(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Há uma pressão silenciosa para que tudo termine rápido e sem marcas. A cultura contemporânea ensina a virar a página antes de compreender o que foi escrito. Encerrar tornou-se mais valorizado do que assimilar. Substituir parece mais produtivo do que amadurecer.
Este conjunto enfrenta esse impulso.
A pérgula abandonada, a ampulheta que escoa, o lago que guarda reflexos submersos, a ponte sobre o rio turvo, o espelho quebrado, o livro fechado — cada imagem expõe um estágio da transformação. Não há romantização da perda. Há reconhecimento de que o fim não apaga o aprendizado.
O problema não é que os amores terminem. O problema é quando a sociedade nos convence de que nada precisa ser elaborado. O esquecimento rápido evita o desconforto, mas também impede o crescimento. A superficialidade protege momentaneamente, porém empobrece a experiência.
Kavafis escreveu sobre a viagem como aprendizagem; Rilke viu na quietude um campo interior; Drummond reconheceu na saudade uma lente; Eliot compreendeu a tensão entre visível e invisível; Saramago insistiu na travessia; Miłosz encontrou princípio no fim; Cervantes expôs a fratura da ilusão; Eco sabia que uma obra nunca se encerra completamente. Essas vozes sustentam a ideia central: o amor não se mede pela permanência física, mas pela capacidade de nos modificar.
Há uma forma de opressão que não grita: ela sugere que devemos parecer intactos. Mas ninguém atravessa o afeto sem transformação. O que foi vivido altera a cartografia interior.
Amadurecer não é endurecer. É aceitar a complexidade do que se perde. É reconhecer que a verdade pode surgir quando o espelho se quebra. É permitir que o livro fechado continue a ensinar.
Num mundo que favorece o esquecimento imediato, insistir em aprender com o que termina é um gesto de resistência. O amor que se transforma não desaparece: ele se desloca, muda de forma, altera nossa paisagem interna.
E essa geografia — silenciosa, real, irreversível — é o que permanece.
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I – A Pérgula do Amor Desvanecido
“Quando partires, leva contigo o que aprendeste.” (Inspirado em Konstantinos Kavafis – Grécia)
Sob a pérgula antiga, em luz dourada,
teu riso foi clarão de primavera;
mas veio o outono, austero sentinela,
e desfolhou a chama delicada.
Partiste — e a tarde, pálida e velada,
guardou teu passo em sombra paralela;
aprendi que a viagem revela
o valor da estação já superada.
Não é derrota o afeto que se ausenta,
mas porto onde o espírito se instrui,
antes que o vento o rumo lhe consenta.
E assim, na estrada que me reconduz,
levo comigo a ciência que sustenta
o amor que parte — e ainda reluz.
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II – A Quietude que Sucede ao Êxtase
“O êxtase é irmão da perda.” (Inspirado em Rainer Maria Rilke – Áustria)
No terraço alto, sob o céu de cobre,
teu beijo foi clarão arrebatado;
mas o instante, súbito e alado,
rompeu-se em silêncio grave e nobre.
Ficou a quietude, austera e sóbria,
como mármore em templo abandonado;
aprendi que o ápice vivido
cede lugar a um passo mais austero.
O êxtase é lâmina que desperta,
abre no peito um campo silencioso,
onde a alma aprende a forma certa.
E na calma após o gozo,
descubro a paz que se converta
em saber mais luminoso.
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III – O Verbo que se Cala para Permanecer
“As palavras mais altas são as que se calam.” (Inspirado em Paul Celan – Romênia/Alemanha)
Na sala antiga, a voz se dissolvia,
teu nome era um som quase secreto;
mas a palavra, frágil e discreta,
rompeu-se em ar de fria harmonia.
Não houve grito ou melancolia,
apenas o silêncio mais completo;
aprendi que o afeto
vive melhor na forma tardia.
O verbo que se cala permanece,
mais forte que promessas ao vento,
mais alto que o gesto que fenece.
E assim, no íntimo recolhimento,
descubro que o amor cresce
quando cede ao próprio tempo.
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IV – A Ampulheta do Amor Consentido
“O tempo é o elemento essencial do amor.” (Inspirado em Thomas Mann – Alemanha)
Na ampulheta antiga do destino,
teu olhar era areia luminosa;
mas o vidro, em curva silenciosa,
marcou o curso claro e peregrino.
Não prendi o fluxo cristalino,
nem temi a queda harmoniosa;
aprendi que a perda cuidadosa
é parte do desenho divino.
O amor que aceita a transitoriedade
não se desfaz em sombra ou desencanto,
mas cresce em lúcida maturidade.
E assim, no cair do fino pranto,
descubro que o tempo é verdade
que esculpe o afeto enquanto.
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V – O Horizonte Invertido da Saudade
“A saudade é um modo de ver o mundo.” (Inspirado em Carlos Drummond de Andrade – Brasil)
No alto do monte, à luz crepuscular,
teu vulto era farol na névoa espessa;
mas partiste, e a tarde fez promessa
de outro rumo além do meu olhar.
Ficou-me o horizonte a se inclinar,
como se o mundo em dor se recomeça;
aprendi que a ausência atravessa
o peito e o ensina a contemplar.
A saudade inverte o mapa antigo,
faz do distante uma presença clara,
do silêncio um diálogo consigo.
E assim, na paisagem rara,
descubro que o amor é abrigo
mesmo quando a distância o separa.
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VI – A Luz Submersa do Amor Findo
“O invisível sustenta o visível.” (Inspirado em T. S. Eliot – Inglaterra/EUA)
Sob águas calmas de um lago profundo,
teu reflexo era lua dissolvida;
mas o tempo, mão firme e comedida,
afundou-o em silêncio fecundo.
Não se perdeu no escuro do mundo,
apenas mudou de forma contida;
aprendi que a chama já partida
arde submersa no íntimo segundo.
Há luz que não precisa aparecer,
vive oculta sob o espelho frio,
mas sustenta o gesto de viver.
E assim, no lago tardio,
descubro que amar é permanecer
mesmo quando o clarão se faz vazio.
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VII – A Ponte entre o Que Foi e o Que Sou
“Somos feitos de nossas travessias.” (Inspirado em José Saramago – Portugal)
Na ponte antiga, sobre o rio turvo,
teu adeus foi um passo delicado;
mas o curso, severo e disciplinado,
levou-me além do gesto já curvo.
Não me perdi no fluxo adverso,
nem temi o silêncio renovado;
aprendi que o passado
é margem que sustenta o verso.
O que foi não se rompe ou se dissolve,
transforma-se em ponte interior,
que ao novo ser me devolve.
E assim, no claro ardor,
descubro que o amor resolve
o que a vida expõe com rigor.
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VIII – A Claridade que Nasce do Fim
“Todo fim contém um princípio.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)
No quarto branco, sob luz matinal,
teu adeus foi silêncio luminoso;
mas no peito, ardente e ansioso,
nasceu um gesto novo e natural.
Não foi ruína o fim eventual,
mas clarão sóbrio e venturoso;
aprendi que o rompimento doloroso
abre caminho a um bem essencial.
O fim não é deserto nem vazio,
é solo fértil à nova semente,
é o limiar do próximo desafio.
E assim, no alvorecer seguinte,
descubro que o amor tardio
é começo que se consente.
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IX – O Espelho Quebrado da Ilusão Serena
“A verdade não teme o reflexo.” (Inspirado em Miguel de Cervantes – Espanha)
No salão amplo de cristal polido,
teu rosto era imagem encantada;
mas o espelho, lâmina rachada,
rompeu o sonho outrora consentido.
Não lamentei o vidro partido,
pois na fratura vi revelada
a forma mais clara e renovada
do afeto antes iludido.
A ilusão é véu necessário,
que ao cair nos mostra o chão real,
mais firme que o brilho imaginário.
E assim, no gesto natural,
descubro que o amor é cenário
onde a verdade é capital.
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X – O Livro Fechado que Ainda Ensina
“Os livros continuam a falar após o fim.” (Inspirado em Umberto Eco – Itália)
No livro antigo de folhas douradas,
teu nome era linha sublinhada;
mas a página, súbita virada,
fechou as margens antes iluminadas.
Não queimou as letras já traçadas,
nem apagou a tinta derramada;
aprendi que a história encerrada
vive em notas nunca pronunciadas.
O livro fechado ainda ensina,
pois no silêncio da capa selada
a memória resiste e ilumina.
E assim, na obra já guardada,
descubro que o amor não termina:
permanece em leitura renovada.
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(Betto Gasparetto – x-mmvi)