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O Verbo Adeus Conjugado no Pretérito Imperfeito

Posted in Sem categoria on 23 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Escrevi estes sonetos quando comecei a perceber que a pressa se tornara uma espécie de norma moral. Relações iniciam-se com intensidade e encerram-se com indiferença; palavras são ditas com facilidade e esquecidas com rapidez. Bauman descreveu a liquidez do nosso tempo. Eu a senti nos vínculos.

Nesse ambiente, a experiência corre o risco de perder profundidade. Hannah Arendt alertava que a ausência de reflexão banaliza ações. Algo semelhante ocorre quando o afeto deixa de ser pensado: torna-se impulso, não aprendizado. Orwell mostrou como o esvaziamento da linguagem compromete a verdade; também o amor, quando reduzido a fórmula ou slogan, perde sua força transformadora.

Estes poemas nascem como resistência a essa superficialidade.

A memória que ilumina o efêmero, a elegância da despedida, a chuva que purifica, o vento que liberta, a geada que prepara a flor, o mar que amadurece o navegante — todas essas imagens apontam para uma convicção: perder não é falhar. É aprender.

O amor aqui não se apresenta como promessa de eternidade, mas como processo de consciência. Ele cresce quando aceita a verdade. Ele amadurece quando consente a partida. Ele se fortalece quando renuncia à posse.

Vivemos numa cultura que celebra a intensidade, mas teme a transformação. Estes sonetos procuram o contrário: dar forma ao que se transforma. Aceitar o movimento sem cair no cinismo. Reconhecer que o tempo não destrói — esculpe.

Se algo atravessa estas páginas, é a ideia de que sentir com profundidade, mesmo sabendo que tudo passa, é uma forma de maturidade e também de responsabilidade. Num mundo fluido, a densidade interior torna-se escolha.

E talvez amar, com lucidez, seja uma das poucas permanências que ainda podemos construir.

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I – A Memória que Ilumina o Efêmero

“Nada do que é amado se perde.” (Inspirado em Marcel Proust – França)

Na biblioteca antiga, entre poeiras,
teu nome era um perfume adormecido;
o tempo, em páginas de som contido,
virava as horas frias e ligeiras.

Foi breve o amor — mas suas primaveras
gravaram no silêncio um som vivido;
aprendi que o instante já partido
não morre nas distâncias derradeiras.

A memória é lâmpada velada,
arde serena sob o véu da ausência,
faz do passado clara alvorada.

E o que foi chama breve na experiência
vive na alma, em luz renovada,
como eterna ciência da essência.

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II – A Elegância da Despedida

“A grandeza está na forma de partir.” (Inspirado em Albert Camus – França)

No átrio vasto de colunas frias,
teu adeus foi gesto austero e claro;
não houve pranto amargo ou raro,
mas dignidade nas palavras vazias.

Partiste sob o peso das tardias
sombras que o crepúsculo prepara;
e a dor, que a princípio nos separa,
ensinou-me grandezas tardias.

Há elegância em quem sabe ceder,
não por fraqueza, mas por entendimento
do curso natural do viver.

E assim, no lúcido consentimento,
aprendi que o amor pode crescer
mesmo após o rompimento.

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III – A Chuva que Purifica o Amor Antigo

“A dor também lava a alma.” (Inspirado em Fiódor Dostoiévski – Rússia)

Sob a chuva lenta da avenida,
teu vulto dissolveu-se na neblina;
a água, em sua música cristalina,
lavava o traço da história vivida.

Não foi cruel a hora da partida,
apenas necessária e peregrina;
a chuva, austera mestra que inclina,
purificou a chama já vencida.

O amor antigo, lavado e claro,
transforma-se em sabedoria calma,
não em ruína de desamparo.

E assim, sob o céu que a dor acalma,
descubro que perder é gesto raro
que restitui a paz à alma.

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IV – A Respiração do Amor que se Transforma

“Nada permanece, tudo se move.” (Inspirado em Heráclito – Grécia Antiga)

No terraço alto, à luz do ocaso,
teu riso era sopro de alvorada;
mas o tempo, em marcha compassada,
alterou o ritmo do abraço.

Mudou-se o tom, dissolveu-se o laço,
como bruma em manhã dourada;
aprendi que a chama consumada
renasce em outro traço.

O amor respira, muda de forma,
não se detém na posse ou na ilusão,
mas segue a lei que o tempo norma.

E no pulsar da transformação,
descubro que o afeto se reforma
em mais madura condição.

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V – O Vento que Conduz ao Entendimento

“A liberdade é o ar da alma.” (Inspirado em Khalil Gibran – Líbano/EUA)

No campo aberto sob céu amplo,
teu gesto era ave em pleno voo;
mas o vento, em seu sopro tão rouco,
levou-te além do meu estampo.

Não resisti ao curso do campo,
nem prendi o que era leve e pouco;
aprendi que o amor, quando é louco,
precisa de espaço franco.

O vento ensina ao coração
que amar é permitir partida,
não cercear direção.

E assim, na vasta despedida,
descubro que a libertação
é forma alta da vida.

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VI – A Lâmina Clara da Verdade Amorosa

“A verdade é a mais severa forma de ternura.” (Inspirado em Leo Tolstói – Rússia)

Na sala antiga de espelhos gastos,
teu olhar foi lâmina sincera;
rompeu o véu da doce quimera
e revelou-me íntimos contrastes.

Não houve gritos, nem desastres,
mas a lucidez que impera;
aprendi que a verdade severa
é dádiva entre os vastos rastros.

O amor que aceita a claridade
cresce sem sombra ou fingimento,
vive na íntegra honestidade.

E mesmo após o rompimento,
fica a firme serenidade
de quem amou com entendimento.

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VII – A Geada que Ensina a Primavera

“Após o inverno, sempre há flor.” (Inspirado em Victor Hugo – França)

No jardim branco sob geada fria,
teu silêncio era neve sobre a flor;
mas sob a terra, oculto calor,
preparava secreta alegria.

O inverno trouxe austera pedagogia,
ensinou-me a conter o ardor;
aprendi que a perda não é dor
eterna, mas pausa na harmonia.

Toda geada anuncia semente,
toda ausência prepara claridade,
toda dor educa lentamente.

E assim, na fria realidade,
descubro que o amor latente
renasce em nova intensidade.

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VIII – A Navegação do Coração Madura

“Viver é navegar entre perdas.” (Inspirado em Herman Melville – EUA)

No mar antigo de teus olhos fundos,
meu peito era barco à deriva;
mas a tormenta, áspera e altiva,
rasgou os mapas outrora fecundos.

Naveguei por silêncios profundos,
sem farol que a noite aviva;
aprendi que a dor nos cativa
para mares mais fecundos.

O coração que enfrenta o oceano
retorna ao porto transformado,
mais vasto e menos insano.

E no convés já serenado,
descubro que amar é humano
mesmo após naufrágio passado.

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IX – A Escultura do Amor no Tempo

“O tempo dá forma ao que sentimos.” (Inspirado em Paul Valéry – França)

Na escadaria antiga do palácio,
teu toque foi mármore recém-talhado;
mas o tempo, escultor disciplinado,
corrigiu as linhas do espaço.

Desgastou a febre do abraço,
tornou o gesto mais depurado;
aprendi que o amor lapidado
é mais firme que o impulso audaz.

Não é a chama que perdura,
mas a forma que o tempo revela
na alma já madura.

E assim, na obra paralela,
descubro que a vida depura
o afeto e o faz mais bela.

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X – O Céu que se Abre Após o Adeus

“O fim é apenas outra paisagem.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Na colina alta sob céu aberto,
teu adeus foi brisa de altitude;
mas no silêncio da solitude
surgiu-me um horizonte desperto.

Não foi vazio o campo deserto,
mas vasto espaço de plenitude;
aprendi que a perda, em atitude,
é porta para outro concerto.

O céu se abre após o rompimento,
não como prêmio ou recompensa,
mas como lúcido ensinamento.

E assim, na calma imensa,
descubro que amar é movimento
que nos conduz à transcendência.

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(Betto Gasparetto – vi-mmix)

Renúncias, Ausências e um Certo Talvez

Posted in Sem categoria on 22 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Escrevi estes sonetos quando comecei a perceber que o amor estava sendo tratado como algo descartável. As relações tornaram-se rápidas, frágeis, substituíveis. Bauman chamou esse tempo de “líquido”; e, de fato, tudo parece escorrer pelas mãos antes que possamos compreender.

Mas o que me inquietou não foi apenas a instabilidade dos vínculos — foi a superficialidade com que passamos a aceitá-la. Hannah Arendt alertava para a banalização do mal quando o pensamento se ausenta. Tenho a impressão de que algo semelhante ocorre com o sentir: quando deixamos de refletir sobre nossas perdas, elas se tornam apenas episódios, e não aprendizagem. Orwell mostrou como a linguagem pode ser esvaziada; também o amor corre esse risco quando reduzido a slogan ou performance.

Foi contra essa redução que escrevi.

Nestes poemas, o amor não é promessa de permanência nem espetáculo emocional. É experiência que pesa. É gravidade. É aquilo que, mesmo breve, exige responsabilidade. A renúncia não aparece como fraqueza, mas como maturidade. A ausência não é carência, mas reorganização interior. A perda, quando assumida, educa.

Os cenários — avenidas sob lampiões, falésias, cais, escadarias antigas — são paisagens de um mundo em transformação constante. Neles, o amor não se protege da realidade; atravessa-a. Aprende com ela. Resiste a ela.

Num tempo que incentiva a troca rápida e o esquecimento conveniente, amar com consciência tornou-se, para mim, um gesto quase político. Não no sentido partidário, mas no sentido humano: recusar a banalização do outro. Não reduzir o afeto a consumo. Não transformar a experiência em distração.

Aprendi que o amor não precisa durar para ser verdadeiro. Precisa ser lúcido. E que sentir com profundidade, mesmo sabendo que tudo passa, é uma forma silenciosa de resistência à dissolução geral.

Se estes sonetos afirmam algo, é isto: em meio à fluidez do mundo, a gravidade do amor ainda pode nos ancorar.

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I – A Gravidade Serena do Amor Breve

“A verdadeira nobreza do amor está em sua liberdade.” (Inspirado em Charles Baudelaire – França)

Sob lampiões de cobre na avenida,
teu riso abriu clarões na noite escura;
mas logo a sombra, austera e já madura,
selou no ar a chama estremecida.

Foi breve o ardor — centelha consumida —
porém deixou na alma arquitetura;
ergueu-se em mim mais lúcida postura,
como quem aprende após a despedida.

Se o amor não dura, ainda assim eleva
o coração ao cume do discernimento,
faz da perda uma forma de prova.

E o que se vai, em puro movimento,
retorna em nós como ciência nova,
gravidade serena do sentimento.

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II – A Transparência do Afeto Desfeito

“A perda nos ensina a profundidade.” (Inspirado em Anna Akhmatova – Rússia)

No pátio antigo, sob a luz tardia,
teu nome foi cristal na minha boca;
mas o destino, em marcha grave e pouca,
rompeu o fio da nossa harmonia.

Ficou no chão a pálida poesia
do gesto que a memória ainda evoca;
e a dor, austera mestra que convoca,
moldou-me em lúcida melancolia.

Há transparência naquilo que finda:
a alma desnuda aprende a contemplar
o que na posse jamais se deslinda.

Assim, ao ver o sonho se afastar,
descubro que a ausência é ainda
uma forma mais alta de amar.

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III – O Horizonte que Nasceu do Adeus

“Toda partida abre um novo espaço.” (Inspirado em Seamus Heaney – Irlanda)

Na falésia alta, ao som das marés frias,
teu adeus foi gaivota em céu aberto;
o vento trouxe ao peito um rumo incerto,
rasgando as antigas geografias.

Mas do rompimento nasceram vias
que o coração jamais havia perto;
o horizonte, outrora quase deserto,
acendeu-se em novas travessias.

Não é ruína o que nos desampara,
mas vasto campo à frente iluminado,
onde o espírito aprende e se prepara.

E ao ver-te longe, já transfigurado,
senti que o fim não fecha nem separa:
abre horizontes no passado.

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IV – A Medida Oculta da Saudade

“O coração humano é feito de distâncias.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)

Na sala branca, à luz de porcelana,
teu retrato era chama contida;
mas a saudade, lâmina polida,
cortou-me a voz em sílaba profana.

O tempo, com paciência soberana,
ergueu no peito nova guarida;
aprendi que a perda consentida
não é derrota — é ciência arcana.

Há medida oculta na distância,
que pesa e equilibra o sentimento,
fazendo do vazio circunstância.

E assim, no lúcido pensamento,
descubro que amar é constância
que cresce mesmo após o rompimento.

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V – O Ouro Invisível do Amor Partido

“O essencial permanece invisível.” (Inspirado em Antoine de Saint-Exupéry – França)

No cais antigo, sob o céu nublado,
teu abraço foi chama com presteza;
mas partiste na fria correnteza
que o tempo impõe ao sonho iniciado.

Não ficou ouro visível ao meu lado,
nem promessa na voz aventureira;
contudo, a alma, lúcida e altaneira,
reteve o brilho do afeto passado.

O ouro do amor não reluz na mão,
vive secreto no âmago da vida,
forjando em nós mais alta direção.

E mesmo quando a chama é consumida,
fica em silêncio a firme fundação
de uma riqueza que jamais se olvida.

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VI – A Pedra que Ensina o Caminho

“O obstáculo é parte do percurso.” (Inspirado em Friedrich Hölderlin – Alemanha)

No vale ermo, entre rochas severas,
teu gesto foi clarão no horizonte;
mas logo o tempo, qual antigo monte,
ergueu muralhas duras e austeras.

Tropecei nas memórias mais sinceras,
mas cada queda abriu-me nova fonte;
aprendi que a dor não nos defronte
sem trazer lições mais verdadeiras.

A pedra que nos fere é também guia,
marca no chão a rota do crescimento,
faz da ferida lúcida vigia.

E assim, no áspero ensinamento,
descubro que a perda anuncia
um passo além do sofrimento.

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VII – A Luz que Persiste no Crepúsculo

“Mesmo na noite há claridade.” (Inspirado em Haruki Murakami – Japão)

No terraço alto, em cor de ferrugem,
teu sorriso foi último clarão;
mas a noite, cerrando o coração,
trouxe à paisagem lenta ferrugem.

Não se apagou, porém, na vã vertigem
o lume antigo de tua mão;
permaneceu na íntima amplidão
como farol oculto na penugem.

Há luz que vive após o entardecer,
não depende do sol nem da presença,
arde no fundo do próprio ser.

E assim, na calma recompensada ausência,
aprendi que o amor pode viver
como claridade sem pertença.

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VIII – A Geografia do Amor Transformado

“Somos feitos de mudanças.” (Inspirado em José Saramago – Portugal)

No mapa antigo de tuas palavras,
tracei rotas em tinta delicada;
mas o destino, mão desavisada,
rasgou o papel de nossas lavras.

Mudaram as fronteiras outrora claras,
e o que era certo tornou-se estrada;
aprendi que a perda inesperada
redesenha as terras que declamas.

A geografia do amor é móvel,
desenha curvas novas no viver,
torna o espírito mais nobre.

E ao ver o sonho se dissolver,
descubro que o afeto é imóvel
naquilo que nos faz crescer.

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IX – A Altura que Nasce da Renúncia

“A renúncia é também uma conquista.” (Inspirado em Miguel de Unamuno – Espanha)

No templo antigo de teus braços quentes,
meu coração erguia altar secreto;
mas veio o tempo, austero arquiteto,
e desfez os arcos incandescentes.

Renunciei às promessas ardentes,
não por fraqueza ou vil afeto,
mas porque o amor, se é puro e reto,
não se subjuga a grilhões insistentes.

Há altura naquilo que se solta,
na liberdade dada com ternura,
na paz que o desapego nos aporta.

E assim, na renúncia madura,
senti que a perda não revolta:
eleva a alma a outra altura.

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X – O Tempo como Mestre do Amor

“O tempo é o verdadeiro escultor.” (Inspirado em Marguerite Yourcenar – Bélgica/França)

Na escadaria antiga do destino,
teu passo ecoou breve e ardente;
mas o tempo, severo e paciente,
modelou no peito outro desígnio.

Não apagou o gesto cristalino,
antes tornou-o lúcido e consciente;
aprendi que o amor não é somente
chama súbita — é lento raciocínio.

O tempo é mestre austero do afeto,
escava a dor até torná-la forma,
faz do adeus um gesto mais correto.

E no silêncio que a saudade informa,
descubro que o amor, mesmo incompleto,
é escultura viva que transforma.

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(Betto Gasparetto – xi-mmx)

O Paradoxo da Intimidade como Resistência

Posted in Sem categoria on 21 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Escrevi estes sonetos num tempo em que tudo parece rápido demais — as notícias, os vínculos, as certezas. Vivemos sob uma lógica que valoriza o imediato e descarta o que não se sustenta por utilidade. O amor, muitas vezes, é tratado como consumo; a dor, como inconveniente; o silêncio, como falha de comunicação.

Foi nesse cenário que comecei a perceber que as experiências mais transformadoras da minha vida foram justamente aquelas que não duraram. A ausência não me enfraqueceu — obrigou-me a pensar. A despedida não me esvaziou — ensinou-me limites. O inacabado não me diminuiu — tornou-me mais atento.

Dante atravessou sombras para compreender a própria condição humana. T. S. Eliot escreveu sobre a fragmentação moderna. Virginia Woolf mostrou que a consciência é feita de instantes delicados e intensos. Hermann Hesse reconheceu que a dor pode amadurecer o espírito. Camus defendeu a lucidez em meio ao absurdo. Clarice Lispector viu na liberdade um gesto íntimo de responsabilidade. Simone Weil falou de um amor que não reivindica posse.

Esses autores me acompanham não como autoridades, mas como testemunhas de que a experiência humana é mais profunda do que o ritmo do mundo sugere.

Os claustros, as cidades, os campos, os labirintos que surgem nestes poemas são também espaços sociais. São lugares onde a pressa, a solidão urbana, a fragilidade dos vínculos e o excesso de ruído convivem com a necessidade silenciosa de sentido.

Aprendi que amar, hoje, é também resistir à superficialidade. É não transformar o outro em objeto. É não confundir intensidade com espetáculo. É aceitar a perda sem ceder ao cinismo.

Escrevi estes sonetos como forma de desacelerar. Como tentativa de dar espessura ao que parecia transitório demais. Porque, num mundo que se dissolve com facilidade, a verdadeira permanência talvez esteja na consciência que escolhe sentir com responsabilidade.

Perder, afinal, não é fracassar. É compreender que nada nos pertence — mas tudo o que nos atravessa pode nos tornar mais lúcidos.

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I – A Sombra Fértil do Amor Ausente

“A dor é também uma forma de claridade.”(Inspirado em Dante Alighieri)

No claustro antigo, sob vitrais sombrios,
teu vulto foi clarão de madrugada;
mas logo a noite, austera e renovada,
selou no mármore os meus desafios.

Teus passos foram ecos tardios
numa arcaria pálida e selada;
e a ausência, em sua lâmina velada,
lavrou-me a alma em sulcos mais tardios.

Aprendi que a sombra é campo fértil,
onde o afeto, longe de morrer,
gera um fruto mais grave e mais sutil.

Pois o que parte ensina a renascer,
e o amor, mesmo quando é frágil,
permanece no íntimo a florescer.

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II – A Claridade que Nasce do Adeus

“Toda despedida contém uma revelação.”(Inspirado em T. S. Eliot)

À beira-mar, no frio da alvorada,
teu adeus foi brancura sobre a espuma;
o céu tingia a areia em névoa bruma,
e a vida fez-se página rasgada.

Mas nessa perda, densa e calculada,
surgiu a luz que a noite não consuma;
pois o adeus, que a princípio nos arruma
no caos, ergue em nós nova morada.

Há claridade no romper da ausência,
há ciência secreta na partida,
que modela o espírito em paciência.

E assim, do fim brotou-me outra medida:
amar é aceitar a transcendência
que o tempo impõe à carne estremecida.

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III – O Silêncio que Molda o Sentimento

“No silêncio, o coração aprende a ouvir-se.”(Inspirado em Emily Dickinson)

No quarto austero, à luz de um candeeiro,
teu nome era um rumor entre cortinas;
as sombras, longas, densas e divinas,
bordavam o ar com traço derradeiro.

Não houve voz — somente o verdadeiro
silêncio, que nos torna peregrinas
as emoções outrora cristalinas,
fazendo do vazio um mensageiro.

O silêncio é escultor da memória,
modela a dor em forma delicada,
transfigura a perda em nova história.

E assim, na calma noite velada,
aprendi que a ausência é trajetória
que conduz a alma a outra alvorada.

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“A experiência é a verdadeira mestra da paixão.”(Inspirado em Virginia Woolf)

Na praça antiga, entre colunas frias,
teu riso foi clarim de primavera;
mas o concreto, duro, não tolera
a leveza das breves alegrias.

Partiste ao som das tardes vazias,
e a cidade, austera sentinela,
guardou teu eco em lâmpada amarela
que ainda arde nas esquinas tardias.

O amor dissolveu-se na paisagem,
mas deixou na pedra a inscrição
de que viver é múltipla passagem.

E na arquitetura da solidão
ergueu-se em mim madura aprendizagem,
mais alta que qualquer ilusão.

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V – A Harmonia Secreta da Perda

“Há música mesmo na dor.”(Inspirado em Hermann Hesse)

Teu gesto foi acorde repentino
numa sala de espelhos e silêncio;
mas o destino, austero e sem consenso,
rompeu a pauta do rumor divino.

Ficou-me o som, grave e cristalino,
que vibra além do tempo mais propenso;
e aprendi que a perda é um denso
movimento em compasso mais genuíno.

Há harmonia naquilo que termina,
há ritmo oculto na despedida,
que à alma ensina medida fina.

E assim, na dor já apaziguada,
descubro a música que ilumina
o espaço onde a esperança é recriada.

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VI – O Labirinto Claro do Afeto

“Amar é aventurar-se no desconhecido.”(Inspirado em Albert Camus)

No labirinto azul da madrugada,
teu olhar foi lâmpada e vertigem;
eu, navegante incerto na vertigem,
segui teu passo em rota iluminada.

Mas toda senda, cedo, é revisada
pelo tempo que exige nova origem;
e o amor, que parecia miragem,
revela-se lição já decantada.

Não há erro no afeto que se finda,
mas rota que conduz ao entendimento,
mesmo quando a saudade ainda é linda.

E assim, no claro labirinto interno,
aprendo que o sentir, embora findo,
faz-se em mim um horizonte eterno.

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VII – A Colheita do Amor Temporário

“O tempo amadurece até o que foi breve.”(Inspirado em Pablo Neruda)

Nos campos onde o trigo era dourado,
teu riso era promessa de colheita;
mas veio o vento, em lâmina desfeita,
e o grão caiu no sulco já passado.

Não foi em vão o sonho semeado:
na terra escura, oculta e imperfeita,
germinou a verdade que aproveita
ao coração outrora apaixonado.

O breve é semente que trabalha
na sombra fértil da recordação,
fazendo do vazio nova palha.

E quando o tempo fecha a estação,
colhemos, mesmo após antiga falha,
a ciência viva da transformação.

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VIII – A Tarde que Ensinou o Desprendimento

“Liberdade é deixar ir com ternura.”(Inspirado em Clarice Lispector)

À sombra morna de um jardim tardio,
teu gesto foi clarão entre ciprestes;
mas o crepúsculo, em tons agrestes,
trouxe à paisagem um rumor sombrio.

Compreendi, então, no ar vazio,
que amar é aceitar partidas celestes;
não há prisão que o afeto manifeste,
pois todo vínculo é sopro bravio.

Desprender-se é ato luminoso,
não de frieza, mas de reverência
à vida em seu fluir misterioso.

E nessa tarde de transparência
ergueu-se em mim sentido mais precioso:
amar é consentir na divergência.

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IX – A Chama que Não Reivindica Permanência

“O verdadeiro amor não exige posse.”(Inspirado em Simone Weil)

Teu toque foi clarão sobre a colina,
ardor que fez da noite um campo aceso;
mas a paixão, ainda em seu peso,
não pede grilhões, nem disciplina.

A chama vive enquanto ilumina,
não busca aprisionar o que é ileso;
e eu vi que o amor, mesmo indefeso,
é grande quando à liberdade inclina.

Não reivindica posse ou juramento,
mas pulsa alto, claro e soberano,
como estrela no vasto firmamento.

E assim aprendi, sem desengano,
que o afeto é puro movimento,
não cárcere tecido por humano.

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X – A Transfiguração do Instante Perdido

“O instante contém o infinito.”(Inspirado em Martin Heidegger)

Num terraço ermo sob céu tardio,
teu olhar foi farol em noite rasa;
mas logo o vento, em fria ameaça,
levou-te além do meu horizonte frio.

Ficou-me o eco, lúcido e sombrio,
daquilo que jamais se quer atrasa;
e o instante, breve chama que se arrasa,
tornou-se eternidade em desafio.

Perder é forma alta de presença,
pois no vazio o sentido se depura
e a alma encontra nova pertença.

E o que se foi, na carne, em noite escura,
vive em mim como firme recompensa:
instante algum é vão se transfigura.

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(Betto Gasparetto – viii-mmix)

Quando a Impermanência Brota das Inquietações

Posted in Sem categoria on 20 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Estes sonetos nasceram de uma inquietação persistente: por que aquilo que não permanece pode nos formar com tamanha profundidade?

Goethe sugeriu que o vivido intensamente toca o eterno; Rilke percebeu na ausência uma presença mais sutil; Pessoa transformou a despedida em exercício interior; Borges viu no tempo uma pedagogia austera; Gabriela Mistral reconheceu a vastidão do inacabado; Tagore associou liberdade ao gesto de soltar; Sophia de Mello Breyner elevou a experiência à categoria de mestra invisível; Octavio Paz recordou que o coração humano é geometria móvel.

Esses ecos atravessam estas páginas.

Os cenários recorrentes — átrios, claustros, escadas, terraços, fontes, colinas — não são ornamentais. São metáforas de transição. Cada espaço sugere uma travessia interior. O amor, aqui, não é promessa de estabilidade, mas acontecimento que ilumina a precariedade da condição humana.

Vivemos em uma época que confunde intensidade com excesso e permanência com posse. As relações se tornaram rápidas; a linguagem, volátil; a experiência, fragmentada. Escrever sobre o efêmero é, portanto, gesto deliberado: trata-se de afirmar que a brevidade não é superficialidade. O instante, quando vivido com lucidez, possui densidade ontológica.

A despedida modela. A ausência reorganiza. O desapego educa. O inacabado abre horizontes.

Se há uma convicção nestes poemas, é esta: o transitório não diminui a vida — ele a esclarece. E talvez, em tempos de dispersão e ruído, compreender a impermanência seja uma das poucas formas de permanência que ainda nos restam.

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I – O Peso Luminoso do Efêmero

“Tudo quanto vive intensamente toca o eterno.”(Inspirado em Johann Wolfgang von Goethe)

No átrio antigo, sob vitrais de bruma,
teu riso ergueu-se em lâmpada serena;
a tarde, em púrpura, tornou-se plena,
e o mundo fez-se claro como espuma.

Mas foi-se o ardor — qual tênue vaga em suma —
deixando em mim a essência mais amena;
aprendi que a chama, quando pequena,
vale mais que a noite que a consuma.

Se o instante é frágil lâmina de luz,
é também ponte ao vasto entendimento,
é o sopro breve que o destino induz.

E o que parece mínimo momento
transfigura-se em sábia contraluz:
o efêmero educa o pensamento.

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II – O Jardim que Floresceu na Ausência

“A ausência é a forma invisível da presença.”(Inspirado em Rainer Maria Rilke)

Entre colunas de mármore cansado,
teu passo ecoou leve na arcaria;
o ar trazia um odor de maresia
e o céu pendia em ouro fatigado.

Partiste, e o claustro, outrora iluminado,
guardou teu vulto em muda sinfonia;
cresceu na pedra fria a poesia
de um gesto que não foi mais renovado.

Mas na ausência floresce o que era semente:
a dor depura o afeto em pura seiva,
faz do silêncio mestre permanente.

Assim, teu adeus — que o tempo arquiva —
ergueu em mim jardim resplandecente,
onde a memória é fonte que cultiva.

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III – Arquitetura de um Adeus Sereno

“A despedida é também forma de amor.”(Inspirado em Fernando Pessoa)

Na escada antiga, sob o pó dourado,
teu adeus foi coluna erguida ao vento;
não houve grito, apenas um lamento
que se tornou silêncio consagrado.

O céu, de cobre pálido e velado,
assistiu ao rito do momento;
e eu vi que o fim não era rompimento,
mas ponte a um outro estado elevado.

Adeus é arte austera e delicada:
não rasga a alma — antes a modela,
como escultor que lima a pedra alada.

E, ao partir, deixaste-me a parcela
de um amor sem ânsia, sem cilada,
que aprende a ser mais vasto do que ela.

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IV – O Cântico do Instante Irrecobrável

“O tempo não volta; mas ensina.”(Inspirado em Jorge Luis Borges)

No pátio antigo, a fonte murmurava
segredos líquidos à tarde lenta;
teu olhar, qual lâmina sedenta,
na minha noite súbito brilhava.

Mas o instante, ave que não se escrava,
alçou seu voo além da nossa intenta;
ficou-me a lição grave e opulenta
de que o agora é chama que se grava.

Irrecobrável é o que nos fecunda:
perdê-lo é gesto alto de coragem,
pois só quem aceita o fluxo se aprofunda.

E o tempo, severo na passagem,
faz da perda uma força que inunda
a alma em lúcida aprendizagem.

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V – A Metáfora do Amor Inacabado

“O amor é vasto mesmo quando incompleto.”(Inspirado em Gabriela Mistral)

No terraço azul de uma cidade erma,
teu nome foi clarão sobre o granito;
o vento, em teu cabelo, era um escrito
que a noite lia em música mais terna.

Não se cumpriu o sonho — e essa alterna
condição fez do afeto um rito;
aprendi que o inacabado é infinito,
pois nele a esperança se governa.

O que não foi inteiro não se perde:
transforma-se em ideia que respira,
em lume oculto sob a hera verde.

E assim o amor, ainda que se retire,
permanece alto, claro e firme,
como promessa que jamais expira.

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VI – A Ciência Secreta do Desapego

“Ser livre é saber soltar.”(Inspirado em Rabindranath Tagore)

Na varanda onde o sol pousava manso,
teu riso era cristal em tarde antiga;
eu te ofertava o coração que abriga
o doce risco do primeiro avanço.

Mas veio o tempo, inexorável, tenso,
e ensinou-me a lição que me mitiga:
amar não é prender quem nos instiga,
é permitir que siga o próprio censo.

Desapegar é gesto soberano:
não é renúncia fria ou desalento,
é forma alta de cuidado humano.

E eu, que temi perder-te ao vento,
ganhei-me inteiro, lúcido e profano,
na ciência secreta do consentimento.

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VII – Sob a Abóbada do Tempo Aprendido

“A vida é a mestra invisível do amor.”(Inspirado em Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sob a abóbada vasta do entardecer,
teu vulto foi estrela na colina;
o horizonte, em cor de tangerina,
abriu-me a estrada que não sei esquecer.

Passou teu passo, e eu pude compreender
que o tempo, austero, nada elimina:
transforma a dor em fonte cristalina
e faz do adeus um modo de crescer.

Aprendido é o amor que se transforma,
não se detém na carne ou no desejo,
mas busca na alma a sua norma.

E assim, entre o fim e o ensejo,
ergue-se o afeto em pura forma,
como templo erguido sobre o beijo.

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VIII – A Geometria do Amor que se Dissolve

“Nada é fixo no coração humano.”(Inspirado em Octavio Paz)

Traçamos linhas firmes sobre a areia,
jurando eternidade ao mar revolto;
teu nome era farol em céu absorto,
e a noite parecia mais alheia.

Mas a maré, severa em sua aldeia,
desfez o risco outrora mais revolto;
aprendi que o afeto, mesmo solto,
não morre — muda a forma que incendeia.

Geometria móvel do desejo,
que se expande e recolhe sem aviso,
como constelação em outro eixo.

E o que julgávamos preciso
revela-se figura em novo ensejo,
mais ampla, mais madura, mais conciso.

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(Betto Gasparetto – iv-mmix)

Ser ou Não Ser Efêmero em Tempos de Dissolução

Posted in Sem categoria on 19 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Escrevi estes sonetos movido menos pelo desejo de celebrar o amor do que pela necessidade de compreendê-lo. Não como exaltação romântica, mas como experiência que revela a condição humana quando esta é submetida à passagem do tempo e à instabilidade do mundo.

Vivemos numa era em que tudo se acelera e se dissolve. A palavra se desgasta, os vínculos se fragilizam, e a experiência é substituída pela aparência. Debord chamou isso de espetáculo; Arendt, de banalização; Bauman, de liquidez. O que me inquieta não é apenas a fragilidade das relações, mas a fragilidade da consciência.

O amor, nestes poemas, não surge como promessa de eternidade, mas como acontecimento que ilumina a precariedade. O instante — tão breve quanto decisivo — possui a gravidade de uma revelação. Goethe intuía que o vivido intensamente toca o eterno; Camus lembrava que a lucidez nasce da confrontação com o absurdo; Montaigne ensinou que refletir sobre si é o primeiro exercício de liberdade.

Por isso, retorno insistentemente a espaços de travessia: átrios, claustros, escadas, colinas. São metáforas do movimento interior. Cada despedida não é ruína, mas exame. Cada ausência não é vazio, mas reconfiguração da memória. Amar, nesse contexto, significa aceitar a impermanência sem ceder ao cinismo.

Se há algo que estes sonetos pretendem afirmar é que o efêmero não diminui a experiência humana — ele a intensifica. O que passa pode instruir; o que se dissolve pode clarificar; o que não permanece pode formar.

Não escrevi para fixar o amor, mas para aprender com ele. E talvez essa aprendizagem — íntima e coletiva — seja uma das poucas formas de resistência num mundo que tende a esquecer.

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I – Do Amor Transitório e da Sabedoria Perene
“Tudo o que passa, se for inteiro, deixa ciência no peito.” (inspirado em Camões)

No cais da tarde, a névoa fez-se tela,
e o teu olhar — veloz clarão de estrela —
cortou-me a vida, e a ânsia fez-se nela
rosa que arde e se desfaz na velha.

Beijei-te a voz; e a hora, sentinela,
roubou-nos o fervor, sem dar apela;
ficou no chão a seda da aquarela,
ficou no sangue a lição, grave e bela.

Se o amor é vento, ensina a direção:
não prende o céu — mas mostra o seu perfil;
faz do adeus uma clara fundação.

E eu, que perdi, ganhei-me, mais sutil:
o breve foi escola do coração,
e o eterno, um aprender sereno e vivo.

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II – Do Breve Ardor e da Longa Memória
“O fogo se apaga; a luz aprende a morar em nós.” (inspirado em Khalil Gibran)

Ardeu em mim teu riso, e foi centelha,
na sala antiga, ao som de chuva fria;
tua mão, que era brasa, prometia
um reino ao pó que a dúvida aconselha.

Mas foi-se o ardor — e a noite, em calma velha,
trouxe-me a paz de um salmo sem liturgia;
a chama, que se foi, ainda alumia
o corredor de sombras onde eu vela.

Memória é pão que o tempo não consome,
vinho guardado em ânfora discreta;
não dói: amadurece, e não some.

E assim te levo, não por ser completa,
mas porque o breve, quando se renome,
vira em silêncio a mais fiel promessa.

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III – Da Paixão que Passa e do Saber que Fica
“O que se perde em corpo, ganha-se em sentido.” (inspirado em Neruda)

No mercado do sol, entre romãs,
tua cintura traçou meu desvario;
eu, marinheiro de um desejo bravio,
dei-te meu nome em conchas soberãs.

Passou — e as ruas, súbitas e vãs,
guardaram só o aroma do teu fio;
mas ficou-me a certeza: no vazio
se aprende o peso exato das manhãs.

Paixão é rio: não pede permanência;
leva, no entanto, ao mar do entendimento,
onde a alma lê sua própria experiência.

E o que ficou, depois do movimento,
foi um saber sem dor, sem impaciência:
amar é ir — e retornar por dentro.

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IV – Do Instante Amado e da Eternidade Aprendida
“Há instantes que duram porque nos refazem.” (inspirado em Shakespeare)


Num teatro sem luz, a rua em cena,
tu me sorrias — máscara sincera;
e o mundo, que me era pedra severa,
fez-se jardim na palma de uma pena.

Foi só um passo, e a sorte, tão pequena,
mudou meu rumo como quem espera;
depois, o tempo, ávido, viera
cobrar do beijo a conta mais amena.

Mas aprendi: o eterno não se mede
por calendário, sino, nem estação;
mora no gesto, quando a alma cede.

E o instante amado, em sua condição,
faz-se infinito ao coração que pede
não posse — apenas lúcida visão.

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V – Da Carne Efêmera e do Espírito que Aprende
“O pó não nega a chama; apenas a revela.” (inspirado em Camões)

Teu corpo era clarim de madrugada,
pura arquitetura em mármore vivente;
beijei-te a pele, e, súbito, na mente,
ergueu-se uma catedral inesperada.

Mas toda forma, ao sol, é nau quebrada;
o sal do tempo corrói o mais contente;
e eu vi que a carne, bela e transparente,
é flor que ensina a ser contemplada.

O espírito, contudo, não se gasta:
aprende a amar sem ânsia de corrente,
faz do desejo um cântico que basta.

E o que era posse vira um dom ardente:
a vida passa, sim — mas, quando arrasta,
deixa em nós a verdade mais paciente.

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VI – Do Fogo Rápido e da Cinza que Ensina
“A cinza não é fim: é mapa de recomeços.” (inspirado em Khalil Gibran)

Acendeu-se em meu peito um fogo breve,
num quarto azul de espelhos e jasmim;
tua palavra, lâmina sem fim,
abriu-me o céu, e a febre foi mais leve.

Depois, restou a cinza, calma neve,
sobre o tapete antigo de cetim;
e eu, sem teu passo, sem teu clarim,
soube ouvir o silêncio que me escreve.

A cinza guarda a forma do que arde,
e ensina ao coração — que sempre erra —
que o brilho tem seu preço e sua tarde.

Por isso, aceito o pó que a hora encerra:
do incêndio eu tiro a lucidez que guarde,
e do adeus faço paz sobre a terra.

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VII – Entre o Instante e o Infinito
“A ponte do agora é feita de atenção.” (inspirado em Shakespeare)

Entre o segundo e o abismo da distância,
teu nome foi o sino a me guiar;
eu caminhava, sem saber ficar,
num fio de neblina e de constância.

O instante é ave: pousa sem fragrância,
e logo voa, sem se anunciar;
mas o infinito, ao lento contemplar,
nasce onde a alma aprende a ter paciência.

Se eu te perdi, não foi por desamor:
foi porque o mundo, áspero moinho,
moe até o trigo puro do fervor.

Ainda assim, no íntimo caminho,
eu junto o breve ao vasto em seu labor:
ser é tocar o céu sem ter destino.

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VIII – Onde o Amor Se Despede e o Tempo Ensina
“O adeus é um mestre que fala baixo.” (inspirado em Camões)

Na estação, o metal tremia frio,
e a tua mala era um país fechado;
um lenço, uma promessa, um rosto amado,
e o trem — destino — devorando o fio.

Tu me disseste pouco, e esse vazio
foi mais profundo que um discurso dado;
partiste, e o relógio, disciplinado,
bateu-me em sangue o seu severo brio.

O tempo ensina: não há voz que prenda
o que nasceu para seguir além;
não há muralha que o vento não fenda.

E eu, que chorava, compreendi também:
amar é desejar que a vida acenda,
mesmo que a luz se acenda em outro alguém.

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IX – A Escola dos Afetos Breves
“Não desprezes o pouco: o pouco educa.” (inspirado em Khalil Gibran)

Numa livraria antiga, entre cadernos,
teu riso caiu leve sobre mim;
foi aula sem professor, clara, sem fim,
no pó dourado dos instantes ternos.

Tão curto foi — que a noite, em seus invernos,
mal conseguiu entender o meu jardim;
contudo, esse pequeno clarim
moveu-me o mundo em rumos mais eternos.

Aprendi que o afeto, quando passa,
não é engano: é seta para dentro,
é mão discreta que a alma abraça.

E assim me torno, ao teu breve ensinamento,
menos refém do medo que ameaça,
mais companheiro do meu próprio tempo.

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X – Lições de um Amor que Durou um Segundo
“Um segundo pode ser século no coração desperto.” (inspirado em Neruda)

Te vi na esquina, e o sol, como um punhal,
abriu na tarde um ouro repentino;
teu passo, em trança de perfume fino,
fez do meu peito um porto vertical.

Não houve fala — e, mesmo assim, total
foi o sinal que eu li no teu destino;
um segundo — e eu, só, sem norte, sem caminho,
tive na alma um verão monumental.

Primeira lição: não se manda no encanto;
segunda: o olhar é pátria sem fronteira;
terceira: o mundo muda com um canto.

E eu sigo, desde então, de vida inteira,
guardando em mim, sem drama e sem quebranto,
o relâmpago manso da primeira.

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XI – O Que Fica Depois do Abraço
“O abraço termina; a ternura continua trabalhando.” (inspirado em Shakespeare)

Depois do abraço, a casa fica estranha,
como se o ar lembrasse a tua mão;
a mesa guarda a forma da paixão,
e o chão repele a sombra que o acompanha.

Fica um rumor de mar, fina campanha
no coração, que aprende a solidão;
fica um perfume antigo no clarão,
e uma coragem nova que se apanha.

O que fica não é a dor que insiste:
é a delicada arte de aceitar,
é a força quieta do que em nós persiste.

Pois quem amou não volta ao mesmo lugar:
traz no silêncio o lume que resiste,
e um modo mais inteiro de olhar.

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XII – A Arte de Amar e Partir
“Partir não nega o amor; depura-o.” (inspirado em Camões)

Amar é dar sem algema, e, no entanto,
não converter o dom em sacrifício;
é ser altar e ser também ofício,
e não chamar de posse o que é encanto.

Partir é compreender, no mesmo pranto,
que a vida não se curva ao nosso vício;
é despedir-se, limpo de artifício,
como quem fecha um livro em tom de canto.

Se o amor foi luz, que siga iluminando;
se foi caminho, que se faça em paz;
se foi ferida, que se vá curando.

E eu me despeço — e nisso me refaz:
amar é ir, sem ódio, sem comando,
e ser maior do que a falta nos traz.

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(Betto Gasparetto – i-mmxi)