(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Escrevi estes sonetos movido menos pelo desejo de celebrar o amor do que pela necessidade de compreendê-lo. Não como exaltação romântica, mas como experiência que revela a condição humana quando esta é submetida à passagem do tempo e à instabilidade do mundo.
Vivemos numa era em que tudo se acelera e se dissolve. A palavra se desgasta, os vínculos se fragilizam, e a experiência é substituída pela aparência. Debord chamou isso de espetáculo; Arendt, de banalização; Bauman, de liquidez. O que me inquieta não é apenas a fragilidade das relações, mas a fragilidade da consciência.
O amor, nestes poemas, não surge como promessa de eternidade, mas como acontecimento que ilumina a precariedade. O instante — tão breve quanto decisivo — possui a gravidade de uma revelação. Goethe intuía que o vivido intensamente toca o eterno; Camus lembrava que a lucidez nasce da confrontação com o absurdo; Montaigne ensinou que refletir sobre si é o primeiro exercício de liberdade.
Por isso, retorno insistentemente a espaços de travessia: átrios, claustros, escadas, colinas. São metáforas do movimento interior. Cada despedida não é ruína, mas exame. Cada ausência não é vazio, mas reconfiguração da memória. Amar, nesse contexto, significa aceitar a impermanência sem ceder ao cinismo.
Se há algo que estes sonetos pretendem afirmar é que o efêmero não diminui a experiência humana — ele a intensifica. O que passa pode instruir; o que se dissolve pode clarificar; o que não permanece pode formar.
Não escrevi para fixar o amor, mas para aprender com ele. E talvez essa aprendizagem — íntima e coletiva — seja uma das poucas formas de resistência num mundo que tende a esquecer.
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I – Do Amor Transitório e da Sabedoria Perene
“Tudo o que passa, se for inteiro, deixa ciência no peito.” (inspirado em Camões)
No cais da tarde, a névoa fez-se tela,
e o teu olhar — veloz clarão de estrela —
cortou-me a vida, e a ânsia fez-se nela
rosa que arde e se desfaz na velha.
Beijei-te a voz; e a hora, sentinela,
roubou-nos o fervor, sem dar apela;
ficou no chão a seda da aquarela,
ficou no sangue a lição, grave e bela.
Se o amor é vento, ensina a direção:
não prende o céu — mas mostra o seu perfil;
faz do adeus uma clara fundação.
E eu, que perdi, ganhei-me, mais sutil:
o breve foi escola do coração,
e o eterno, um aprender sereno e vivo.
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II – Do Breve Ardor e da Longa Memória
“O fogo se apaga; a luz aprende a morar em nós.” (inspirado em Khalil Gibran)
Ardeu em mim teu riso, e foi centelha,
na sala antiga, ao som de chuva fria;
tua mão, que era brasa, prometia
um reino ao pó que a dúvida aconselha.
Mas foi-se o ardor — e a noite, em calma velha,
trouxe-me a paz de um salmo sem liturgia;
a chama, que se foi, ainda alumia
o corredor de sombras onde eu vela.
Memória é pão que o tempo não consome,
vinho guardado em ânfora discreta;
não dói: amadurece, e não some.
E assim te levo, não por ser completa,
mas porque o breve, quando se renome,
vira em silêncio a mais fiel promessa.
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III – Da Paixão que Passa e do Saber que Fica
“O que se perde em corpo, ganha-se em sentido.” (inspirado em Neruda)
No mercado do sol, entre romãs,
tua cintura traçou meu desvario;
eu, marinheiro de um desejo bravio,
dei-te meu nome em conchas soberãs.
Passou — e as ruas, súbitas e vãs,
guardaram só o aroma do teu fio;
mas ficou-me a certeza: no vazio
se aprende o peso exato das manhãs.
Paixão é rio: não pede permanência;
leva, no entanto, ao mar do entendimento,
onde a alma lê sua própria experiência.
E o que ficou, depois do movimento,
foi um saber sem dor, sem impaciência:
amar é ir — e retornar por dentro.
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IV – Do Instante Amado e da Eternidade Aprendida
“Há instantes que duram porque nos refazem.” (inspirado em Shakespeare)
Num teatro sem luz, a rua em cena,
tu me sorrias — máscara sincera;
e o mundo, que me era pedra severa,
fez-se jardim na palma de uma pena.
Foi só um passo, e a sorte, tão pequena,
mudou meu rumo como quem espera;
depois, o tempo, ávido, viera
cobrar do beijo a conta mais amena.
Mas aprendi: o eterno não se mede
por calendário, sino, nem estação;
mora no gesto, quando a alma cede.
E o instante amado, em sua condição,
faz-se infinito ao coração que pede
não posse — apenas lúcida visão.
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V – Da Carne Efêmera e do Espírito que Aprende
“O pó não nega a chama; apenas a revela.” (inspirado em Camões)
Teu corpo era clarim de madrugada,
pura arquitetura em mármore vivente;
beijei-te a pele, e, súbito, na mente,
ergueu-se uma catedral inesperada.
Mas toda forma, ao sol, é nau quebrada;
o sal do tempo corrói o mais contente;
e eu vi que a carne, bela e transparente,
é flor que ensina a ser contemplada.
O espírito, contudo, não se gasta:
aprende a amar sem ânsia de corrente,
faz do desejo um cântico que basta.
E o que era posse vira um dom ardente:
a vida passa, sim — mas, quando arrasta,
deixa em nós a verdade mais paciente.
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VI – Do Fogo Rápido e da Cinza que Ensina
“A cinza não é fim: é mapa de recomeços.” (inspirado em Khalil Gibran)
Acendeu-se em meu peito um fogo breve,
num quarto azul de espelhos e jasmim;
tua palavra, lâmina sem fim,
abriu-me o céu, e a febre foi mais leve.
Depois, restou a cinza, calma neve,
sobre o tapete antigo de cetim;
e eu, sem teu passo, sem teu clarim,
soube ouvir o silêncio que me escreve.
A cinza guarda a forma do que arde,
e ensina ao coração — que sempre erra —
que o brilho tem seu preço e sua tarde.
Por isso, aceito o pó que a hora encerra:
do incêndio eu tiro a lucidez que guarde,
e do adeus faço paz sobre a terra.
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VII – Entre o Instante e o Infinito
“A ponte do agora é feita de atenção.” (inspirado em Shakespeare)
Entre o segundo e o abismo da distância,
teu nome foi o sino a me guiar;
eu caminhava, sem saber ficar,
num fio de neblina e de constância.
O instante é ave: pousa sem fragrância,
e logo voa, sem se anunciar;
mas o infinito, ao lento contemplar,
nasce onde a alma aprende a ter paciência.
Se eu te perdi, não foi por desamor:
foi porque o mundo, áspero moinho,
moe até o trigo puro do fervor.
Ainda assim, no íntimo caminho,
eu junto o breve ao vasto em seu labor:
ser é tocar o céu sem ter destino.
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VIII – Onde o Amor Se Despede e o Tempo Ensina
“O adeus é um mestre que fala baixo.” (inspirado em Camões)
Na estação, o metal tremia frio,
e a tua mala era um país fechado;
um lenço, uma promessa, um rosto amado,
e o trem — destino — devorando o fio.
Tu me disseste pouco, e esse vazio
foi mais profundo que um discurso dado;
partiste, e o relógio, disciplinado,
bateu-me em sangue o seu severo brio.
O tempo ensina: não há voz que prenda
o que nasceu para seguir além;
não há muralha que o vento não fenda.
E eu, que chorava, compreendi também:
amar é desejar que a vida acenda,
mesmo que a luz se acenda em outro alguém.
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IX – A Escola dos Afetos Breves
“Não desprezes o pouco: o pouco educa.” (inspirado em Khalil Gibran)
Numa livraria antiga, entre cadernos,
teu riso caiu leve sobre mim;
foi aula sem professor, clara, sem fim,
no pó dourado dos instantes ternos.
Tão curto foi — que a noite, em seus invernos,
mal conseguiu entender o meu jardim;
contudo, esse pequeno clarim
moveu-me o mundo em rumos mais eternos.
Aprendi que o afeto, quando passa,
não é engano: é seta para dentro,
é mão discreta que a alma abraça.
E assim me torno, ao teu breve ensinamento,
menos refém do medo que ameaça,
mais companheiro do meu próprio tempo.
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X – Lições de um Amor que Durou um Segundo
“Um segundo pode ser século no coração desperto.” (inspirado em Neruda)
Te vi na esquina, e o sol, como um punhal,
abriu na tarde um ouro repentino;
teu passo, em trança de perfume fino,
fez do meu peito um porto vertical.
Não houve fala — e, mesmo assim, total
foi o sinal que eu li no teu destino;
um segundo — e eu, só, sem norte, sem caminho,
tive na alma um verão monumental.
Primeira lição: não se manda no encanto;
segunda: o olhar é pátria sem fronteira;
terceira: o mundo muda com um canto.
E eu sigo, desde então, de vida inteira,
guardando em mim, sem drama e sem quebranto,
o relâmpago manso da primeira.
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XI – O Que Fica Depois do Abraço
“O abraço termina; a ternura continua trabalhando.” (inspirado em Shakespeare)
Depois do abraço, a casa fica estranha,
como se o ar lembrasse a tua mão;
a mesa guarda a forma da paixão,
e o chão repele a sombra que o acompanha.
Fica um rumor de mar, fina campanha
no coração, que aprende a solidão;
fica um perfume antigo no clarão,
e uma coragem nova que se apanha.
O que fica não é a dor que insiste:
é a delicada arte de aceitar,
é a força quieta do que em nós persiste.
Pois quem amou não volta ao mesmo lugar:
traz no silêncio o lume que resiste,
e um modo mais inteiro de olhar.
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XII – A Arte de Amar e Partir
“Partir não nega o amor; depura-o.” (inspirado em Camões)
Amar é dar sem algema, e, no entanto,
não converter o dom em sacrifício;
é ser altar e ser também ofício,
e não chamar de posse o que é encanto.
Partir é compreender, no mesmo pranto,
que a vida não se curva ao nosso vício;
é despedir-se, limpo de artifício,
como quem fecha um livro em tom de canto.
Se o amor foi luz, que siga iluminando;
se foi caminho, que se faça em paz;
se foi ferida, que se vá curando.
E eu me despeço — e nisso me refaz:
amar é ir, sem ódio, sem comando,
e ser maior do que a falta nos traz.
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