O Que Permanece Quando Tudo Passa (07/10)

 (Betto Gasparetto)

Eles aprenderam que amar alguém ferido
é amar sem atalhos.
Sem pressa.
Sem exigir retorno imediato.
O amor virou reconstrução lenta
sobre terreno instável.

Capítulo VII — Pós-Guerra e o Estranhamento

Najillah, a Musa — Conviver com um Sobrevivente

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa parecia a mesma.
Mas não era.
Os móveis estavam no lugar.
As paredes intactas.
Mas o ar havia mudado.
Ela observava pequenos gestos dele.
O modo como fechava portas.
O silêncio prolongado.
A atenção excessiva aos ruídos.
Ela percebeu que ele dormia mal.
Acordava antes do amanhecer.
Ficava sentado.
Olhando nada.
Ela tentou retomar hábitos antigos.
Cozinhar juntos.
Ouvir música.
Falar do dia.
Alguns funcionavam.
Outros falhavam.
O amor agora exigia cuidado.
Não entusiasmo.
Ela sentia falta do homem anterior.
E se culpava por isso.
Porque ele estava vivo.
E isso deveria bastar.
Mas amar alguém que voltou diferente
é aprender a amar outra pessoa
sem trair a memória da primeira.
Ela sentia o corpo dele distante.
Não fisicamente.
Mas como se estivesse sempre pronto para partir.
Ela não pressionava.
Aprendeu que pressão fecha ainda mais.
Ela observava.
Esperava.
A juventude dela começava a se despedir.
Não por idade.
Mas por lucidez precoce.
Ela sentia cansaço emocional.
Mas não desistência.
Ela sabia que reconstruir
não era devolver o passado.
Era aceitar o que sobrou.
Ela teve medo de não ser suficiente.
Medo de não alcançar o homem
que ainda estava preso em outro tempo.
Mesmo assim, ficou.
Porque amar, naquele momento,
era ficar quando tudo pedia fuga.


Yahzzir, o Menestrel— Habitar um Corpo em Paz

A paz era barulhenta.
Não pelos sons.
Pelo vazio.
Ele não sabia onde colocar a atenção.
A ausência de ordens o desorganizava.
Ele acordava pronto para agir
sem saber o que fazer.
O corpo reagia antes da mente.
Ele se sentia deslocado.
Dentro da própria casa.
Dentro do próprio nome.
Ela estava ali.
E isso o ancorava.
Mas também o expunha.
Porque ele não queria feri-la
com aquilo que não sabia explicar.
Ele se sentia inadequado.
Incompleto.
Às vezes, perigoso demais para a normalidade.
Ele evitava falar do que viveu.
Não por segredo.
Mas porque as palavras não davam conta.
Ele via o esforço dela.
E isso o constrangia.
Porque ele não sabia como corresponder.
O amor agora exigia reaprendizado corporal.
Aprender a tocar.
A dormir.
A permanecer.
Ele sentia culpa por sobreviver.
Culpa por voltar.
Culpa por não estar inteiro.
A guerra havia terminado.
Mas ele ainda estava lá dentro.
Ele percebeu que o amor não cura.
Mas sustenta.
E isso era mais difícil de aceitar.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

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