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Monólogo de Quando Teu Corpo Era Verso de Uma Era

Posted in Sem categoria on 4 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O céu amanheceu de azul mais calmo,
E o vento veio em tom de gratidão.
O dia acenou, trazendo o salmo
De um amor que é pura devoção.
Tu me olhaste e o mundo se compôs,
As árvores silenciaram suas preces.
E o tempo, atento, entendeu que nós
Somos o instante em que a paz acontece.
O sol pousou na borda do destino,
E tudo se tornou mais cristalino.

Teu corpo era o verso de uma era,
Que o universo quis experimentar.
E minha voz, canção primeira,
Aprendeu o dom de te chamar.
A eternidade, lá do alto, olhava,
Curiosa com o brilho do momento.
Ela, tão vasta, quase se curvava
Ao ver o amor tomando o firmamento.
E disse, em tom sutil de madrugada:
“É raro ver beleza assim formada.”

Nosso silêncio ensinou orações
Que os anjos repetiram por inteiro.
Não era fé, nem eram confissões,
Era apenas amor verdadeiro.
O céu, ao ver, se fez mais demorado,
E as estrelas, em véu, se comoveram.
O vento trouxe o eco consagrado,
E as folhas, num sussurro, responderam.
O universo sorriu, pleno e contente,
E o tempo se deteve, obediente.

Falamos pouco, porque o amor é rito,
Que o verbo arruína se for demais.
Bastava o olhar, o gesto, o infinito,
E o resto o coração traduz em paz.
Nossos corpos, de luz e paciência,
Desenharam constelações antigas.
E o mundo, em sua sábia consciência,
Guardou o instante em páginas amigas.
E a eternidade, olhando, compreendeu:
O amor é o nome que criou Deus.

Naquela hora, o tempo se despediu,
Com lágrimas discretas nos ponteiros.
O espaço se inclinou, sorriu e viu
Que o amor não tem início verdadeiro.
Não há começo, nem fim, nem clausura,
Só o pulsar constante e luminoso.
E o universo, tocado pela altura,
Nos fez canção de ciclo majestoso.
E o vento disse ao mar, ao sol, à lua:
“O amor venceu o tempo — e a rua.”

Quando a eternidade aprendeu o nome,
Ela o guardou num cofre de alvoradas.
E prometeu, por graça e por costume,
Levá-lo em versos por todas as estradas.
E o amor, humilde, aceitou sorrindo,
Sem precisar de trono ou monumento.
Pois sabia, em seu modo mais lindo,
Que o viver é seu próprio testamento.
E a eternidade, dócil, em reverência,
Jurou lembrar o amor com paciência.

E eu, que nada quis além da vida,
Aprendi o verbo de te abrigar.
E o céu, ouvindo a alma comovida,
Assinou conosco o verbo amar.
E quando o mundo, cansado e incerto,
Apagar o que resta do que é vão,
A eternidade, firme, há de estar perto,
Tocando o amor com sua própria mão.
E quando o fim chegar, como promessa,
Será começo em nova fortaleza.

E se o tempo ousar nos separar,
A eternidade há de intervir.
Ela, que sabe o dom de aproximar,
Refará caminhos, mar e porvir.
Pois o amor é chama que não some,
É água que não seca nem declina.
E quando o vento soprar teu nome,
O céu inteiro em mim se ilumina.
E a eternidade, rindo e comovida,
Dirá: “Este é o nome que dá vida.”

E então, no espaço imenso do universo,
Seremos nota breve, som, refrão.
O amor, em seu registro mais diverso,
Soará em nós, sutil oração.
Não mais haverá noite ou distância,
Nem perda, nem medo, nem saudade.
A eternidade, em pura consonância,
Guardará o amor como verdade.
E o tempo, grato, enfim compreenderá:
Que o amor é o nome que o eterniza já.

E quando a luz apagar no último abrigo,
E o corpo dormir no chão do destino,
A eternidade, fiel, virá contigo,
E o amor seguirá seu desatino.
Porque, afinal, o tempo é só passagem,
E o amor é o que dele se resume.
E o universo, em seu eterno estágio,
Há de gravar em pólen e perfume:
Que o amor venceu, no espaço e no renome,
Quando a eternidade aprendeu teu nome.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

EU TENHO UMA NOTÍCIA PARA VOCÊ… (parte 1 de 2)

Posted in Sem categoria on 3 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

MOMENTO I — O ANÚNCIO

VOCÊ:
Por que você parou assim?
Você entrou, olhou ao redor… e ficou em silêncio.

EU:
Porque algumas frases não entram numa sala.
Elas pesam antes mesmo de serem ditas.

VOCÊ:
Então não diga.
Se é pesada demais, deixe onde estava.

EU:
Não posso.
Eu trouxe comigo.
E agora ela sabe que você existe.

VOCÊ:
O quê sabe?

EU:
A notícia.


MOMENTO II — O TEMPO SUSPENSO

VOCÊ:
Não gosto quando você chama algo pelo nome antes de explicá-lo.
É assim que as tragédias começam.

EU:
Nem toda tragédia explode.
Algumas apenas esperam.
Como uma carta fechada em cima da mesa.

VOCÊ:
Você está me preparando?

EU:
Não.
Estou testando se você percebe o que já mudou.

VOCÊ:
Mudou o quê?

EU:
O jeito como o silêncio te olha agora.


MOMENTO III — O MEDO SEM ROSTO

VOCÊ:
Desde que você entrou, a casa parece menor.
As paredes escutam.

EU:
Elas sempre escutaram.
Você só nunca reparou.

VOCÊ:
Essa notícia…
Ela é sobre mim?

EU:
Tudo é sobre quem pergunta.
Mas nem tudo responde.

VOCÊ:
Então é ruim.

EU:
É inevitável.


MOMENTO IV — O JOGO DOS SINAIS

VOCÊ:
Diga ao menos se vem do passado.

EU:
O passado não avisa.
Ele retorna.

VOCÊ:
Do futuro, então?

EU:
O futuro sussurra.
E você já ouviu.

VOCÊ:
Então é o presente.

EU:
O presente é só o ponto onde tudo se encontra…
e ninguém sabe para onde correr.


MOMENTO V — A FRASE QUE NÃO VEM

VOCÊ:
Você prometeu uma notícia.

EU:
Eu prometi que a tinha.
Nunca prometi entregá-la.

VOCÊ:
Isso é crueldade.

EU:
Não.
Crueldade seria tirá-la de você
antes que estivesse pronto para desconfiar.

VOCÊ:
Desconfiar de quê?

EU:
De tudo que parece normal demais esta noite.


MOMENTO VI — O FECHAMENTO

VOCÊ:
Então você vai embora?

EU:
Vou.
Mas a notícia fica.

VOCÊ:
Onde?

EU:
No intervalo entre o que você sabe
e o que prefere não perguntar.

VOCÊ:
E se eu nunca descobrir?

EU:
Então ela cumprirá perfeitamente seu papel.

(Silêncio.)

VOCÊ:
Você ainda está aí?

EU:
Sempre estive.

(Betto Gasparetto – ix-mmxxiii)

EU TENHO UMA NOTÍCIA PARA VOCÊ… (parte 2 de 2)

Posted in Sem categoria on 3 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

MOMENTO I — A FRASE SUSPENSA

EU:
Você disse que tinha algo para me contar.
Desde então, não fez mais nada além de respirar diferente.

VOCÊ:
Algumas notícias mudam de forma quando são observadas.
Prefiro deixá-la onde ainda é só possibilidade.

EU:
Possibilidade do quê?

VOCÊ:
Do que você não está preparado para reconhecer.


MOMENTO II — O SILÊNCIO QUE RESPONDE

EU:
O silêncio não costuma responder,
mas o seu está gritando.

VOCÊ:
Porque você insiste em encará-lo.
Há silêncios que só existem quando são provocados.

EU:
Então é culpa minha?

VOCÊ:
A dúvida sempre escolhe onde pousar.


MOMENTO III — O MEDO SEM NOME

EU:
Desde que você chegou, tudo parece fora do lugar.
O tempo não avança.

VOCÊ:
Ele avança.
Só não passa por onde você está olhando.

EU:
Essa notícia…
Ela me ameaça?

VOCÊ:
Toda verdade ameaça antes de esclarecer.


MOMENTO IV — O LABIRINTO

EU:
Diga ao menos se vem do passado.

VOCÊ:
O passado não pergunta se pode entrar.
Ele apenas se senta.

EU:
E o futuro?

VOCÊ:
O futuro não chega.
Ele observa.

EU:
Então é agora.

VOCÊ:
Agora é apenas o lugar onde o medo aprende a esperar.


MOMENTO V — A RECUSA

EU:
Você me deve uma resposta.

VOCÊ:
Não.
Eu te devo a consciência da pergunta.

EU:
Isso é um jogo?

VOCÊ:
É um espelho.


MOMENTO VI — O QUE FICA

EU:
Você vai dizer ou não?

VOCÊ:
Se eu disser, a notícia acaba.
Se eu não disser, ela começa.

EU:
E se eu desistir?

VOCÊ:
Ela seguirá com você mesmo assim.

EU:
Onde?

VOCÊ:
No ponto exato entre o que você quer saber
e o que teme confirmar.

(Silêncio.)

EU:
Você ainda está aqui?

VOCÊ:
Sou eu que nunca saí.

(Betto Gasparetto – ix-mmxxiii)

Vazio Posto à Mesa

Posted in Sem categoria on 3 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

(Brenda GG – iii-i-mmxxvi)

Monólogo sobre o Tempo Que Morou Dentro de Nós

Posted in Sem categoria on 3 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O tempo veio, entrou sem cerimônia,
Sentou-se à mesa e pediu café.
Disse: “vim ver se a vida ainda é idônea,
Se o amor ainda fala o que bem quer.”
Nós rimos, cúmplices, por gentileza,
E o tempo achou curioso o nosso riso.
Ele, tão velho, viu que a singeleza
Ainda era abrigo, norte e aviso.
Tomou do pão, partiu com paciência,
E disse: “a eternidade é convivência.”

Teus olhos, sábios, olharam-no em calma,
E o tempo viu-se ali, rejuvenescido.
Tua presença ensinou-lhe a alma,
Que amar é verbo, nunca sucedido.
E eu, sentado ao lado do mistério,
Percebi que o amor vence o calendário.
O tempo, humilde, confessou o sério:
“Vocês viveram fora do horário.”
E nós sorrimos, leves de razão,
Com a eternidade posta à mão.

O tempo quis saber como é possível
Manter o lume em brasa sem se exaurir.
Disse-lhe: “é simples, é invisível,
É só cuidar, sem medo de existir.”
E ele, curioso, fez silêncio longo,
Para entender o ofício do afeto.
O amor, discreto, acendeu o tongo
De uma vela no meio do concreto.
E o tempo, vendo o brilho dessa chama,
Percebeu que o amor também o ama.

“Como resistem às horas impiedosas?”
Perguntou o tempo, um tanto comovido.
“Vivendo lento, com fé nas coisas rosas,
E rindo do que um dia foi perdido.”
“E o corpo?” – ele quis saber – “E o cansaço?”
“Fazem parte da lição e do percurso.”
“E as dores?” – insistiu – “E o descompasso?”
“São sementes de paz, quando em discurso.”
E o tempo, ouvindo, suspirou profundo:
“Vocês amam mais velho que o mundo.”

Depois se levantou, nos abençoou,
E o chão brilhou sob a luz de sua pena.
“Eu volto sempre que o relógio parou,
Pois onde há fé, o tempo se serena.”
E foi embora, leve, sem presságio,
Deixando um cheiro antigo de jasmim.
Nós nos olhamos, rimos de coragem,
E o mundo inteiro coube ali, enfim.
O amor dormiu, cansado e agradecido,
E o tempo, ao longe, acenou rendido.

Agora sei: o tempo mora em nós,
Feito hóspede discreto e atencioso.
Ele nos serve o chá, empresta voz,
E observa o amor, curioso e idoso.
Aprendeu, conosco, a ter doçura,
A falar baixo e a ouvir devagar.
E quando a pressa chega em desventura,
Ele suspira e pede pra esperar.
Porque entendeu, e escreve em sua foz:
“O tempo só existe entre os que são dois.”

Quando, afinal, o tempo for embora,
Levará fotos, cartas e canções.
Mas deixará no chão da nossa aurora
Um rastro claro de recordações.
E nós, contentes, abriremos a janela,
Para que o vento assine o seu adeus.
O sol virá brilhar na tarde bela,
E o céu guardará os nomes teus.
E o tempo, em paz, há de reconhecer:
Amar é o jeito humano de viver.

O tempo, então, nos deixará sozinhos,
Mas de saudade mansa, não cruel.
O coração, maduro em seus caminhos,
Baterá firme, claro, fraternal.
E cada hora, doce, será nova,
Mesmo que o corpo aprenda o fim da estrada.
Porque o amor, que em nós se renova,
Faz da velhice a aurora mais dourada.
E o tempo, vendo o brilho em nossos rostos,
Dirá: “a vida é feita em contrapostos.”

Assim termina a crônica serena,
De quem viveu com alma em construção.
E o tempo, agora amigo, se acalenta,
Em cada ruga mora uma canção.
O mundo gira, as flores se inclinam,
E o amor escreve a história outra vez.
O tempo assina: “Aqui, tudo ilumina,
E a eternidade mora em sua vez.”
Que seja sempre assim — o mesmo nós,
E o tempo em paz, morando entre nós.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)