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Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 8/8

Posted in Sem categoria on 17 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Ato VIII — O Que Permanece (A Travessia Sem Glória)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Nada se fechou com estrondo.
O término verdadeiro não precisa de selo.
A vida seguiu, não por inércia,
mas por decisão silenciosa
de não interromper o que ainda pulsa.

O passado perdeu autoridade narrativa.
Continuou existindo,
mas já não comandava o gesto.
Memórias tornaram-se registro,
não sentença.
Foram colocadas em prateleiras acessíveis,
não mais sobre a mesa central.

O futuro recusou promessas extensas.
Planos longos soaram imprecisos.
Restou o alcance curto,
o dia possível,
a tarefa que cabe
entre o amanhecer e o repouso.
Isso não empobreceu a vida;
tornou-a praticável.

A identidade, antes fragmentada,
encontrou arranjo funcional.
As contradições não cessaram,
apenas perderam o direito
de governar sozinhas.
Conflitos passaram a coexistir
sem exigir resolução dramática.

O amante esquizofrênico
não foi curado,
nem absolvido,
nem transformado em exemplo.
Foi compreendido o bastante
para não se destruir em excesso.
Essa compreensão parcial
mostrou-se suficiente.

O amor, despido de delírio,
ocupou lugar discreto.
Não prometeu eternidade,
não exigiu exclusividade heroica.
Limitou-se a existir
quando havia espaço,
a retirar-se quando não havia.
Essa forma menor revelou-se durável.

O ódio perdeu densidade simbólica.
Sem palco interno,
sem justificativa grandiosa,
dissolveu-se em episódios breves,
logo reconhecidos,
logo contidos.
Persistir nele seria regressão.

A alegria reapareceu sem anúncio.
Não como êxtase,
mas como concordância momentânea
entre gesto e intenção.
Pequenos instantes sustentaram dias inteiros
com eficiência inesperada.

O sofrimento não desapareceu.
Mudou de estatuto.
Deixou de ser centro narrativo
e tornou-se dado do percurso.
Algo a ser administrado,
não dramatizado.

A morte permaneceu no horizonte,
não como ameaça iminente,
mas como limite estável.
Sua presença retirou urgências falsas
e concedeu seriedade às escolhas.
Nada além disso.

A justiça continuou distante.
A impunidade, regular.
O mundo manteve seu funcionamento desigual.
Essa constatação deixou de gerar revolta crônica
e passou a exigir posicionamento ético mínimo:
não ampliar o dano,
não reproduzir a violência.

A liberdade assumiu forma concreta.
Consistiu em não mentir para si,
em recusar papéis incompatíveis,
em aceitar consequências sem teatralização.
Não foi ampla,
mas foi real.

O exílio consolidou-se como condição.
Não mais doloroso,
nem heroico.
Apenas estado de quem não retorna
ao conforto da ilusão coletiva.
Habitar a margem tornou-se hábito.

O corpo, ainda presente,
continuou a impor seus ritmos.
Cuidá-lo deixou de ser projeto
e tornou-se dever cotidiano.
Sem corpo,
nenhuma travessia se sustenta.

O silêncio ocupou o espaço final.
Não como ausência,
mas como campo estável.
Ali, pensamentos não disputavam primazia.
Tudo encontrou posição suficiente
para não colapsar.

A balada vulgar encontrou seu tom definitivo.
Não celebrou vitória,
não chorou derrota.
Limitou-se a narrar o atravessamento
com honestidade possível.

Nada foi conquistado para além do necessário.
Nada foi perdido que fosse essencial.
Esse equilíbrio imperfeito
definiu o ponto de parada.

O oitavo ato encerrou-se sem fechamento simbólico.
A travessia não terminou;
apenas perdeu urgência dramática.
Continuar tornou-se gesto neutro,
mas consciente.

E nesse continuar,
sem aplauso esperado,
sem redenção prometida,
firmou-se uma verdade simples:
viver não é resolver o mundo,
nem salvar a si,
mas sustentar o percurso
com a menor distorção possível
entre aquilo que se pensa,
aquilo que se faz
e aquilo que se aceita como limite.

Assim permaneceu o que permanece:
não um sentido absoluto,
mas uma coerência mínima,
suficiente para seguir
sem negar o vivido
nem exigir do futuro
mais do que ele pode oferecer
: O INFINITO!

A ETERNIDADE…

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)