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Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 1/8

Posted in Sem categoria on 10 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Prólogo — Do Chamado Que Não Espera

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Não houve presságio escrito nos astros,
nem édito proclamado nas praças.
A decisão nasceu sem cerimônia,
como nascem as grandes rupturas da história,
quando o homem percebe
que permanecer é mais perigoso que partir.

As casas ainda dormiam,
as cidades fingiam eternidade,
e os mapas, soberbos,
acreditavam conhecer o mundo.
Mas a viagem não pediu permissão aos calendários,
não negociou com relógios,
não respeitou heranças nem promessas antigas.

Partimos sem estandarte,
sem bênção oficial,
sem o conforto das explicações.
Levávamos apenas a consciência inquieta
de que toda civilização,
antes de ruir,
passa pelo exílio interior de seus filhos.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
não será por derrota militar
nem por miséria imposta,
mas porque aprendemos, tarde e a custo,
que o excesso de posses
entorpece o espírito
e enferruja o passo.

Assim começou a travessia:
não como fuga,
não como aventura,
mas como gesto histórico,
digno dos que sabem
que toda época exige
um sacrifício silencioso
para que o futuro tenha onde pousar.

———————–o-o-o——————

Parte I — Da Partida Sem Nome

O dia rompeu sem anúncio,
como se a aurora tivesse sido subornada pelo acaso.
Nenhuma trombeta soou nos muros,
nenhum arauto leu decretos.
A cidade respirava rotina,
e ainda assim, algo se desfazia por dentro.

Partimos quando a poeira era promessa,
e o caminho, apenas intenção.
As portas ficaram como estavam,
não por descuido,
mas por respeito à memória que não se fecha.
A viagem começou antes do passo,
no instante em que o coração recusou a inércia.

Não houve data escrita,
pois o tempo, soberano, negara audiência.
O calendário caiu do bolso
como moeda inútil em terra estrangeira.
Seguimos leves,
e a leveza, aprendemos,
é um fardo que exige coragem.

As mãos, já quase vazias,
ainda tremiam com hábitos antigos.
Queriam segurar nomes,
reter vozes,
guardar o peso das casas.
Mas o caminho, severo,
ensinou que segurar demais
é outra forma de cair.

Avançamos sob céus indecisos,
entre nuvens que pareciam arquivos da história.
Cada passo reescrevia um passado,
cada silêncio anulava um argumento.
Não se via destino,
apenas direção.
E isso bastava.

Os rios foram cruzados sem ritual,
as pontes, atravessadas sem promessa.
Aprendemos a medir distância
pelo cansaço honesto do corpo
e pela lucidez que nasce do erro aceito.
Não perguntamos quanto faltava,
pois perguntar seria desejar retorno.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
disse alguém sem voz definida,
saberemos o valor do gesto simples:
seguir.
Não para vencer,
não para provar,
mas para não trair a própria consciência.

As vilas passaram como notas marginais,
rostos olharam sem nos conhecer,
e fomos aprendendo o idioma do mundo:
olhar,
ouvir,
calar.
A estrada prefere discípulos atentos
a viajantes vaidosos.

A noite caiu sem piedade,
e nela encontramos abrigo.
Não havia teto além do céu,
nem certeza além do fôlego.
Dormimos com a dignidade dos que aceitaram
que a história não se escreve com conforto,
mas com decisão.

Ao amanhecer, nada foi recuperado,
e ainda assim, tudo estava inteiro.
A viagem, agora assumida,
pediu fidelidade.
E juramos, sem palavras,
honrar o caminho
até que as mãos, por fim vazias,
aprendessem a carregar apenas o essencial.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)