O Que Permanece Quando Tudo Passa (06/10)
(Betto Gasparetto)
Voltar não foi reencontro.
Foi confronto.
Entre quem ficou
e quem precisou partir por obrigação.
A guerra terminou,
mas não devolveu os mesmos corpos
nem as mesmas expectativas.
Capítulo VI — Fim da Guerra e o Retorno Incerto
Najillah, a Musa — O Reencontro Como Teste

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Quando disseram que a guerra estava acabando,
ela não comemorou de imediato.
A alegria parecia irresponsável.
Como se o mundo ainda pudesse desmentir.
Ela esperou.
Como esperou sempre.
O retorno dele virou ideia fixa.
Mas também virou medo.
Porque o retorno era desconhecido.
Ela imaginava o rosto dele.
Mas sabia que o rosto mudaria.
Ela imaginava o abraço.
Mas sabia que o abraço poderia falhar.
A estação estava cheia.
Gente com flores, malas, lágrimas.
Ela estava ali.
Com um buquê simples.
As mãos tremiam.
Ela tinha 20 anos,
mas parecia carregar uma década a mais.
Quando o trem chegou,
o som não foi romântico.
Foi metal e fumaça.
E então ela o viu.
Ele estava mais magro.
Mais quieto.
O olhar mais fundo.
Ela reconheceu.
Mas também estranhou.
E isso doeu.
Como se amar alguém
fosse também aceitar o desconhecido.
Eles se aproximaram.
O abraço veio.
Mas não foi perfeito.
Foi rígido no começo.
Como se os corpos
não soubessem mais o idioma antigo.
Ela sentiu o cheiro dele.
E chorou sem controlar.
Não por felicidade.
Por descarga.
Por tudo que ficou preso.
Ela viu que ele carregava silêncio.
E entendeu:
o fim da guerra não devolve a vida imediatamente.
Apenas permite tentar de novo.
Ela apertou a mão dele.
E decidiu não exigir.
Decidiu reconstruir.
Mesmo sem garantia.
Yahzzir, o Menestrel — Voltar Não é Retornar
Ele chegou com o corpo inteiro
e com a mente cheia de ausências.
O barulho do trem parecia pequeno
perto do que ele carregava.
Na plataforma, ele viu gente sorrindo,
e estranhou o sorriso.
Como se sorrir fosse coisa antiga.
Então viu ela.
E algo nele que ainda era humano
se moveu.
Ele quis correr.
Mas não correu.
O corpo aprendeu a conter.
Ele caminhou.
Ela estava ali, jovem,
e ao mesmo tempo
com um olhar mais velho.
Ele percebeu isso no primeiro segundo.
Percebeu que a guerra também a atingiu.
O abraço foi real,
mas atravessado.
Ele sentiu o próprio peito duro.
Como se tivesse esquecido a maciez.
Ele quis dizer muito.
Mas as palavras não vieram.
Porque a guerra roubou a espontaneidade.
Ele segurou a mão dela.
E teve medo de não ser reconhecido por dentro.
Ele era 25 anos.
Mas se sentia desgastado.
Ele percebeu que voltar
é entrar em um lugar
que continuou sem você.
E isso fere.
Fere o orgulho.
Fere a ideia de pertencimento.
Ele notou olhares ao redor.
Curiosidade.
Julgamento.
Ele não queria ser herói.
Queria ser homem comum novamente.
Mas não sabia como.
Ao lado dela, no caminho para casa,
o mundo parecia limpo demais.
Silencioso demais.
E isso o inquietava.
Porque a paz também pode ser estranha.
Ele decidiu, sem falar,
que o amor seria uma reconstrução.
Não um retorno.
Uma obra nova sobre terreno ferido.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)



























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