Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 2/8
(Betto Gasparetto)
Parte II — Do Caminho Que Ensina

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
O segundo dia não pediu licença ao cansaço,
apenas chegou,
como chegam as lições que não admitem adiamento.
O corpo ainda guardava a forma da casa,
o hábito da sombra conhecida,
mas a estrada já exigia outra postura:
ombros menos curvados ao passado,
olhos mais atentos ao presente instável.
Caminhamos sem pressa declarada,
pois a pressa pertence aos que sabem onde chegar.
Nós apenas seguíamos,
e nesse seguir havia método,
ainda que não houvesse plano.
O chão variava de textura e cor,
como se o mundo testasse
a fidelidade do passo humano.
As paisagens não pediam contemplação,
impunham respeito.
Campos abertos lembravam impérios extintos,
montes silenciosos evocavam sentinelas antigas.
Cada pedra parecia conhecer
mais história que nós,
e talvez por isso
aceitasse nossa passagem sem juízo.
As mãos, agora mais leves,
já não procuravam bolsos inexistentes.
Aprendiam o gesto novo
de permanecer abertas.
Com elas tocávamos o ar,
o frio da manhã,
o pó que se erguia breve,
como memória sem apego.
Houve momentos de dúvida,
não negamos.
A dúvida caminhava ao lado,
como velho conselheiro cético.
Perguntava em silêncio
se a viagem tinha sentido,
se não seria mais sábio retornar,
se a renúncia não era exagero.
Mas o caminho respondia com firmeza:
avançar também é pensar.
Encontramos estranhos,
e deles nada exigimos.
Recebemos água,
um gesto,
um olhar neutro.
Aprendemos que a hospitalidade verdadeira
não nasce do excesso,
mas do reconhecimento mútuo da fragilidade.
À tarde, o sol impôs lentidão.
O suor apagou distinções,
igualou vontades.
Ali compreendemos que o corpo
é o primeiro arquivo da história,
e que toda jornada coletiva
se escreve nos músculos
antes de chegar aos livros.
Quando nossas mãos estiverem vazias,
repetíamos sem solenidade,
o mundo não nos cobrará posses,
mas postura.
A dignidade, percebemos,
não depende do que se leva,
mas do modo como se atravessa
o que resiste.
Ao cair da noite,
o fogo foi pequeno,
mas suficiente.
Em torno dele, o silêncio ganhou densidade,
não como ameaça,
mas como pacto.
Ninguém contou histórias grandiosas,
pois a própria marcha
já se tornava narrativa.
Dormimos sem sonho claro,
e ainda assim, em paz relativa.
O caminho, agora aceito como mestre,
ensinava sem pressa,
mas sem concessão.
E nós, aprendizes tardios,
seguimos,
sabendo que a viagem
não mais permitiria inocência,
apenas lucidez.
(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)
Deixe um comentário