Arquivo para janeiro, 2026

Monólogo da Saudade Serena

Posted in Sem categoria on 2 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

A saudade chegou devagarinho,
Sentou-se à mesa, pediu para ficar.
Trouxe um caderno, lápis e carinho,
E disse: vamos juntos inventariar.
Primeiro, os passos dados sem alarde,
Que foram pão no dia mais difícil.
Depois, os beijos tímidos da tarde,
Que transformaram bruma em clarividência.

II
Anotei teu perfume, brando e limpo,
E o modo como o riso te acalmava.
Anotei teu silêncio, manso e simples,
E a paz que, em mim, tua presença dava.
Guardei o tom exato do teu nome,
E o jeito como a porta te acolhia.
Guardei o corpo inteiro e seu pronome,
E a luz que, ao tocar, florescia.

III
A saudade sorriu, porque conhece
Os inventários de quem ama em paz.
Disse: segue, escreve o que te aquece,
E deixa o que é ferida para trás.
Registrei nossas tardes de varanda,
O chá, o pão, o sol no parapeito.
O som da rua ao longe que nos manda
Um recado de mundo imperfeito.

IV
Anotei as viagens que faltaram,
Não como falta, mas como horizonte.
Anotei velhas cartas que choraram,
E viraram água doce sobre a fonte.
Reuni pequenos gestos escondidos,
O cobertor passado sobre os ombros,
“O sim” discreto aos sonhos distraídos,
E o não gentil aos tantos escombros.

V
Eu quis guardar até o que não lembro,
Porque há lembranças feitas de ternura.
E a saudade assentiu, com rosto novembro,
Dizendo: tudo isso é tua estrutura.
Depois pedi um tempo ao coração,
Para escrever o que dói e ensina.
A saudade, paciente, deu a mão,
E disse: põe no papel e caminha.

VI
Anotei noites longas de vigília,
Janelas, lâmpadas, breves horizontes.
Registrei descompassos e cautelas,
Os nós antigos, prantos e cansaços.
Mas cada dor ganhou novas janelas,
E converteu-se em firmeza nos abraços.
Quando olhei para a lista tão comprida,
A saudade fechou o caderno e disse:
Vês como o amor bordou tua vida,
E como o tempo só te quis feliz?

VII
Eu sorri, e pedi mais um capítulo,
Para escrever o agora, aqui, presente.
Ela assentiu: o agora é o mais lícito,
Pois nele o coração floresce e sente.
Então escrevi teu nome uma centena
De vezes, em caligrafia lenta.
E cada letra era uma açucena,
E cada linha, uma manhã atenta.

VIII
Escrevi: hoje te espero com doçura,
E te recebo em paz e vigilância.
Escrevi: cuido em mim do que te cura,
E em ti confio a minha confiança.
A saudade, contente, pediu pausa,
Para beber da luz do fim da tarde.
Eu trouxe água, pão e nossa causa,
E a mesa recebeu nossa saudade.

IX
Disse: inventário feito não termina,
Pois cada dia aumenta a coleção.
Eu respondi: o amor é disciplina,
E armazena o trigo da estação.
Ela sorriu: então, prossegue e vive,
Com esse cuidado claro e generoso.
E eu escrevi: que nada nos derribe,
Que o cotidiano seja vitorioso.
Então fechei o livro com carinho,
E guardei no armário da memória.

X
Deixei marcado o próximo caminho,
Para que a vida leia a nossa história.
Se fores longe, eu sigo te guardando,
Se fores perto, eu sigo te acolhendo.
E se a noite vier nos visitando,
Acenderei o lume do entendimento.
E quando a aurora abrir sua janela,
A saudade sorrirá na cozinha.
Nossa alegria, simples, larga e bela,
Fará do pão palavra que caminha.
Eu sei que ainda faltam muitos itens,
Mas cada um surgirá quando chamarmos.

XI
Porque o amor, em sua lei de ritmos,
Anota e apaga, para que amemos.
E a saudade, serena, me garante:
Inventariar é jeito de cuidar.
Eu assinei, com tinta de amante:
Prefiro a fé que sabe demorar.
Se o tempo perguntar quem nós somos,
Direi: somos quem guarda e devolve.

XII
Se o mundo perguntar se continuamos,
Direi: sim, com o que cura e resolve.
Se Deus do tempo vier nos visitar,
Oferecemos mesa e escutação.
E a saudade há de então testemunhar:
Amor maduro é nossa profissão.
E quando a vida fechar o caderno,
Abriremos outro, mais aberto e terno.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

12 Maneiras de Como o Amor Supera a Solidão

Posted in Sem categoria on 1 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

1. O reencontro consigo é o primeiro abraço

Antes de amar outro, é preciso acolher-se.
A solidão ensina o tom exato do cuidado.
O amor que nasce de um ser inteiro
não busca remendo, mas comunhão.

A cura começa quando o coração se escuta.

——*—*—*—–

2. O amor não invade, ele se harmoniza

A paixão que respeita o silêncio floresce.
Não chega como tempestade, mas como poesia.
Ele não exige — compreende.
E, na presença tranquila, dissolve o medo antigo.

O verdadeiro amor não ocupa: ele acompanha.

——*—*—*—–

3. A ternura é o idioma dos que renasceram

Depois da dor, o toque ganha outro sentido.
É gesto lento, sem urgência ou domínio.
A ternura é o sopro que substitui o grito.
É a vitória da escuta sobre a pressa.

Quem aprendeu a esperar, sabe amar.

——*—*—*—–

4. O tempo se torna cúmplice

Não há mais relógio, há ritmo.
Cada segundo respira, cada olhar tem pausa.
A pressa dá lugar ao cuidado.
E o amor cresce no compasso da maturidade.

Só o tempo lapida o que é verdadeiro.

——*—*—*—–

5. O corpo volta a ser templo, não refúgio

O toque deixa de ser fuga e vira linguagem.
O abraço deixa de preencher vazio
e passa a expressar sentido.
O amor não consola — ele desperta.

A presença cura onde a ausência habitava.

——*—*—*—–

6. O perdão deixa o amor respirar

Nenhum coração prospera no rancor.
Perdoar não é esquecer, é libertar o caminho.
É permitir que o passado deixe de dirigir o presente.
Amar é permitir-se leveza.

Quem perdoa renasce sem peso.

——*—*—*—–

7. O diálogo substitui o medo

O silêncio antes servia de armadura.
Agora é espaço de troca.
O amor maduro fala com doçura,
porque entende que a palavra também é abrigo.

Conversar é o modo mais profundo de tocar.

——*—*—*—–

8. A esperança se torna hábito

O amor que superou a solidão não duvida do amanhã.
Ele não teme as distâncias, nem o tempo.
Vive de fé serena, sem ansiedade.
E faz da esperança um modo de estar no mundo.

Quem confia no porvir, já habita a paz.

——*—*—*—–

9. O passado vira bênção, não prisão

Os amores que se foram ensinaram o caminho.
A saudade vira biblioteca, não ferida.
Nada se perde quando se compreende.
O que doeu transforma-se em luz de lembrança.

Amar de novo é honrar o que passou.

——*—*—*—–

10. O companheirismo substitui o espetáculo

O amor que permanece é discreto.
Não precisa provar-se, apenas estar.
Na cumplicidade mora a eternidade.
E a convivência torna-se poesia cotidiana.

Amar é dividir o silêncio com paz.

——*—*—*—–

11. A liberdade se torna forma de afeto

Não há posse onde há amor.
A solidão curada aprende a partilhar sem medo.
Cada um mantém seu céu,
mas ambos se refletem no mesmo horizonte.

Liberdade é a assinatura do amor maduro.

——*—*—*—–

12. A vida reencontra sua música

Depois da solidão, o amor não é grito, é melodia.
Cada olhar tem som, cada gesto tem cadência.
Não há pressa — há harmonia.
E a existência inteira dança em comunhão.

Quando o amor supera a solidão, o mundo volta a cantar.

(Betto Gasparetto – vii-mmi)