Renúncias, Ausências e um Certo Talvez
(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Escrevi estes sonetos quando comecei a perceber que o amor estava sendo tratado como algo descartável. As relações tornaram-se rápidas, frágeis, substituíveis. Bauman chamou esse tempo de “líquido”; e, de fato, tudo parece escorrer pelas mãos antes que possamos compreender.
Mas o que me inquietou não foi apenas a instabilidade dos vínculos — foi a superficialidade com que passamos a aceitá-la. Hannah Arendt alertava para a banalização do mal quando o pensamento se ausenta. Tenho a impressão de que algo semelhante ocorre com o sentir: quando deixamos de refletir sobre nossas perdas, elas se tornam apenas episódios, e não aprendizagem. Orwell mostrou como a linguagem pode ser esvaziada; também o amor corre esse risco quando reduzido a slogan ou performance.
Foi contra essa redução que escrevi.
Nestes poemas, o amor não é promessa de permanência nem espetáculo emocional. É experiência que pesa. É gravidade. É aquilo que, mesmo breve, exige responsabilidade. A renúncia não aparece como fraqueza, mas como maturidade. A ausência não é carência, mas reorganização interior. A perda, quando assumida, educa.
Os cenários — avenidas sob lampiões, falésias, cais, escadarias antigas — são paisagens de um mundo em transformação constante. Neles, o amor não se protege da realidade; atravessa-a. Aprende com ela. Resiste a ela.
Num tempo que incentiva a troca rápida e o esquecimento conveniente, amar com consciência tornou-se, para mim, um gesto quase político. Não no sentido partidário, mas no sentido humano: recusar a banalização do outro. Não reduzir o afeto a consumo. Não transformar a experiência em distração.
Aprendi que o amor não precisa durar para ser verdadeiro. Precisa ser lúcido. E que sentir com profundidade, mesmo sabendo que tudo passa, é uma forma silenciosa de resistência à dissolução geral.
Se estes sonetos afirmam algo, é isto: em meio à fluidez do mundo, a gravidade do amor ainda pode nos ancorar.
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I – A Gravidade Serena do Amor Breve
“A verdadeira nobreza do amor está em sua liberdade.” (Inspirado em Charles Baudelaire – França)
Sob lampiões de cobre na avenida,
teu riso abriu clarões na noite escura;
mas logo a sombra, austera e já madura,
selou no ar a chama estremecida.
Foi breve o ardor — centelha consumida —
porém deixou na alma arquitetura;
ergueu-se em mim mais lúcida postura,
como quem aprende após a despedida.
Se o amor não dura, ainda assim eleva
o coração ao cume do discernimento,
faz da perda uma forma de prova.
E o que se vai, em puro movimento,
retorna em nós como ciência nova,
gravidade serena do sentimento.
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II – A Transparência do Afeto Desfeito
“A perda nos ensina a profundidade.” (Inspirado em Anna Akhmatova – Rússia)
No pátio antigo, sob a luz tardia,
teu nome foi cristal na minha boca;
mas o destino, em marcha grave e pouca,
rompeu o fio da nossa harmonia.
Ficou no chão a pálida poesia
do gesto que a memória ainda evoca;
e a dor, austera mestra que convoca,
moldou-me em lúcida melancolia.
Há transparência naquilo que finda:
a alma desnuda aprende a contemplar
o que na posse jamais se deslinda.
Assim, ao ver o sonho se afastar,
descubro que a ausência é ainda
uma forma mais alta de amar.
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III – O Horizonte que Nasceu do Adeus
“Toda partida abre um novo espaço.” (Inspirado em Seamus Heaney – Irlanda)
Na falésia alta, ao som das marés frias,
teu adeus foi gaivota em céu aberto;
o vento trouxe ao peito um rumo incerto,
rasgando as antigas geografias.
Mas do rompimento nasceram vias
que o coração jamais havia perto;
o horizonte, outrora quase deserto,
acendeu-se em novas travessias.
Não é ruína o que nos desampara,
mas vasto campo à frente iluminado,
onde o espírito aprende e se prepara.
E ao ver-te longe, já transfigurado,
senti que o fim não fecha nem separa:
abre horizontes no passado.
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IV – A Medida Oculta da Saudade
“O coração humano é feito de distâncias.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)
Na sala branca, à luz de porcelana,
teu retrato era chama contida;
mas a saudade, lâmina polida,
cortou-me a voz em sílaba profana.
O tempo, com paciência soberana,
ergueu no peito nova guarida;
aprendi que a perda consentida
não é derrota — é ciência arcana.
Há medida oculta na distância,
que pesa e equilibra o sentimento,
fazendo do vazio circunstância.
E assim, no lúcido pensamento,
descubro que amar é constância
que cresce mesmo após o rompimento.
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V – O Ouro Invisível do Amor Partido
“O essencial permanece invisível.” (Inspirado em Antoine de Saint-Exupéry – França)
No cais antigo, sob o céu nublado,
teu abraço foi chama com presteza;
mas partiste na fria correnteza
que o tempo impõe ao sonho iniciado.
Não ficou ouro visível ao meu lado,
nem promessa na voz aventureira;
contudo, a alma, lúcida e altaneira,
reteve o brilho do afeto passado.
O ouro do amor não reluz na mão,
vive secreto no âmago da vida,
forjando em nós mais alta direção.
E mesmo quando a chama é consumida,
fica em silêncio a firme fundação
de uma riqueza que jamais se olvida.
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VI – A Pedra que Ensina o Caminho
“O obstáculo é parte do percurso.” (Inspirado em Friedrich Hölderlin – Alemanha)
No vale ermo, entre rochas severas,
teu gesto foi clarão no horizonte;
mas logo o tempo, qual antigo monte,
ergueu muralhas duras e austeras.
Tropecei nas memórias mais sinceras,
mas cada queda abriu-me nova fonte;
aprendi que a dor não nos defronte
sem trazer lições mais verdadeiras.
A pedra que nos fere é também guia,
marca no chão a rota do crescimento,
faz da ferida lúcida vigia.
E assim, no áspero ensinamento,
descubro que a perda anuncia
um passo além do sofrimento.
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VII – A Luz que Persiste no Crepúsculo
“Mesmo na noite há claridade.” (Inspirado em Haruki Murakami – Japão)
No terraço alto, em cor de ferrugem,
teu sorriso foi último clarão;
mas a noite, cerrando o coração,
trouxe à paisagem lenta ferrugem.
Não se apagou, porém, na vã vertigem
o lume antigo de tua mão;
permaneceu na íntima amplidão
como farol oculto na penugem.
Há luz que vive após o entardecer,
não depende do sol nem da presença,
arde no fundo do próprio ser.
E assim, na calma recompensada ausência,
aprendi que o amor pode viver
como claridade sem pertença.
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VIII – A Geografia do Amor Transformado
“Somos feitos de mudanças.” (Inspirado em José Saramago – Portugal)
No mapa antigo de tuas palavras,
tracei rotas em tinta delicada;
mas o destino, mão desavisada,
rasgou o papel de nossas lavras.
Mudaram as fronteiras outrora claras,
e o que era certo tornou-se estrada;
aprendi que a perda inesperada
redesenha as terras que declamas.
A geografia do amor é móvel,
desenha curvas novas no viver,
torna o espírito mais nobre.
E ao ver o sonho se dissolver,
descubro que o afeto é imóvel
naquilo que nos faz crescer.
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IX – A Altura que Nasce da Renúncia
“A renúncia é também uma conquista.” (Inspirado em Miguel de Unamuno – Espanha)
No templo antigo de teus braços quentes,
meu coração erguia altar secreto;
mas veio o tempo, austero arquiteto,
e desfez os arcos incandescentes.
Renunciei às promessas ardentes,
não por fraqueza ou vil afeto,
mas porque o amor, se é puro e reto,
não se subjuga a grilhões insistentes.
Há altura naquilo que se solta,
na liberdade dada com ternura,
na paz que o desapego nos aporta.
E assim, na renúncia madura,
senti que a perda não revolta:
eleva a alma a outra altura.
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X – O Tempo como Mestre do Amor
“O tempo é o verdadeiro escultor.” (Inspirado em Marguerite Yourcenar – Bélgica/França)
Na escadaria antiga do destino,
teu passo ecoou breve e ardente;
mas o tempo, severo e paciente,
modelou no peito outro desígnio.
Não apagou o gesto cristalino,
antes tornou-o lúcido e consciente;
aprendi que o amor não é somente
chama súbita — é lento raciocínio.
O tempo é mestre austero do afeto,
escava a dor até torná-la forma,
faz do adeus um gesto mais correto.
E no silêncio que a saudade informa,
descubro que o amor, mesmo incompleto,
é escultura viva que transforma.
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(Betto Gasparetto – xi-mmx)
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