Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 5/8

(Betto Gasparetto)

Parte V — Da Vigília Sem Retorno

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O quinto dia ergueu-se como sentinela,
não para alertar perigos,
mas para exigir atenção contínua.
Já não caminhávamos por impulso,
nem por simples obediência ao chamado inicial.
Caminhávamos por vigília,
essa forma elevada de permanência em movimento
que a história reserva aos que compreenderam demais
para voltar a dormir em certezas.

A paisagem tornou-se mais severa.
Menos árvores,
menos sombras condescendentes.
O horizonte, largo e austero,
lembrava que a liberdade
não se mede pela variedade do conforto,
mas pela capacidade de suportar o aberto
sem pedir abrigo imediato.

As mãos, agora definitivamente vazias,
não procuravam mais nada.
Haviam aprendido a repousar
sobre o próprio gesto de estar abertas.
E nesse estado,
descobrimos que o vazio não é carência,
mas condição para receber
aquilo que não se compra nem se guarda.

Encontramos um trecho de estrada antiga,
marcado por sulcos profundos,
obra de rodas que já não existem.
Ali percebemos que toda viagem
é continuação de outras,
e que o solo guarda memória
melhor que qualquer crônica escrita.
Passamos com cuidado,
como quem atravessa um arquivo vivo.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
disse-se entre passos,
não haverá troca possível
além da responsabilidade.
Nada ofereceremos senão presença,
nada pediremos além de passagem.
E isso bastará
para não ferir o que ainda resiste.

O vento mudou de direção ao meio-dia,
trazendo poeira e perguntas.
Alguns quiseram falar,
outros preferiram calar.
Respeitamos ambos,
pois a viagem ensinara
que a consciência amadurece
em ritmos distintos,
e que impor lucidez
é apenas outra forma de violência.

Avançamos por horas sem referência,
e o cansaço deixou de ser obstáculo
para tornar-se régua.
Medíamos o dia pelo desgaste honesto,
não pela distância percorrida.
Aprendemos ali
que a fadiga pode ser justa
quando nasce de decisão assumida.

Ao entardecer,
o céu adquiriu tons metálicos,
como se anunciasse
uma era menos indulgente.
Sentimo-nos pequenos,
não por humilhação,
mas por ajuste de escala.
A viagem colocava o humano
no tamanho correto.

Não houve fogueira naquela noite.
A vigília pediu escuridão inteira.
Sentamo-nos em silêncio atento,
observando o mundo continuar
sem nossa interferência.
Foi ali que compreendemos,
com clareza incômoda,
que a história não precisa de espectadores constantes,
apenas de sujeitos responsáveis
quando chamados a agir.

Dormimos pouco,
e mesmo assim descansamos.
Pois a mente, finalmente alinhada ao caminho,
já não se dispersava em desejos de retorno.
A vigília seguia,
e com ela a certeza silenciosa
de que não haveria volta confortável.

A viagem avançava,
não como promessa de chegada,
mas como compromisso ético.
E naquele quinto estágio,
soube-se, sem celebração,
que o retorno não estava mais disponível.
Não por proibição externa,
mas porque a lucidez adquirida
já não permitiria
habitar o mundo antigo
sem desonrar tudo o que fora aprendido.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)

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