Quando a Impermanência Brota das Inquietações
(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Estes sonetos nasceram de uma inquietação persistente: por que aquilo que não permanece pode nos formar com tamanha profundidade?
Goethe sugeriu que o vivido intensamente toca o eterno; Rilke percebeu na ausência uma presença mais sutil; Pessoa transformou a despedida em exercício interior; Borges viu no tempo uma pedagogia austera; Gabriela Mistral reconheceu a vastidão do inacabado; Tagore associou liberdade ao gesto de soltar; Sophia de Mello Breyner elevou a experiência à categoria de mestra invisível; Octavio Paz recordou que o coração humano é geometria móvel.
Esses ecos atravessam estas páginas.
Os cenários recorrentes — átrios, claustros, escadas, terraços, fontes, colinas — não são ornamentais. São metáforas de transição. Cada espaço sugere uma travessia interior. O amor, aqui, não é promessa de estabilidade, mas acontecimento que ilumina a precariedade da condição humana.
Vivemos em uma época que confunde intensidade com excesso e permanência com posse. As relações se tornaram rápidas; a linguagem, volátil; a experiência, fragmentada. Escrever sobre o efêmero é, portanto, gesto deliberado: trata-se de afirmar que a brevidade não é superficialidade. O instante, quando vivido com lucidez, possui densidade ontológica.
A despedida modela. A ausência reorganiza. O desapego educa. O inacabado abre horizontes.
Se há uma convicção nestes poemas, é esta: o transitório não diminui a vida — ele a esclarece. E talvez, em tempos de dispersão e ruído, compreender a impermanência seja uma das poucas formas de permanência que ainda nos restam.
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I – O Peso Luminoso do Efêmero
“Tudo quanto vive intensamente toca o eterno.”(Inspirado em Johann Wolfgang von Goethe)
No átrio antigo, sob vitrais de bruma,
teu riso ergueu-se em lâmpada serena;
a tarde, em púrpura, tornou-se plena,
e o mundo fez-se claro como espuma.
Mas foi-se o ardor — qual tênue vaga em suma —
deixando em mim a essência mais amena;
aprendi que a chama, quando pequena,
vale mais que a noite que a consuma.
Se o instante é frágil lâmina de luz,
é também ponte ao vasto entendimento,
é o sopro breve que o destino induz.
E o que parece mínimo momento
transfigura-se em sábia contraluz:
o efêmero educa o pensamento.
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II – O Jardim que Floresceu na Ausência
“A ausência é a forma invisível da presença.”(Inspirado em Rainer Maria Rilke)
Entre colunas de mármore cansado,
teu passo ecoou leve na arcaria;
o ar trazia um odor de maresia
e o céu pendia em ouro fatigado.
Partiste, e o claustro, outrora iluminado,
guardou teu vulto em muda sinfonia;
cresceu na pedra fria a poesia
de um gesto que não foi mais renovado.
Mas na ausência floresce o que era semente:
a dor depura o afeto em pura seiva,
faz do silêncio mestre permanente.
Assim, teu adeus — que o tempo arquiva —
ergueu em mim jardim resplandecente,
onde a memória é fonte que cultiva.
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III – Arquitetura de um Adeus Sereno
“A despedida é também forma de amor.”(Inspirado em Fernando Pessoa)
Na escada antiga, sob o pó dourado,
teu adeus foi coluna erguida ao vento;
não houve grito, apenas um lamento
que se tornou silêncio consagrado.
O céu, de cobre pálido e velado,
assistiu ao rito do momento;
e eu vi que o fim não era rompimento,
mas ponte a um outro estado elevado.
Adeus é arte austera e delicada:
não rasga a alma — antes a modela,
como escultor que lima a pedra alada.
E, ao partir, deixaste-me a parcela
de um amor sem ânsia, sem cilada,
que aprende a ser mais vasto do que ela.
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IV – O Cântico do Instante Irrecobrável
“O tempo não volta; mas ensina.”(Inspirado em Jorge Luis Borges)
No pátio antigo, a fonte murmurava
segredos líquidos à tarde lenta;
teu olhar, qual lâmina sedenta,
na minha noite súbito brilhava.
Mas o instante, ave que não se escrava,
alçou seu voo além da nossa intenta;
ficou-me a lição grave e opulenta
de que o agora é chama que se grava.
Irrecobrável é o que nos fecunda:
perdê-lo é gesto alto de coragem,
pois só quem aceita o fluxo se aprofunda.
E o tempo, severo na passagem,
faz da perda uma força que inunda
a alma em lúcida aprendizagem.
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V – A Metáfora do Amor Inacabado
“O amor é vasto mesmo quando incompleto.”(Inspirado em Gabriela Mistral)
No terraço azul de uma cidade erma,
teu nome foi clarão sobre o granito;
o vento, em teu cabelo, era um escrito
que a noite lia em música mais terna.
Não se cumpriu o sonho — e essa alterna
condição fez do afeto um rito;
aprendi que o inacabado é infinito,
pois nele a esperança se governa.
O que não foi inteiro não se perde:
transforma-se em ideia que respira,
em lume oculto sob a hera verde.
E assim o amor, ainda que se retire,
permanece alto, claro e firme,
como promessa que jamais expira.
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VI – A Ciência Secreta do Desapego
“Ser livre é saber soltar.”(Inspirado em Rabindranath Tagore)
Na varanda onde o sol pousava manso,
teu riso era cristal em tarde antiga;
eu te ofertava o coração que abriga
o doce risco do primeiro avanço.
Mas veio o tempo, inexorável, tenso,
e ensinou-me a lição que me mitiga:
amar não é prender quem nos instiga,
é permitir que siga o próprio censo.
Desapegar é gesto soberano:
não é renúncia fria ou desalento,
é forma alta de cuidado humano.
E eu, que temi perder-te ao vento,
ganhei-me inteiro, lúcido e profano,
na ciência secreta do consentimento.
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VII – Sob a Abóbada do Tempo Aprendido
“A vida é a mestra invisível do amor.”(Inspirado em Sophia de Mello Breyner Andresen)
Sob a abóbada vasta do entardecer,
teu vulto foi estrela na colina;
o horizonte, em cor de tangerina,
abriu-me a estrada que não sei esquecer.
Passou teu passo, e eu pude compreender
que o tempo, austero, nada elimina:
transforma a dor em fonte cristalina
e faz do adeus um modo de crescer.
Aprendido é o amor que se transforma,
não se detém na carne ou no desejo,
mas busca na alma a sua norma.
E assim, entre o fim e o ensejo,
ergue-se o afeto em pura forma,
como templo erguido sobre o beijo.
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VIII – A Geometria do Amor que se Dissolve
“Nada é fixo no coração humano.”(Inspirado em Octavio Paz)
Traçamos linhas firmes sobre a areia,
jurando eternidade ao mar revolto;
teu nome era farol em céu absorto,
e a noite parecia mais alheia.
Mas a maré, severa em sua aldeia,
desfez o risco outrora mais revolto;
aprendi que o afeto, mesmo solto,
não morre — muda a forma que incendeia.
Geometria móvel do desejo,
que se expande e recolhe sem aviso,
como constelação em outro eixo.
E o que julgávamos preciso
revela-se figura em novo ensejo,
mais ampla, mais madura, mais conciso.
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(Betto Gasparetto – iv-mmix)
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