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Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 6/8

Posted in Sem categoria on 15 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Parte VI — Do Peso da Clareza

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O sexto dia apresentou-se sem véus,
como fazem as verdades que não pedem ornamento.
Nada precisava ser provado,
pois a prova já caminhava conosco.
A estrada parecia a mesma,
mas o olhar, agora treinado,
percebia nuances antes ignoradas,
fendas mínimas onde a história respira.

A claridade não trouxe conforto.
Trouxe precisão.
Cada gesto revelava consequência,
cada passo, responsabilidade.
Já não era possível fingir distração,
nem atribuir ao acaso
aquilo que nascia de escolha reiterada.
A viagem cobrava consciência plena.

As mãos, vazias por inteiro,
sentiam o frio da manhã
como quem sente um argumento irrefutável.
Sem objetos,
sem símbolos herdados,
elas aprendiam a servir
apenas ao equilíbrio do corpo
e à ética do caminho.

Passamos por um vale silencioso,
onde o som parecia respeitar o terreno.
Ali não se falava alto,
não por medo,
mas por reconhecimento.
O lugar exigia escuta.
E escutar, aprendêramos,
é forma rara de coragem.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
sussurrou alguém com voz firme,
não nos será permitido
negociar com a ignorância.
Saber implica dever,
e dever implica renúncia
à comodidade de não escolher.
Seguimos, aceitando o fardo.

A claridade do meio-dia
exibiu limites antes disfarçados.
O corpo reclamou com honestidade,
e ninguém o censurou.
Cuidar do corpo tornou-se ato político,
pois sustentava a marcha coletiva.
Aprendemos que perseverar
não é violentar-se,
mas manter-se íntegro.

Encontramos um antigo marco de pedra,
sem inscrição legível.
Talvez tivesse marcado fronteiras,
talvez túmulos,
talvez apenas a vaidade de alguém.
Passamos sem tentar decifrar,
pois compreender tudo
não é exigência da viagem,
apenas respeitar o que não se entende.

À tarde, o vento cessou,
e o silêncio ganhou densidade.
Cada um enfrentou a própria clareza,
essa lâmina que separa
o que é essencial
do que era apenas hábito.
Não houve celebração,
apenas ajuste interior.

A clareza pesa,
porque elimina desculpas.
E naquele ponto da travessia,
sabíamos que não poderíamos mais
atribuir ao mundo
o que cabia a nós sustentar.
A estrada não carrega ninguém,
apenas acompanha.

Quando a noite chegou,
não houve resistência.
Aceitamo-la como parte do método.
A escuridão não ameaçava,
apenas delimitava.
Dormimos com a lucidez vigilante,
sabendo que o dia seguinte
não traria novas regras,
apenas aprofundaria as já aprendidas.

A viagem, agora madura,
não prometia revelações súbitas.
Prometia coerência.
E compreendemos, com sobriedade,
que o peso da clareza
é o último fardo
antes da liberdade real.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)