(Betto Gasparetto)
Parte III — Da Memória Que Se Desprende

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A manhã abriu-se como arquivo antigo,
folhas amareladas pelo vento do agora.
Nada nos chamou pelo nome,
e isso foi alívio.
Sem nome, caminhamos mais leves,
sem rótulo, o passo erra menos.
A memória tentou governar o ritmo,
erguendo marcos invisíveis,
indicando atalhos já trilhados,
advertindo sobre quedas conhecidas.
Mas o caminho, paciente e austero,
ensinou que lembrar não é mandar,
é apenas acompanhar em silêncio.
Passamos por ruínas que fingiam grandeza,
muros que já sustentaram coros e armas.
Ali aprendemos que toda obra humana
pede desapego no fim,
e que a glória, quando dura demais,
costuma cobrar juros altos.
As mãos, mais vazias a cada légua,
perderam o reflexo do aperto.
Descobriram o gesto simples de apontar,
não para possuir,
mas para reconhecer.
Reconhecer o céu mutável,
a terra firme,
o limite honesto do corpo.
Houve um rio de corrente fria,
sem ponte, sem história recente.
Entramos sem discurso,
pois a água não negocia.
Atravessamos atentos,
sentindo o peso do erro possível,
aprendendo que atravessar
é confiar no equilíbrio breve.
Do outro lado, o mundo era o mesmo,
e isso nos ensinou humildade.
A viagem não prometia revelações súbitas,
apenas ajustes lentos,
essas correções que salvam trajetórias
sem fazer alarde.
Quando nossas mãos estiverem vazias,
disse o mais velho do grupo,
a memória deixará de ser âncora
e se tornará bússola.
Não para voltar,
mas para evitar repetir.
E seguimos,
menos reféns do que fomos.
O entardecer trouxe vozes distantes,
cantos que não nos pertenciam.
Respeitamos o intervalo,
pois toda cultura merece margem.
Aprendemos a passar sem invadir,
a ouvir sem colecionar.
A noite chegou sem presságio,
e nela fizemos balanço curto.
Nada foi perdido de fato,
apenas reposicionado.
O essencial, percebemos,
não ocupa espaço nas mãos,
mas exige lugar na conduta.
Dormimos com a serenidade possível,
sabendo que o dia seguinte
não traria respostas prontas.
E isso bastava.
A viagem seguia firme,
não para apagar o que fomos,
mas para ensinar, passo a passo,
como desprender sem negar,
como lembrar sem prender,
como seguir sem ruído.
(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)
