A Sobriedade dos Silêncios

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

A sociedade atual não sabe o que fazer com aquilo que não pode monetizar, exibir ou substituir rapidamente. Relações tornaram-se episódios. Vínculos são consumidos como experiências. A intensidade vale mais do que a permanência. O fim deve ser rápido, silencioso e limpo.

Mas nada que transforma é limpo.

Há uma pedagogia cruel no tempo presente: amar intensamente, descartar discretamente. Superar imediatamente. Não elaborar. Não olhar para trás. A memória é vista como atraso. A dor, como falha de adaptação.

Este conjunto confronta essa lógica sem gritar — mas sem ceder.

A lâmpada interior que permanece após o adeus não é sentimentalismo; é resistência. A terra lavrada pelo amor breve não é nostalgia; é maturação. A maré que recua não apaga o mar. A queda não é fim do percurso. O silêncio não é ausência de conteúdo — é reorganização profunda. Incorporei algumas expressões clássicas de grandes autores e, inspirando-me nelas, passei a integrá-las aos meus próprios escritos.

Vivemos sob o império da performance emocional. Demonstra-se, publica-se, anuncia-se. E quando termina, apaga-se. A superficialidade tornou-se estratégia de sobrevivência. Mas ela cobra preço: empobrece a experiência humana.

O amor que se transforma não desaparece. Ele altera a estrutura interior. Reescreve a forma de olhar. Muda o modo de existir. Isso não cabe na lógica da substituição.

A cultura da leveza emocional promete liberdade, mas produz fragilidade. Ensina a não se apegar, mas não ensina a amadurecer. Ensina a partir, mas não a compreender.

Estes sonetos recusam o espetáculo do sofrimento e a anestesia do esquecimento. Recusam o cinismo como mecanismo de defesa. Defendem algo mais difícil: permanecer consciente após a ruptura.

Porque o que nos desmonta também nos revela.

E, num mundo que prefere o brilho instantâneo à transformação silenciosa, sustentar a luz depois do desmonte é um gesto de força — não de ingenuidade.

Amar não é manter intacto. É permitir que algo nos modifique.

E essa modificação, quando assumida, é uma forma de resistência contra a superficialidade dominante.

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I – A Lâmpada Interior Após o Adeus

“O que fomos permanece no que somos.” (Inspirado em Fernando Pessoa – Portugal)

Na sala antiga, à luz já rarefeita,
teu adeus foi chama disciplinada;
mas a sombra, austera e bem traçada,
guardou no ar a forma imperfeita.

Não foi ruína a porta já desfeita,
nem o silêncio ausência condenada;
aprendi que a perda é estrada
onde a alma cresce satisfeita.

Há lâmpada interior que não se apaga,
vive além do gesto que termina,
arde serena quando o mundo indaga.

E assim, na noite que declina,
descubro que o amor não se embriaga:
torna-se luz que nos ilumina.

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II – A Terra Lavrada pelo Amor Breve

“O amor é semente que trabalha no escuro.” (Inspirado em Pablo Neruda – Chile)

No campo vasto sob o céu rubro,
teu riso foi colheita repentina;
mas o outono, em marcha cristalina,
levou-te além do sulco que descubro.

Ficou na terra um traço lúcido e puro,
não dor, mas força subterrina;
aprendi que a raiz se inclina
ao tempo, fecundando o futuro.

O breve não se perde no vento,
é grão que amadurece no íntimo,
longe do olhar e do lamento.

E assim, no gesto legítimo,
descubro que o amor é instrumento
de crescimento íntimo.

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III – A Maré Clara da Saudade Serena

“O mar guarda aquilo que parte.” (Inspirado em Sophia de Mello Breyner – Portugal)

Na praia ampla sob o céu marinho,
teu passo foi espuma na areia;
mas a maré, silenciosa e cheia,
recolheu-te ao seu destino.

Não restou dor em desatino,
nem sombra fria e alheia;
aprendi que a onda incendeia
o fundo oculto do caminho.

Saudade é mar que não se esgota,
não devora o que amou,
apenas muda-lhe a rota.

E assim, no fluxo que ficou,
descubro que a vida anota
o amor que o tempo moldou.

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IV – A Janela Aberta para o Invisível

“Toda perda é passagem.” (Inspirado em Rabindranath Tagore – Índia)

Na janela aberta do entardecer,
teu nome era brisa delicada;
mas o céu, em púrpura velada,
ensinou-me outro modo de viver.

Não foi o fim que pude ver,
mas ponte ampla e iluminada;
aprendi que a dor moderada
é limiar de renascer.

Há invisível além do que se rompe,
há claridade após o véu,
há força onde o peito não se corrompe.

E assim, sob novo céu,
descubro que o amor interrompe
apenas para crescer ao léu.

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V – O Incenso da Memória Viva

“A lembrança é perfume persistente.” (Inspirado em Charles Baudelaire – França)

Na nave antiga da catedral,
teu gesto foi incenso ascendente;
mas o ar, severo e transparente,
dissolveu-lhe a forma material.

Não cessou o aroma essencial,
nem a chama ardente;
aprendi que o amor latente
vive além do ritual.

Perfume não se prende à mão,
permanece na atmosfera
como secreta oração.

E assim, na bruma sincera,
descubro que o coração
guarda o que a ausência não supera.

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VI – O Caminho Interior Após a Queda

“A dor é uma escada.” (Inspirado em Hermann Hesse – Alemanha)

Na escarpa árida da decisão,
teu adeus foi passo abrupto;
mas o tempo, paciente e culto,
ergueu-me em nova direção.

Não permaneci no chão,
nem fiz do pranto culto;
aprendi que o amor adulto
nasce da superação.

Cada queda abre horizonte,
cada perda funda saber,
cada ruptura é ponte.

E assim, no florescer,
descubro que o amor confronte
apenas para crescer.

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VII – O Labirinto Claro da Memória

“Somos feitos de lembranças.” (Inspirado em Jorge Luis Borges – Argentina)

No corredor antigo do destino,
teu nome era eco reiterado;
mas o tempo, lúcido e alado,
tornou-o parte do caminho.

Não perdi o gesto peregrino,
nem o olhar já transformado;
aprendi que o passado
é labirinto cristalino.

Memória não é prisão severa,
mas mapa de íntimo traço
onde a alma persevera.

E assim, no espaço
descubro que o amor espera
além do próprio abraço.

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VIII – A Iluminação Após a Tempestade

“O mar ensina paciência.” (Inspirado em Derek Walcott – Santa Lúcia)

Na enseada turva sob o trovão,
teu adeus foi raio partido;
mas o céu, depois de vencido,
abriu-se em nova estação.

Não restou devastação,
nem medo enrijecido;
aprendi que o amor sofrido
é força de renovação.

Toda tempestade prepara
o azul que surge depois,
quando a dor se declara.

E assim, entre dois,
descubro que o amor ampara
mesmo quando se desfaz.

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IX – A Palavra Não Escrita

“O silêncio contém a verdade.” (Inspirado em Marguerite Duras – França)

No papel branco da despedida,
teu nome ficou suspenso;
mas o tempo, grave e intenso,
dispensou a palavra contida.

Não houve carta concluída,
nem discurso extenso;
aprendi que o amor é consenso
que vive além da fala proferida.

O não dito às vezes é inteiro,
mais fiel que jura sonora,
mais vasto que o roteiro.

E assim, na hora
descubro que o amor verdadeiro
fala quando se cala por fora.

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X – A Forma Exata do Amor que Permanece

“Make it new.” (Inspirado em Ezra Pound – Estados Unidos)

No verso antigo de nosso afeto,
teu gesto foi ritmo ardente;
mas o tempo, lúcido e consciente,
refez-lhe o compasso discreto.

Não destruiu o canto correto,
nem o tornou ausente;
aprendi que o amor consistente
renova-se em traço completo.

Não é fixidez que o sustenta,
mas forma sempre recriada
na alma que experimenta.

E assim, na jornada
descubro que o amor inventa
sua permanência renovada.

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(Betto Gasparetto – i-mmxv)

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