(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Há uma pedagogia oculta naquilo que nos fere sem espetáculo. Não é a dor ruidosa que transforma, mas a exposição consciente ao que nos atravessa. Vivemos numa cultura que valoriza a blindagem: parecer resolvido, parecer forte, parecer indiferente. A vulnerabilidade tornou-se sinônimo de fraqueza. Discordo.
Estes poemas não celebram o sofrimento. Tampouco idealizam o rompimento. Eles enfrentam algo mais difícil: a dignidade de permanecer aberto mesmo depois do corte.
A “lâmina” aqui não é violência externa; é precisão interior. É o momento em que a ilusão se separa da verdade. Quando o afeto não se sustenta na posse. Quando a despedida deixa de ser drama e passa a ser reconhecimento de limite. Esse gesto exige maturidade — e coragem.
A sociedade contemporânea incentiva relações rápidas, substituições silenciosas, afetos utilitários. Bauman descreveu a fluidez; Arendt advertiu sobre o empobrecimento da reflexão; Orwell mostrou como a linguagem pode esvaziar a realidade. Também o amor sofre quando se torna consumo ou performance.
Contra isso, permanece a escolha de sentir com responsabilidade.
A carta não enviada, o cais de pedra, o palco que desmonta máscaras, o mar interior após o último beijo — são imagens de um aprendizado concreto: perder sem se diminuir. Aceitar a verdade sem endurecer. Permitir que o amor se transforme sem reduzi-lo a erro.
Vulnerabilidade não é desproteção ingênua. É lucidez. É saber que o outro não nos pertence e, ainda assim, escolher amar. É suportar o fim sem recorrer ao cinismo. É manter a delicadeza num mundo que recompensa a indiferença.
Se algo sustenta estas páginas, é esta convicção: expor-se com consciência pode ser mais forte do que esconder-se atrás de defesas. A lâmina silenciosa da vulnerabilidade corta as ilusões — mas preserva a dignidade.
E, talvez, seja essa a forma mais austera de liberdade.
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I – A Paciência do Amor que se Refaz
“O que o tempo não devolve, ele transforma.” (Inspirado em Johann Wolfgang von Goethe – Alemanha)
Na alameda antiga, o sol tardava,
e o vento repartia os teus perfumes;
meu coração, guardando antigos lumes,
na sombra do teu passo se abrigava.
Mas tudo o que reluz também se acaba,
como se apagam lâmpadas e ciúmes;
aprendi que os mais ferventes costumes
cedem ao curso que a vida lavra.
A paciência é arte do vivido,
faz do adeus um chão de entendimento,
e do silêncio um cântico contido.
Assim, do amor que foi rompimento,
renasce em mim, mais claro e mais unido,
um novo modo de consentimento.
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II – O Sal do Adeus e a Doçura do Sentido
“A dor é uma forma de conhecer.” (Inspirado em Clarice Lispector – Brasil)
No quarto branco, a lâmpada tremia,
e o teu silêncio era um mar sem margem;
não houve gesto, apenas a passagem
de uma verdade em fria companhia.
O sal do adeus queimou-me a fantasia,
mas adoçou-me a íntima paisagem;
aprendi que a perda, em sua aragem,
refaz o peito em lúcida vigia.
Há doçura no que fere e parte:
não pela queda, mas pela lição
que nos reescreve em mais alta arte.
E assim, no fino nó do coração,
descubro: o amor, quando se reparte,
deixa sentido em sua dissolução.
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III – A Rosa Breve no Inverno do Tempo
“A beleza é também uma ferida.” (Inspirado em Sylvia Plath – Estados Unidos)
No pátio escuro, sob a névoa fria,
teu riso foi uma rosa inesperada;
porém a noite, austera e preparada,
colheu o brilho que em mim ardia.
Ficou no ar uma cor que não se via,
ficou na pele a marca delicada;
aprendi que a flor, mesmo cortada,
perfuma a mão que a desafia.
A beleza, quando nasce e se consome,
ensina ao peito o preço da verdade,
e ao coração um mais severo nome.
E assim, da rosa breve na saudade,
recolho o lume que o tempo não some:
a dor, se é pura, vira claridade.
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IV – O Rosto do Amor nas Águas do Esquecimento
“Esquecer é outra forma de lembrar.” (Inspirado em Jorge Luis Borges – Argentina)
No espelho d’água, ao pé da ponte antiga,
teu rosto se quebrou em mil lampejos;
e eu, tentando prender tais reflexos,
vi que a memória é mar que nos castiga.
O tempo, com sua mão tranquila e amiga,
apaga e acende os mesmos desejos;
aprendi que os mais intensos beijos
se fazem sombra em luz que nos intriga.
Esquecer não é negar o que houve,
é permitir que a vida, em seu caminho,
dê outra forma ao que em nós se move.
E assim, do rosto antigo em desalinho,
resta-me um bem que o tempo não remove:
um aprender sem peso e sem espinho.
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V – A Carta Nunca Enviada ao Amor Partente
“Há palavras que só o silêncio compreende.” (Inspirado em Rainer Maria Rilke – Áustria)
Escrevi-te na noite, em tinta lenta,
uma carta de lume e disciplina;
mas a palavra, frágil peregrina,
tremeu na mão, calou-se, e não se assenta.
Guardei-a no relógio que lamenta,
entre páginas de sombra cristalina;
aprendi que a voz, quando destina
verdade, às vezes cala e se contenta.
Há cartas que não vão — e, no entanto,
chegam mais fundo ao centro do existir,
porque se fazem íntimo quebranto.
E assim, sem enviar, pude sentir:
o amor, quando é alto e quando é santo,
fala por nós no modo de partir.
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VI – O Ofício de Perder sem se Diminuir
“Perder é uma forma de disciplina.” (Inspirado em Simone Weil – França)
No cais de pedra, ao som de maresia,
teu adeus foi severo e sem apelo;
meu coração, porém, não fez flagelo,
apenas recolheu-se à luz do dia.
Perder, aprendi, não é agonia,
mas ofício discreto e paralelo;
é aceitar que o mundo, em seu modelo,
não se detém por nossa fantasia.
Não me diminuo ao ser deixado:
cresço na exata medida do real,
e torno o pranto um gesto educado.
Assim, no fim que o tempo faz normal,
descubro que o amor, purificado,
é liberdade em rito natural.
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VII – O Teatro do Amor e a Máscara do Tempo
“Somos feitos de papéis que mudam.” (Inspirado em William Shakespeare – Inglaterra)
No palco escuro da cidade em brasa,
teu sorriso era máscara perfeita;
mas o tempo, ator de mão desfeita,
trocou-nos o roteiro e a própria casa.
Caíram véus, desfez-se a antiga asa,
e a vida, em sua cena mais estreita,
mostrou que toda jura é incompleta
quando a verdade passa e se disfarça.
O amor é teatro: ensina a ver
por trás da máscara do que parece,
e a amar sem possuir nem reter.
E assim, da cena que se escurece,
levo o saber que me faz crescer:
o tempo muda, e a alma permanece.
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VIII – A Geometria do Abraço que se Abre
“O encontro é uma forma de destino.” (Inspirado em Octavio Paz – México)
No átrio claro, sob colunas altas,
teu abraço traçou-me uma avenida;
porém a hora, súbita e ferida,
abriu-nos vãos, distâncias, novas faltas.
O gesto, que parecia firme sem revoltas,
desfez-se em bruma leve e imerecida;
aprendi que a forma mais vivida
não é prisão, mas mapa de novas voltas.
Há geometria no que nos abraça:
une e separa, abre e reorganiza,
faz do fim uma ponte que nos passa.
E assim, na linha exata e revista,
descubro: o amor, quando se esgarça,
ainda desenha a sua conquista.
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IX – A Colheita Secreta do Coração Partilhado
“O que se dá retorna em outra forma.” (Inspirado em Gabriela Mistral – Chile)
Na varanda antiga, em luz outonal,
teu gesto foi semente em minha mão;
mas veio o tempo — austero guardião —
e levou-te ao teu curso natural.
Ficou-me a terra, o sulco, o sinal
de um bem que não se prende à condição;
aprendi que a doação
é colheita no íntimo do final.
Quem ama e parte não deixa vazio:
deixa em nós um campo trabalhado,
onde a alma aprende o próprio desafio.
E assim, do coração partilhado,
recolho o fruto manso e tardio:
um saber mais humano e depurado.
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X – O Mar Interior Depois do Último Beijo
“Há oceanos dentro de uma palavra.” (Inspirado em Toni Morrison – Estados Unidos)
Depois do beijo, o mundo ficou denso,
como se o ar guardasse tua presença;
e eu, em silêncio, ouvi a recompensa
de um mar interior, profundo e imenso.
Não te retive — e nisso me convenço:
amar é mais que súplica ou crença;
é permitir que a vida, em sua essência,
siga o caminho que o tempo põe tenso.
Há mares dentro do que nos acontece,
há ondas de sentido após o adeus,
e a alma, quando aceita, não enlouquece.
E assim, no mar que agora é todo meu,
descubro: o amor não desaparece —
transforma-se em oceano em Deus.
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(Betto Gasparetto – ix-mmviii)