Arquivo para fevereiro, 2026

Decassílabos em Notas Ausentes

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No velho couro, o corpo se reclina;
o blues ecoa dentro do cristal.
O vinho, qual navalha, me domina
no amargo desta noite de vendaval.

As gotas que a janela vão riscando
são lágrimas de um sangue tão rubro,
enquanto o disco as horas vai contando
no gosto morno que no peito nutro.

O olhar vagueia pela sala fria,
onde o meu eu se encontra anestesiado.
Não estou só, mas falta a companhia,
pois algo senta sempre ao meu lado.

Ocupa o espaço onde eu seria inteiro,
presença que me invade e me cativa.
Velha armadilha: o meu cativeiro,
numa memória que se mantém viva.

Aceita a taça que eu lhe ofereço,
no nevoeiro que a visão inunda.
No sono, enfim, de tudo me esqueço,
nesta penumbra mística e profunda.

(Brenda GG – viii-xxvi)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (09/10)

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Eles não foram exemplo histórico.
Foram exceção silenciosa.
Quando tudo ensinava a abandonar,
eles ficaram.
E isso, sem glória,
foi a maior vitória possível.

Capítulo IX — Depois e a Permanência

Najillah, a Musa — O Amor Sem Ilusão

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Anos passaram.
O mundo se reorganizou.
Ela não romantizava o passado.
Mas não o negava.
A guerra virou memória compartilhada.
Não fantasma constante.
Ela via nele marcas.
E aceitava.
Porque também carregava as suas.
O amor não era mais promessa.
Era presença.
Era rotina construída.
Era escolha reiterada.
Ela não precisava mais provar nada.
A vida seguia simples.
E isso era suficiente.


Yahzzir, o Menestrel— A Vida Possível

Ele aprendeu a rir novamente.
Não alto.
Mas verdadeiro.
Ele voltou a sentir prazer em coisas pequenas.
Caminhar.
Sentar.
Observar.
Ele não esqueceu.
Mas deixou de ser dominado.
O amor se transformou em território seguro.
Não perfeito.
Mas habitável.
Ele compreendeu que permanecer
foi o maior ato de coragem que realizou.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (08/10)

Posted in Sem categoria on 7 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Reconstruir não foi esquecer.
Foi decidir continuar
sem exigir pureza do passado.
O amor deixou de prometer
e passou a sustentar.

Capítulo VIII — Pós-Guerra e a Reconstrução

Najillah, a Musa — A Escolha Diária

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Com o tempo, ela parou de esperar milagres.
Passou a valorizar pequenas vitórias.
Um sorriso espontâneo.
Uma noite sem sobressaltos.
Um diálogo mais longo.
Ela ajustou expectativas.
Não por resignação.
Por maturidade.
Ela começou a propor novos rituais.
Caminhadas curtas.
Refeições simples.
Silêncios compartilhados.
Ela percebeu que o amor não precisava ser intenso.
Precisava ser constante.
Ela sentiu saudade de quem foi.
Mas não se perdeu nisso.
Ela se tornou mais firme.
Menos romântica.
Mais presente.
A juventude dela não desapareceu.
Apenas mudou de forma.
Ela aprendeu a amar sem exigir explicação.
A acolher sem invadir.
A ficar sem aprisionar.
Ela entendeu que reconstruir
era um ato político e íntimo.
Contra a guerra.
Contra o esquecimento.
Ela escolheu permanecer.
Não por dever.
Por sentido.


Yahzzir, o Menestrel— Reaprender a Viver

Ele começou a perceber mudanças.
Lentas.
Quase invisíveis.
O corpo relaxava aos poucos.
O sono vinha em blocos maiores.
O silêncio deixava de ameaçar.
Ele começou a confiar na repetição.
No cotidiano.
No gesto simples.
Ela estava ali.
Não cobrando.
Não exigindo.
Isso o ensinou mais do que qualquer terapia possível.
Ele percebeu que amar
não era voltar a ser quem foi.
Era aceitar quem se tornou.
Ele passou a falar mais.
Não tudo.
Mas o possível.
Ele começou a habitar o presente.
Sem tanta vigilância.
Sem tanta antecipação de desastre.
Ele entendeu que sobreviver
não era o fim da história.
Era o início de outra.
E isso exigia coragem diferente.
A coragem de permanecer vivo.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (07/10)

Posted in Sem categoria on 6 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Eles aprenderam que amar alguém ferido
é amar sem atalhos.
Sem pressa.
Sem exigir retorno imediato.
O amor virou reconstrução lenta
sobre terreno instável.

Capítulo VII — Pós-Guerra e o Estranhamento

Najillah, a Musa — Conviver com um Sobrevivente

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa parecia a mesma.
Mas não era.
Os móveis estavam no lugar.
As paredes intactas.
Mas o ar havia mudado.
Ela observava pequenos gestos dele.
O modo como fechava portas.
O silêncio prolongado.
A atenção excessiva aos ruídos.
Ela percebeu que ele dormia mal.
Acordava antes do amanhecer.
Ficava sentado.
Olhando nada.
Ela tentou retomar hábitos antigos.
Cozinhar juntos.
Ouvir música.
Falar do dia.
Alguns funcionavam.
Outros falhavam.
O amor agora exigia cuidado.
Não entusiasmo.
Ela sentia falta do homem anterior.
E se culpava por isso.
Porque ele estava vivo.
E isso deveria bastar.
Mas amar alguém que voltou diferente
é aprender a amar outra pessoa
sem trair a memória da primeira.
Ela sentia o corpo dele distante.
Não fisicamente.
Mas como se estivesse sempre pronto para partir.
Ela não pressionava.
Aprendeu que pressão fecha ainda mais.
Ela observava.
Esperava.
A juventude dela começava a se despedir.
Não por idade.
Mas por lucidez precoce.
Ela sentia cansaço emocional.
Mas não desistência.
Ela sabia que reconstruir
não era devolver o passado.
Era aceitar o que sobrou.
Ela teve medo de não ser suficiente.
Medo de não alcançar o homem
que ainda estava preso em outro tempo.
Mesmo assim, ficou.
Porque amar, naquele momento,
era ficar quando tudo pedia fuga.


Yahzzir, o Menestrel— Habitar um Corpo em Paz

A paz era barulhenta.
Não pelos sons.
Pelo vazio.
Ele não sabia onde colocar a atenção.
A ausência de ordens o desorganizava.
Ele acordava pronto para agir
sem saber o que fazer.
O corpo reagia antes da mente.
Ele se sentia deslocado.
Dentro da própria casa.
Dentro do próprio nome.
Ela estava ali.
E isso o ancorava.
Mas também o expunha.
Porque ele não queria feri-la
com aquilo que não sabia explicar.
Ele se sentia inadequado.
Incompleto.
Às vezes, perigoso demais para a normalidade.
Ele evitava falar do que viveu.
Não por segredo.
Mas porque as palavras não davam conta.
Ele via o esforço dela.
E isso o constrangia.
Porque ele não sabia como corresponder.
O amor agora exigia reaprendizado corporal.
Aprender a tocar.
A dormir.
A permanecer.
Ele sentia culpa por sobreviver.
Culpa por voltar.
Culpa por não estar inteiro.
A guerra havia terminado.
Mas ele ainda estava lá dentro.
Ele percebeu que o amor não cura.
Mas sustenta.
E isso era mais difícil de aceitar.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (06/10)

Posted in Sem categoria on 5 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Voltar não foi reencontro.
Foi confronto.
Entre quem ficou
e quem precisou partir por obrigação.
A guerra terminou,
mas não devolveu os mesmos corpos
nem as mesmas expectativas.

Capítulo VI — Fim da Guerra e o Retorno Incerto

Najillah, a Musa — O Reencontro Como Teste

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Quando disseram que a guerra estava acabando,
ela não comemorou de imediato.
A alegria parecia irresponsável.
Como se o mundo ainda pudesse desmentir.
Ela esperou.
Como esperou sempre.
O retorno dele virou ideia fixa.
Mas também virou medo.
Porque o retorno era desconhecido.
Ela imaginava o rosto dele.
Mas sabia que o rosto mudaria.
Ela imaginava o abraço.
Mas sabia que o abraço poderia falhar.
A estação estava cheia.
Gente com flores, malas, lágrimas.
Ela estava ali.
Com um buquê simples.
As mãos tremiam.
Ela tinha 20 anos,
mas parecia carregar uma década a mais.
Quando o trem chegou,
o som não foi romântico.
Foi metal e fumaça.
E então ela o viu.
Ele estava mais magro.
Mais quieto.
O olhar mais fundo.
Ela reconheceu.
Mas também estranhou.
E isso doeu.
Como se amar alguém
fosse também aceitar o desconhecido.
Eles se aproximaram.
O abraço veio.
Mas não foi perfeito.
Foi rígido no começo.
Como se os corpos
não soubessem mais o idioma antigo.
Ela sentiu o cheiro dele.
E chorou sem controlar.
Não por felicidade.
Por descarga.
Por tudo que ficou preso.
Ela viu que ele carregava silêncio.
E entendeu:
o fim da guerra não devolve a vida imediatamente.
Apenas permite tentar de novo.
Ela apertou a mão dele.
E decidiu não exigir.
Decidiu reconstruir.
Mesmo sem garantia.


Yahzzir, o Menestrel — Voltar Não é Retornar

Ele chegou com o corpo inteiro
e com a mente cheia de ausências.
O barulho do trem parecia pequeno
perto do que ele carregava.
Na plataforma, ele viu gente sorrindo,
e estranhou o sorriso.
Como se sorrir fosse coisa antiga.
Então viu ela.
E algo nele que ainda era humano
se moveu.
Ele quis correr.
Mas não correu.
O corpo aprendeu a conter.
Ele caminhou.
Ela estava ali, jovem,
e ao mesmo tempo
com um olhar mais velho.
Ele percebeu isso no primeiro segundo.
Percebeu que a guerra também a atingiu.
O abraço foi real,
mas atravessado.
Ele sentiu o próprio peito duro.
Como se tivesse esquecido a maciez.
Ele quis dizer muito.
Mas as palavras não vieram.
Porque a guerra roubou a espontaneidade.
Ele segurou a mão dela.
E teve medo de não ser reconhecido por dentro.
Ele era 25 anos.
Mas se sentia desgastado.
Ele percebeu que voltar
é entrar em um lugar
que continuou sem você.
E isso fere.
Fere o orgulho.
Fere a ideia de pertencimento.
Ele notou olhares ao redor.
Curiosidade.
Julgamento.
Ele não queria ser herói.
Queria ser homem comum novamente.
Mas não sabia como.
Ao lado dela, no caminho para casa,
o mundo parecia limpo demais.
Silencioso demais.
E isso o inquietava.
Porque a paz também pode ser estranha.
Ele decidiu, sem falar,
que o amor seria uma reconstrução.
Não um retorno.
Uma obra nova sobre terreno ferido.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)