O Verbo Adeus Conjugado no Pretérito Imperfeito

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Escrevi estes sonetos quando comecei a perceber que a pressa se tornara uma espécie de norma moral. Relações iniciam-se com intensidade e encerram-se com indiferença; palavras são ditas com facilidade e esquecidas com rapidez. Bauman descreveu a liquidez do nosso tempo. Eu a senti nos vínculos.

Nesse ambiente, a experiência corre o risco de perder profundidade. Hannah Arendt alertava que a ausência de reflexão banaliza ações. Algo semelhante ocorre quando o afeto deixa de ser pensado: torna-se impulso, não aprendizado. Orwell mostrou como o esvaziamento da linguagem compromete a verdade; também o amor, quando reduzido a fórmula ou slogan, perde sua força transformadora.

Estes poemas nascem como resistência a essa superficialidade.

A memória que ilumina o efêmero, a elegância da despedida, a chuva que purifica, o vento que liberta, a geada que prepara a flor, o mar que amadurece o navegante — todas essas imagens apontam para uma convicção: perder não é falhar. É aprender.

O amor aqui não se apresenta como promessa de eternidade, mas como processo de consciência. Ele cresce quando aceita a verdade. Ele amadurece quando consente a partida. Ele se fortalece quando renuncia à posse.

Vivemos numa cultura que celebra a intensidade, mas teme a transformação. Estes sonetos procuram o contrário: dar forma ao que se transforma. Aceitar o movimento sem cair no cinismo. Reconhecer que o tempo não destrói — esculpe.

Se algo atravessa estas páginas, é a ideia de que sentir com profundidade, mesmo sabendo que tudo passa, é uma forma de maturidade e também de responsabilidade. Num mundo fluido, a densidade interior torna-se escolha.

E talvez amar, com lucidez, seja uma das poucas permanências que ainda podemos construir.

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I – A Memória que Ilumina o Efêmero

“Nada do que é amado se perde.” (Inspirado em Marcel Proust – França)

Na biblioteca antiga, entre poeiras,
teu nome era um perfume adormecido;
o tempo, em páginas de som contido,
virava as horas frias e ligeiras.

Foi breve o amor — mas suas primaveras
gravaram no silêncio um som vivido;
aprendi que o instante já partido
não morre nas distâncias derradeiras.

A memória é lâmpada velada,
arde serena sob o véu da ausência,
faz do passado clara alvorada.

E o que foi chama breve na experiência
vive na alma, em luz renovada,
como eterna ciência da essência.

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II – A Elegância da Despedida

“A grandeza está na forma de partir.” (Inspirado em Albert Camus – França)

No átrio vasto de colunas frias,
teu adeus foi gesto austero e claro;
não houve pranto amargo ou raro,
mas dignidade nas palavras vazias.

Partiste sob o peso das tardias
sombras que o crepúsculo prepara;
e a dor, que a princípio nos separa,
ensinou-me grandezas tardias.

Há elegância em quem sabe ceder,
não por fraqueza, mas por entendimento
do curso natural do viver.

E assim, no lúcido consentimento,
aprendi que o amor pode crescer
mesmo após o rompimento.

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III – A Chuva que Purifica o Amor Antigo

“A dor também lava a alma.” (Inspirado em Fiódor Dostoiévski – Rússia)

Sob a chuva lenta da avenida,
teu vulto dissolveu-se na neblina;
a água, em sua música cristalina,
lavava o traço da história vivida.

Não foi cruel a hora da partida,
apenas necessária e peregrina;
a chuva, austera mestra que inclina,
purificou a chama já vencida.

O amor antigo, lavado e claro,
transforma-se em sabedoria calma,
não em ruína de desamparo.

E assim, sob o céu que a dor acalma,
descubro que perder é gesto raro
que restitui a paz à alma.

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IV – A Respiração do Amor que se Transforma

“Nada permanece, tudo se move.” (Inspirado em Heráclito – Grécia Antiga)

No terraço alto, à luz do ocaso,
teu riso era sopro de alvorada;
mas o tempo, em marcha compassada,
alterou o ritmo do abraço.

Mudou-se o tom, dissolveu-se o laço,
como bruma em manhã dourada;
aprendi que a chama consumada
renasce em outro traço.

O amor respira, muda de forma,
não se detém na posse ou na ilusão,
mas segue a lei que o tempo norma.

E no pulsar da transformação,
descubro que o afeto se reforma
em mais madura condição.

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V – O Vento que Conduz ao Entendimento

“A liberdade é o ar da alma.” (Inspirado em Khalil Gibran – Líbano/EUA)

No campo aberto sob céu amplo,
teu gesto era ave em pleno voo;
mas o vento, em seu sopro tão rouco,
levou-te além do meu estampo.

Não resisti ao curso do campo,
nem prendi o que era leve e pouco;
aprendi que o amor, quando é louco,
precisa de espaço franco.

O vento ensina ao coração
que amar é permitir partida,
não cercear direção.

E assim, na vasta despedida,
descubro que a libertação
é forma alta da vida.

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VI – A Lâmina Clara da Verdade Amorosa

“A verdade é a mais severa forma de ternura.” (Inspirado em Leo Tolstói – Rússia)

Na sala antiga de espelhos gastos,
teu olhar foi lâmina sincera;
rompeu o véu da doce quimera
e revelou-me íntimos contrastes.

Não houve gritos, nem desastres,
mas a lucidez que impera;
aprendi que a verdade severa
é dádiva entre os vastos rastros.

O amor que aceita a claridade
cresce sem sombra ou fingimento,
vive na íntegra honestidade.

E mesmo após o rompimento,
fica a firme serenidade
de quem amou com entendimento.

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VII – A Geada que Ensina a Primavera

“Após o inverno, sempre há flor.” (Inspirado em Victor Hugo – França)

No jardim branco sob geada fria,
teu silêncio era neve sobre a flor;
mas sob a terra, oculto calor,
preparava secreta alegria.

O inverno trouxe austera pedagogia,
ensinou-me a conter o ardor;
aprendi que a perda não é dor
eterna, mas pausa na harmonia.

Toda geada anuncia semente,
toda ausência prepara claridade,
toda dor educa lentamente.

E assim, na fria realidade,
descubro que o amor latente
renasce em nova intensidade.

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VIII – A Navegação do Coração Madura

“Viver é navegar entre perdas.” (Inspirado em Herman Melville – EUA)

No mar antigo de teus olhos fundos,
meu peito era barco à deriva;
mas a tormenta, áspera e altiva,
rasgou os mapas outrora fecundos.

Naveguei por silêncios profundos,
sem farol que a noite aviva;
aprendi que a dor nos cativa
para mares mais fecundos.

O coração que enfrenta o oceano
retorna ao porto transformado,
mais vasto e menos insano.

E no convés já serenado,
descubro que amar é humano
mesmo após naufrágio passado.

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IX – A Escultura do Amor no Tempo

“O tempo dá forma ao que sentimos.” (Inspirado em Paul Valéry – França)

Na escadaria antiga do palácio,
teu toque foi mármore recém-talhado;
mas o tempo, escultor disciplinado,
corrigiu as linhas do espaço.

Desgastou a febre do abraço,
tornou o gesto mais depurado;
aprendi que o amor lapidado
é mais firme que o impulso audaz.

Não é a chama que perdura,
mas a forma que o tempo revela
na alma já madura.

E assim, na obra paralela,
descubro que a vida depura
o afeto e o faz mais bela.

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X – O Céu que se Abre Após o Adeus

“O fim é apenas outra paisagem.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Na colina alta sob céu aberto,
teu adeus foi brisa de altitude;
mas no silêncio da solitude
surgiu-me um horizonte desperto.

Não foi vazio o campo deserto,
mas vasto espaço de plenitude;
aprendi que a perda, em atitude,
é porta para outro concerto.

O céu se abre após o rompimento,
não como prêmio ou recompensa,
mas como lúcido ensinamento.

E assim, na calma imensa,
descubro que amar é movimento
que nos conduz à transcendência.

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(Betto Gasparetto – vi-mmix)

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