O Que Permanece Quando Tudo Passa (04/10)
(Betto Gasparetto)
A ausência não gritava.
Ela se acumulava.
Em cadeiras vazias,
em pratos a menos,
em cartas que não chegavam.
O amor deixou de ser companhia
e virou disciplina:
continuar sentindo
quando tudo ensinava a endurecer.
Capítulo IV — A Guerra e a Ausência
Najillah, a Musa — A Vida Entre Filas e Silêncios

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A cidade mudou de ritmo.
As manhãs começaram com ruídos de rádio.
Não eram músicas; eram boletins.
O pão ficou menor.
A fila ficou maior.
O tempo virou espera.
Ela aprendeu a medir a vida por faltas.
Faltava açúcar.
Faltava tecido.
Faltava luz.
Faltava notícia.
O trabalho ficou mais pesado.
O cansaço ficou mais permanente.
Ela passou a guardar sobras.
A reaproveitar tudo.
A costurar remendos com delicadeza.
O vestido virou utilidade.
A cor virou acaso.
Os sapatos perderam a elegância.
E isso doeu mais do que ela esperava.
Não pela vaidade.
Pelo símbolo.
A guerra tirava pequenos sinais de normalidade.
A casa ficou mais fria.
Mesmo no verão.
As pessoas falavam baixo.
Como se o medo escutasse.
Ela viu cartazes novos nos muros.
Propaganda.
Avisos.
Chamados.
Proibições.
A noite tinha apagões.
Cortinas grossas.
Janelas vedadas.
A rua, silenciosa demais.
Ela aprendeu a dormir com sobressaltos.
Aprendeu a acordar sem motivo.
Aprendeu o som da sirene.
E a diferença entre longe e perto.
As cartas viraram alimento emocional.
Quando chegavam.
Muitas não chegavam.
Ela escrevia mesmo assim.
Escrevia para manter o vínculo vivo.
Descrevia coisas pequenas.
O jardim que não floresceu.
O cheiro do café fraco.
A vizinha que chorou.
O bonde atrasado.
A criança que pediu doce.
Ela escondia o terror.
Por pudor.
Por amor.
Por medo de destruir o que os sustentava.
As mãos dela aprenderam a tremor discreto.
O rosto aprendeu a sorriso econômico.
Ela foi ficando adulta depressa.
Mas sem ganhar segurança.
Ganhou apenas resistência.
O amor deixou de ser companhia.
Virou prova.
Virou disciplina.
Virou oração sem linguagem religiosa:
um hábito de persistir.
Ela guardava uma foto dele.
Num envelope.
Como se papel pudesse proteger.
Ela tocava o retrato quando faltava ar.
E isso a fazia continuar.
Porque a guerra não era só bombas.
Era a erosão diária da esperança.
Ela começou a entender:
a ausência também mata.
Mas mais lentamente.
E deixa o corpo inteiro vivo para sentir.
Yahzzir, o Menestrel— O Homem Reduzido a Sobrevivência
O uniforme não era fantasia.
Era uma segunda pele imposta.
Ele aprendeu regras novas.
Aprendeu horários rígidos.
Aprendeu a obedecer por instinto.
Aprendeu a engolir perguntas.
A guerra exigia rapidez.
E punia hesitação.
Ele sentiu o primeiro choque real
quando viu um corpo no chão
e percebeu que não podia parar.
A vida virou deslocamento.
Estradas.
Barracas.
Trens militares.
Cheiros de óleo e fumaça.
O tempo não era mais calendário.
Era intervalo entre riscos.
Ele viu homens corajosos quebrarem.
Viu homens agressivos chorarem.
Viu silêncio virar idioma comum.
A fome existia.
Mas o medo era maior.
Ele aprendeu a dormir em minutos.
Aprendeu a acordar pronto.
Aprendeu a ouvir tudo.
Passos.
Vento.
Estalos.
O amor, no começo, era calor no peito.
Depois virou lembrança.
Depois virou dor.
Não por falta de sentimento,
mas por excesso de realidade.
Ele escreveu cartas rápidas.
Poucas palavras.
Sem poesia.
Sem descrição demais.
Porque descrever podia matar alguém por dentro.
Ele dizia que estava bem.
Mesmo quando não estava.
Ele dizia que voltaria.
Mesmo sem saber.
Ele carregava uma coisa dela:
um lenço, um perfume, uma fotografia.
Isso o mantinha humano.
Mas também o enfraquecia.
A guerra não queria humanidade.
Queria função.
Ele viu cidades partidas.
Pontes quebradas.
Hospitais lotados.
Ele viu o mundo se dissolver em ruína.
E sentiu raiva.
Mas a raiva também cansava.
Ele começou a viver em camadas:
a camada de fora, obediente;
a camada de dentro, intacta por teimosia.
À noite, quando havia silêncio,
o peso vinha inteiro.
Os rostos que não saíam da mente.
Os sons que insistiam.
O cheiro metálico do medo.
Ele se perguntava se ainda era ele.
E respondia com o nome dela.
Como quem segura uma corda na escuridão.
Ele notou que estava ficando mais velho.
Não por idade,
mas por desgaste moral.
Na guerra, não existe apenas ferida física.
Existe uma alteração no olhar.
Ele percebeu:
não era mais possível voltar igual.
E isso o aterrorizou.
Porque voltar diferente era, também,
voltar com risco de não ser reconhecido.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)













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