alma implora simples claridade Um sopro basta ao frágil pensamento E em silêncio encontre dignidade
Eu nada peço aos tronos nem à glória Universos ruem longe do meu cais
Por entre ruínas busco a calma breve Recanto humano onde o tempo cesse Em paz repousa o ser que já não deve Culpa ao passado que jamais esquece Interno abrigo contra a voz do medo Sem o clamor que a vida nos refaz Onde o existir não seja mais degredo
Eis meu clamor, sem lâmina ou furor:
Desmanchei todo o silêncio em nós,
E acabei criando uma redoma!
Um instante só, liberto de voraz
Mesmo que o mundo arda em desrazão
Pouco me basta: um pacto com a luz Os dias curvam-se à respiração Um fio de sol que o ser conduz Calma que ensina a resistir em vão Onde a esperança, enfim, produz
Da eternidade não reclamo nada Exijo apenas cessar a dor fugaz
Porque viver já é cruz demasiado Ao homem que pensa, sente e cai Zela-me o tempo: paz — só isso eu faço
Há no espelho uma voz que se recorda, Não é minha — é o eco do que fui. Ela fala baixo, pede-me que acorde, E o reflexo devolve o que destrói. Não há culpa: há memória e aprendizado, E o olhar, mais manso, busca o essencial. A noite é mestra, o corpo, aliado, E o coração respira sem igual. A voz no espelho ensina o que é sereno: Aceitar-se é o amor mais pleno.
Falo com ela como se falasse A um velho amigo, sábio e discreto. Ela responde em luz, sem que me abrace, Mas cada frase é toque indireto. “Perdoa-te” — diz — “pelos descuidos, Pelos excessos de querer o certo. O amor é feito também de ruídos, E o erro faz do caminho um deserto.” Escuto, atento, e sinto em meu semblante Que o perdão é abraço constante.
O espelho, cúmplice, não censura, Apenas mostra o tempo e sua lida. Cada ruga é lembrança e é ternura, Cada traço é trilha refletida. A noite entende o rito dessa fala, E o ar se faz discípulo da calma. O amor humano é casa que não cala, É templo simples dentro da alma. E o reflexo, entre o claro e o escuro, Ensina a ser gentil com o futuro.
As sombras passam lentas pela parede, E o espelho vibra em tom de serenata. Eu o encaro, e ele cede e cede, Transforma o medo em ponte delicada. Vejo ao fundo rostos de outros tempos, Gente que amei e ainda me habita. O amor se estende, vivo em sentimentos, E o coração, sereno, não limita. A voz retorna e sussurra outra vez: “Amar é errar com lucidez.”
Deixo o reflexo falar o que deseja, Sem resistência, sem me explicar. O silêncio é quem rege e enseja Que o humano aprenda o verbo cuidar. As palavras se dissolvem como neve, E o quarto se ilumina em humildade. A voz do espelho, agora mais leve, Canta: “amar é pura liberdade.” Eu sorrio, e o vidro se embaça, Como se o próprio tempo me abraçasse.
A madrugada abre portas de ouro, E o ar respira o cheiro da confissão. A voz diz: “segue, o amor é tesouro Que só se dá quando é doação.” Eu me inclino e agradeço em silêncio, Com olhos brandos e peito limpo. O reflexo sorri, denso e imenso, E o medo deixa de ser labirinto. A noite entende e guarda a lição: O amor é perdão em expansão.
Apago a luz, o espelho ainda brilha, Como um farol discreto no horizonte. E a voz se apaga, mas vigia, filha Do que em mim deseja ser mais ponte. Deixo o quarto e fecho a porta lenta, Como quem encerra uma oração. No corredor, o chão já se apresenta, E o coração caminha em redenção. O silêncio fala, a alma se refaz, E o humano aprende a paz que traz.
Penso em ti — e a lembrança é ternura, Não mais tormento, mas compreensão. O espelho guarda, fiel, minha figura, E nela mora a nossa união. Pois quem se ama aprende a amar o mundo, E quem se perdoa ensina a fé. O amor humano é simples e profundo, Não tem dogma, tem o que é. A noite termina com rosto em lume: Sou eu — completo, inteiro, costume.
Quando o sol nascer, o espelho dorme, Mas deixará gravada a sua voz. Ela dirá: “sê justo, sê conforme, Ama o outro, mas ama o que é vós.” E o dia abrirá suas cortinas brancas, Com cheiro de café e de renovo. A alma, limpa, em paz e franca, Começará de novo, sempre novo. E o amor, no espelho e em mim, reflete: A vida é quem perdoa e repete.