Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 4/8
(Betto Gasparetto)
Parte IV — Do Exílio Interior

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O quarto amanhecer não trouxe novidades visíveis,
mas deslocou o eixo do olhar.
Já não buscávamos sinais externos,
pois o deslocamento agora ocorria por dentro.
A estrada permanecia austera,
contudo o juízo tornara-se mais lento,
e essa lentidão era conquista.
Cruzamos territórios onde a história
ainda respirava sob a terra.
Campos marcados por passos antigos,
trilhas abertas por migrações esquecidas.
Ali compreendemos que todo viajante
repete, sem saber,
gestos de antepassados anônimos,
e que partir é herdar um impulso antigo.
As mãos, quase sem memória de posse,
já não sentiam falta do peso.
O vazio deixara de ser ausência
para tornar-se margem.
Com mãos vazias,
o corpo aprendia a equilibrar-se melhor,
e o espírito, enfim,
cessava de negociar com o medo.
Houve uma cidade de muros gastos,
onde entramos como quem pede licença.
Não ficamos.
Observamos apenas.
As ruas falavam de permanência excessiva,
de casas que esqueceram a arte do abandono.
Saímos em silêncio,
respeitando o que não nos cabia corrigir.
Quando nossas mãos estiverem vazias,
disse alguém ao cruzar o portão,
não tentaremos salvar o mundo,
apenas não o agravaremos.
E seguimos,
com essa ética breve
que nasce da renúncia consciente.
O sol do meio-dia trouxe fadiga honesta.
Sentamo-nos à sombra rara,
e ali ninguém falou de saudade.
A saudade, aprendêramos,
é matéria delicada,
e exige maturidade para não se impor.
Guardamo-la como se guarda um texto antigo,
sem rasuras,
sem leitura em voz alta.
A tarde alongou o caminho.
Os passos já não competiam entre si.
Caminhávamos como um só ritmo,
não por uniformidade,
mas por escuta mútua.
A viagem começava a ensinar convivência,
essa arte difícil
que só se aprende fora das paredes conhecidas.
O céu mudou de cor sem aviso,
e com ele mudou o tom do pensamento.
Aceitávamos o imprevisto
sem exigir explicação.
A história, sabíamos agora,
raramente avisa antes de transformar.
Ao cair da noite,
o silêncio não pesou.
Era silêncio habitável,
como o de bibliotecas antigas
onde o saber repousa sem pressa.
Dormimos com o exílio interior assumido,
sabendo que já não pertencíamos inteiramente
ao lugar de onde viéramos,
nem ainda ao destino invisível.
A viagem, nesse ponto,
deixara de ser deslocamento.
Tornara-se método.
E no método havia disciplina,
não de ferro,
mas de consciência desperta.
Assim seguimos,
sabendo que o exílio mais difícil
não é o da terra,
mas o daquilo que fomos obrigados
a abandonar dentro de nós.
(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)
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