Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 7/8

(Betto Gasparetto)

Parte VII — Do Grão e do Oceano

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Chegamos ao penúltimo trecho sem fanfarra,
pois o fim verdadeiro dispensa anúncio.
O caminho alargou-se em silêncio,
e o mar surgiu como juízo antigo,
não para acolher,
mas para medir.
Ali compreendemos, sem metáfora gentil,
a desproporção que nos define.

O homem não é senão um grão,
um ínfimo risco na margem do tempo,
uma sílaba breve no discurso do mundo.
Nada em nós sustenta o peso do oceano,
e ainda assim insistimos em nomeá-lo,
em cercá-lo com ideias,
em reduzir sua vastidão a mapas frágeis.

As ondas não escutam intenções,
não respondem a súplicas,
não se comovem com narrativas pessoais.
Elas avançam porque avançar é sua lei,
e recuam apenas para retornar com mais verdade.
Diante delas, a soberba cai
como ornamento gasto.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
não por estética nem penitência,
mas por reconhecimento do limite,
veremos que todo excesso humano
é ruído desnecessário.
As vaidades, outrora defendidas,
revelam-se frágeis engenhos,
perfumarias de espírito,
artifícios que evaporam ao primeiro vento sério.

Nada restou para exibir,
e isso foi libertação.
Sem títulos,
sem discursos de ocasião,
sem o teatro das certezas repetidas,
o homem finalmente se viu pequeno
o bastante para ser verdadeiro.

O oceano ensinou sem palavras
que não há centro para o humano,
apenas passagem.
Que a história não se curva à biografia,
e que o mundo não se organiza
para confortar consciências individuais.
Essa lição não humilha;
ajusta.

As mãos, totalmente vazias,
não buscaram preencher-se.
Descansaram.
E no descanso, compreenderam
que o essencial nunca esteve nelas,
mas no modo como o corpo se inclina
diante do que o excede.

Todos os sentimentos mundanos
foram medidos ali,
não pelo brilho,
mas pela duração.
O amor que resiste à vastidão,
a dor que não exige palco,
a esperança que não barganha com promessas,
a fé sem ornamentos,
a ética sem plateia.

Nada de essências fáceis,
nada de consolos artificiais,
nada de discursos adoçados
para distrair o medo.
A margem exigia sobriedade,
e a sobriedade, coragem.
Quem buscasse enfeite
não suportaria permanecer.

O homem, reduzido ao grão que é,
ganhou exata dimensão.
Nem rei do mundo,
nem pó desprezível,
mas parte mínima de um conjunto vasto,
responsável por seus gestos,
irrelevante em sua pretensão de domínio,
essencial apenas na honestidade do passo.

O oceano não prometeu salvação,
apenas continuidade.
E isso bastou.
Pois seguir, após compreender o tamanho real,
é o mais alto ato de maturidade.

Assim terminou a viagem,
não com chegada,
mas com entendimento.
O caminho cessou de exigir avanço,
porque o avanço havia se tornado interno.
E ali, à beira do gigante,
o homem, enfim despojado,
aprendeu que viver não é ocupar espaço,
mas atravessá-lo com dignidade.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)

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