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Posted in Sem categoria on 7 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

Monólogo ao Livro que Dorme na Mesa Noturna

Posted in Sem categoria on 7 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O quarto respira o lume da lembrança,
E o livro dorme aberto sobre a mesa.
Há uma rosa seca em paz e esperança,
E o ar conserva a mesma sutileza.
Tua letra vive em cada margem,
E o papel guarda o cheiro da tua ausência.
A página suspira em linguagem,
Que mistura silêncio e paciência.
Não leio mais o texto: o texto é vida,
E nele encontro a minha despedida.

A noite, cúmplice, vela o manuscrito,
E o vento folheia sem ruído.
Cada palavra brilha, e no infinito
Reescreve o amor não esquecido.
A mesa guarda o peso do caderno,
E o tempo, ali, parece se deter.
O verbo amar, discreto e sem moderno,
Permanece verbo de entender.
Leio o teu nome e ouço o coração:
É som de fé, ternura e condição.

O livro não ensina, apenas mostra
O que o humano ousa preservar.
As páginas são tábuas, são respostas,
São gestos que aprenderam a escutar.
O amor que ali dorme é paciente,
Não quer glória, tampouco redenção.
É pão partido em mesa consequente,
É disciplina e é revelação.
E a noite, vendo a chama que persiste,
Assina o prólogo de tudo o que existe.

O texto fala sobre convivência,
Sobre o milagre simples do perdão.
Sobre o silêncio feito de presença,
E o riso como forma de oração.
Cada linha é costura, é tentativa
De entender o amor que não se mede.
E o coração, em paz e em narrativa,
Descansa em cada vírgula que pede.
O livro ensina, sem jamais doutrinar:
Amar é verbo, é verbo de cuidar.

Há manchas de café, há mãos antigas,
Há notas de rodapé escritas às pressas.
Há frases cortadas pelas fadigas,
E margens que registram nossas promessas.
Tudo é humano, simples, imperfeito,
E por isso mesmo essencial.
O livro guarda o que é mais direito:
A leveza do que é natural.
E o som do vento, entre as cortinas,
Lê cada página com mãos divinas.

A madrugada chega, atenta e pura,
E o abajur derrama luz discreta.
Na penumbra, a sombra é criatura
Que observa o amor, fiel esteta.
Folheio mais um pouco, e reconheço
Teu rosto desenhado em devaneio.
E o tempo, ao ver, desacelera o preço
De cada erro, de cada meio.
Fecho o livro e beijo o teu escrito:
A noite guarda o gesto mais bonito.

E quando o sol tocar o parapeito,
A mesa ainda será altar e história.
O livro dormirá, pleno e perfeito,
Como memória viva da memória.
E se o dia vier pedir lição,
Darei o livro em prova de ternura.
Porque o amor não cabe em pregação,
Mas em silêncio, tempo e compostura.
Deixo a mesa e a rosa, em seu lugar:
A fé é ler e continuar amar.

No fim, o quarto volta ao seu sossego,
O chão respira, o vidro se debruça.
E a brisa, como um toque em nosso ego,
Sussurra o que a lembrança traduz.
O livro dorme, e nele dorme a gente,
Como capítulos que se entrelaçam.
E o dia, entrando, lê docilmente
As notas que o destino nos repassa.
O amor não tem final, só intervalo:
Cada leitura é novo amparo.

Guardo o livro, e guardo em mim teu nome,
Como um prefácio que jamais termina.
E o som do vento em mim ressoa e some,
Deixando o peito em calma feminina.
Se o mundo pede um texto que explique,
Respondo: “não, o amor não se ensina.”
O livro dorme — e o coração edifica.
A noite é paz, e o verbo se ilumina.
E o leitor, quando por fim acordar,
Verá que amar é sempre recomeçar.

(Betto Gasparetto- xii-mmxiii)

Monólogo do Amor Noturno

Posted in Sem categoria on 6 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite acende o quarto em azul contido,
E o vidro aprende o mapa do teu traço.
Meu nome volta em brisa, comovido,
E a casa abre o rumor do teu abraço.
No abajur, lenta, a luz respira calma,
Enquanto a rua esquece a própria pressa.
Teu rosto é códice que a memória salva,
E o coração traduz sem que confessa.
No livro escuro, escrevo mansamente
O rito humano do cuidado ardente.

A noite é concha, escuta o não-dito,
E o corpo fala éticas de amparo.
O gesto simples torna-se infinito,
Quando a ternura se assume raro.
Eu te prometo o pão do estar presente,
O copo d’água, a manta, a paciência.
E o verbo amar, discreto e consequente,
Faz-se conduta, escolha, consciência.
Nada de altar: só mesa e mão estendidas,
Para ligar nossa dor às nossas vidas.

A janela vê sombras e confidências,
Relógios mudos, passos no ladrilho.
O coração elabora suas ciências,
E remenda o que o dia fez em trilho.
Não somos santos: somos persistência,
Que aprende a ouvir antes de responder.
No breu, o afeto encontra a justa essência:
Cuidar é verbo, não é parecer.
Falo baixinho ao eco dos teus medos,
E aceito em mim teus vícios, teus segredos.

A noite escreve códigos nos móveis,
E o lençol dobra o susto dos cansaços.
Eu te recobro em gestos simples, nobres,
Que devolvem ao mundo novos passos.
Se a culpa vier tarde e te apertar,
Eu serei chão, farol, clareza exata.
E se o passado insistir em voltar,
Minha escuta o desfaz, minha alma o trata.
O amor, noturno, evita os grandes gritos:
Prefere o lume claro dos escritos.

No teto, o breu derrama constelações,
Desenho nelas rotas de retorno.
Teu riso custa às vezes mil perdões,
Mas paga a luz de cada novo outono.
É noite, sim, porém a noite ensina
Que o humano é ponte sobre o precipício.
Que o toque certo cura e reencaminha,
E o erro vira parte do exercício.
Eu guardo em ti o que o dia não guardou,
E a dor se rende ao colo que ficou.

A casa toda aprende a ser mais mansa,
O chão suspira em tábuas de madeira.
A vida, aqui, é lenta e tem esperança,
Bebe do poço azul de tua beira.
Teu rosto inclina o eixo do universo,
E o quarto vira oásis do cansaço.
No silêncio, preparo o meu converso,
Sem acusar, sem ângulo de aço.
O amor noturno é pacto de verdade,
Que salva o agora em sua integridade.

Se a solidão bater pedindo entrada,
Eu ofereço a ela uma cadeira.
Explico, humilde, a nossa caminhada,
E peço que ela sente à cabeceira.
Pois aprender com sombras faz sereno,
E restitui a luz quando amanhece.
Não nego a dor, mas torno o seu veneno
Um antídoto que a vida agradece.
A noite, etérea, assina com canções
O manual dos nossos corações.

E quando o medo morder tua memória,
Eu serei ponte sobre a água fria.
Direi que a culpa é só metade da história,
E que o perdão é a outra metade, dia.
Teu rosto, então, repousa em minha fala,
E a pele aprende o verbo do descanso.
A noite, enfim, se dobra em luz que embala,
E o mundo dorme em pulso lento e manso.
No teu silêncio, escrevo o meu respeito,
E o amor vigia inteiro sobre o peito.

A madrugada abre alas ao horizonte,
E beija a borda pálida da janela.
No parapeito, o sonho é como fonte,
Que verte humana água limpa e bela.
Eu te prometo a ética do abraço,
Que não pergunta antes de acolher.
E quando o dia erguer de novo o laço,
Seremos nós o modo de viver.
Eis meu evangelho simples e terreno:
Noite e memória: amar — nosso terreno.

E se o relógio chamar para a rua,
Eu vou contigo até onde pudermos.
Que a noite guarde a lição clara e nua:
Cuidar é o nome dos que nos quisermos.
Nos teus cabelos pousa o meu jurar,
Nos meus silêncios vive o teu amparo.
O amor que aprende à noite a escutar
Torna o futuro lúcido e mais raro.
E ao nascer do sol, saberemos ambos:
O humano é luz que acende nos abraços.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

Monólogo sobre o Tratado da Memória e do Perdão

Posted in Sem categoria on 5 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A noite inclina a face no batente,
E o corredor conversa com a sombra.
Eu passo os olhos pela tua frente,
E o tempo, manso, desampara a alfombra.
Memória é lâmpada que não se apaga,
Mas muda o tom conforme a compaixão.
Eu te proponho a mesa que não nega:
Pão da verdade e taça do perdão.
Sem ritos, sem discursos, sem vitrina:
Só o cuidado em sua pauta fina.

Primeiro, nomear aquilo que dói,
Sem transformar em pedra ou em sentença.
Depois, tocar devagarinho, e só,
Até que a dor aceite a nossa presença.
O resto é ética de mão aberta,
Que aprende a ouvir e a não vencer.
Vencer é cândida palavra incerta;
Melhor que ela é “junto” e “pertencer”.
No escuro doce, a casa vai dizendo
Que o humano é barro que está aprendendo.

No aparador, retratos se ajeitam,
E os olhos velhos brilham no verniz.
A vida é soma lenta dos que aceitam
Ser menos certos para ser feliz.
Eu te confesso as minhas imperfeições,
E a noite acolhe tudo sem ruído.
Descanso em ti as velhas contradições,
E devolves-me um afeto estendido.
O perdão nasce, simples, sem fanfarra,
Como uma luz que o coração desgarra.

A memória pede ordem e brandura,
Quer que escolhamos o que fica vivo.
Nem tudo é ouro; há restos, há ferrugem,
Mas há também cuidado decisivo.
Eu salvo as tardes, salvo teus abraços,
Salvo os silêncios bons, o chá de sempre.
E a dor, que foi muralha e embaraço,
Vira degrau de um elo que não treme.
No quadro-negro azul do pensamento,
Escrevo: “Amor é justo movimento.”

Se um erro antigo pede a minha face,
Eu dou a face, e junto, o entendimento.
Não para ser herói, mas para que passe
A velha febre do ressentimento.
E quando tua voz tremer pedindo alívio,
Eu serei cais ao fim do teu cansaço.
Pois perdoar é dom sem proselitismo:
É prática mansa, humana e sem aço.
A noite aplaude, as tábuas fazem coro,
E a culpa cede, abrindo novo foro.

O corredor conhece teus segredos,
Os móveis sabem por que estás calada.
Eu não insisto em atalhos ou degredos,
Eu fico aqui: presença demorada.
No abajur, âmbar, a sombra dança,
E cada passo é aula de escutar.
O perdão cresce em ti como esperança,
E em mim se torna hábito de amar.
Memória e noite escrevem, lado a lado,
A ética simples do cuidado dado.

Eu te recordo em horas de ternura,
Quando a cidade apaga sua pressa.
A madrugada afina a partitura,
E a pele sente a paz que não tropeça.
O som da rua é brando e não invade,
O teto guarda estrelas por instinto.
E o coração, cansado de alarde,
Agradece o lume do labirinto.
A noite, então, transforma o que era agrura
Em chão que aceita a nossa criatura.

Se o mundo exige provas e balanços,
Aqui não cabe o cálculo severo.
Aqui cabem respiros e remansos,
E o compromisso ético e sincero.
Perdão não apaga, não encobre as marcas,
Mas torna cada marca inteligível.
E a memória, que antes tinha farpas,
Vira madeira lisa e disponível.
Eu te proponho o pacto mais discreto:
Fazer do humano um porto predileto.

No fim, a noite inclina sua fronte,
E indica o rumo claro do horizonte.
O quarto guarda a fábula da ponte,
Que vai de eu e tu para o horizonte.
Teu rosto enfim repousa em mim, confiante,
E o ar aprende o tom do repousar.
Se a lágrima vier, que seja amante,
Regando a flor que sabe perdoar.
E o livro azul da casa escreve, então:
“Memória e amor fazem revolução.”

Quando o primeiro raio toca o vidro,
O dia lê o que a noite escreveu.
Eu te prometo: sigo ao teu abrigo,
E o mundo em nós aprende o que sou eu.
Se o erro voltar, que volte humano,
Para que o bem o ensine a caminhar.
O nosso trato é claro, cotidiano:
Cuidar, cuidar, cuidar e respeitar.
Fecho a janela e beijo a tua mão:
Começa agora a nossa absolvição.

(Betto Gasparetto- xi-mmxiii)

Uma Lágrima Pousou em Meu Ombro

Posted in Sem categoria on 4 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PARTE I — O CHAMADO DA NOITE

No átrio da noite, o silêncio me chamou,
E a lua, juíza pálida, velava.
Teu nome ardia em cartas que não envio,
Como selo antigo que o tempo lacrava.
O vento trouxe presságios no véu,
Um passo oculto na escada do destino.
Meu peito, palco de guerra e anseio,
Guardava espadas sob o linho fino.
Jurei não crer no acaso traiçoeiro,
Mas tremi ao ver teu vulto passar.
Entre sombras, um pacto primeiro,
Promessa muda de não recuar.
O coração, réu confesso, bateu,
Chamando o risco de amor verdadeiro.
Se o mundo cai, que caia por nós,
Disse a esperança em tom derradeiro.
Assim começou o drama secreto,
Com a noite selando o nosso decreto.


PARTE II — O SUSSURRO DO DESEJO

Teu olhar abriu portais na razão,
Onde o desejo reinava sem lei.
Cada palavra era lâmina e mel,
Doce ferida que eu mesmo cravei.
Nos corredores do tempo tardio,
Teu riso ecoou como sino profano.
Meu sangue aprendeu teu idioma,
Verso proibido, rito humano.
As mãos, conspiradoras do querer,
Rasgaram mapas do certo e errado.
Beijei o perigo sem me defender,
Como quem pede ao céu ser julgado.
O chão cedeu sob nossos passos,
E o mundo girou, cúmplice e lento.
Entre promessas e falsos compassos,
Nasceu o vício do encantamento.


PARTE III — O VÉU DO MISTÉRIO

Havia sombras guardando teu nome,
Cortinas fechadas no palco do ser.
Cada silêncio trazia um presságio,
Um nó antigo difícil de desfazer.
Quem eras tu no espelho da aurora?
Rainha exilada ou sombra leal?
Teu rastro cheirava a segredos,
Como incenso em templo ancestral.
Fingi coragem diante do enigma,
Mas temi o preço de tanta verdade.
Pois quem ama o abismo queima,
E paga com sangue sua liberdade.
Entre sinais que o destino escondia,
O medo vestiu-se de devoção.
A dúvida, víbora fria, mordia
O centro exato do meu coração.


PARTE IV — A LÁGRIMA

Foi então que o mundo parou de girar,
E o tempo curvou-se em reverência.
Teu pranto caiu, suave e tardio,
Como sentença e clemência.
Uma lágrima pousou em meu ombro,
Grão de infinito, cristal ferido.
Ali compreendi todo o drama,
O amor vencido, jamais esquecido.
Teu choro falou o que os lábios negaram,
Confissão nua, sem defesa ou véu.
Os deuses, se havia, silenciaram,
E o céu baixou os olhos ao réu.
Meu peito tornou-se abrigo e cruz,
Onde a dor descansou, cansada.
Naquele instante de sombra e luz,
Nossa história foi enfim selada.


PARTE V — O ECO DO DESTINO

Partiste sem romper o encanto,
Deixando perfumes no ar do salão.
O amor ficou, como espectro santo,
Guardando ruínas no coração.
Hoje caminho entre dias comuns,
Mas levo em mim tua chama antiga.
O mundo sorri com rostos alheios,
Enquanto a memória insiste e castiga.
Se te encontro nos sonhos tardios,
É para aprender a perder outra vez.
Pois amar é pacto com vazios,
É jurar ao risco eterna altivez.
Não choro mais a lágrima caída,
Pois nela vivi minha redenção.
Foi dor, foi chama, foi toda a vida,
Uma lágrima pousou em meu ombro — e então.

(Betto Gasparetto – vi-mcmxciv)