(Betto Gasparetto)
O limite não foi a explosão.
Foi o depois.
Quando o corpo seguia funcionando
e a alma demorava a alcançar.
A guerra ensinou algo cruel:
é possível continuar respirando
sem continuar inteiro.
Capítulo V — A Guerra | O Limite
Najillah, a Musa — O Dia em Que a Cidade Quebrou

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Houve um dia específico.
Ela não esqueceu.
O ar estava pesado.
O céu tinha um cinza estranho.
As pessoas andavam rápido.
Ninguém se olhava.
A sirene veio antes do som das explosões.
E então o mundo tremeu.
Ela correu.
Não sabia para onde.
A rua virou grito.
Vidros viraram chuva.
Poeira tomou a garganta.
Ela sentiu o corpo pequeno.
Sentiu o coração bater errado.
Entrou em um abrigo com desconhecidos.
Apertos.
Cheiro de medo.
Choro contido.
Silêncio obrigatório.
Ela segurou a própria respiração.
E pensou nele como se fosse última vez.
Quando saiu, a rua era outra.
Uma parede caiu.
Uma loja desapareceu.
Um poste estava no chão.
A normalidade tinha sido arrancada.
As pessoas procuravam nomes.
Ela também procurou.
Mas não era por alguém ali.
Era por Yahzzir, longe.
Ela percebeu o absurdo:
a guerra destruía o que estava perto
e ameaçava o que estava longe.
À noite, ela sentiu tremor nas mãos.
Sem frio.
Sem febre.
Só impacto.
O amor virou medo concreto.
Ela deixou de pedir notícias.
Passou a implorar por existência.
Ela aprendeu a viver com sobressalto.
Qualquer ruído era ameaça.
Qualquer demora era presságio.
Os muros foram cobertos de propaganda.
Os jornais traziam palavras duras.
A cidade perdeu cores.
Os rostos perderam juventude.
Ela, com 20 anos,
sentiu-se antiga.
A guerra não matava só pessoas.
Matava ritmo, beleza, delicadeza.
Ela ficou mais dura por fora.
Para proteger o que restava por dentro.
E isso, em segredo,
a entristecia.
Porque ela lembrava quem tinha sido.
E agora vivia como outra.
Mesmo sem querer.
Mesmo sem escolha.
Yahzzir, o Menestrel — O Ponto Sem Retorno
O limite não foi uma batalha só.
Foi a soma.
Foi um dia em que o barulho não parava.
Foi o cheiro de fumaça grudado na pele.
Foi a visão repetida de queda.
Foi a sensação de que a vida
podia terminar por acaso.
Ele correu.
Abaixou.
Levantou.
Obedeceu.
E, no meio disso,
teve um instante de lucidez brutal:
se eu morrer aqui,
ela não saberá como.
A ideia o atingiu mais que qualquer explosão.
Ele percebeu o tamanho da distância.
O amor, naquela hora,
não era conforto.
Era lâmina.
Porque amar aumentava o que se podia perder.
Ele viu um amigo cair.
E não pôde parar.
Isso o feriu de um jeito novo.
Um ferimento moral.
Depois, à noite,
ele lavou as mãos
e não sentiu que limpava.
Ele começou a questionar
a própria humanidade.
A guerra exigia o impossível:
ser máquina e ser homem ao mesmo tempo.
Ele continuou por disciplina.
Mas a disciplina também se desintegrava.
Ele ficou mais silencioso.
Mais duro.
Mais atento ao vazio.
As cartas ficaram ainda menores.
Duas linhas.
Três.
Um “estou vivo” implícito.
Ele guardava palavras
como se fossem munição emocional.
Porque gastar demais
podia deixar nada para o dia seguinte.
Ele se pegou imaginando o rosto dela.
E não conseguindo lembrar detalhes.
Isso o apavorou.
Então ele repetiu mentalmente:
olhos, boca, cabelo, riso.
Como quem recita para não perder.
Ele entendeu que a guerra
não mata apenas com armas.
Mata com esquecimento.
E ele jurou, sem dizer,
que não deixaria a memória dela morrer dentro dele.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)














