Arquivo para fevereiro, 2026

O Que Permanece Quando Tudo Passa (05/10)

Posted in Sem categoria on 4 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

O limite não foi a explosão.
Foi o depois.
Quando o corpo seguia funcionando
e a alma demorava a alcançar.
A guerra ensinou algo cruel:
é possível continuar respirando
sem continuar inteiro.

Capítulo V — A Guerra | O Limite

Najillah, a Musa — O Dia em Que a Cidade Quebrou

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Houve um dia específico.
Ela não esqueceu.
O ar estava pesado.
O céu tinha um cinza estranho.
As pessoas andavam rápido.
Ninguém se olhava.
A sirene veio antes do som das explosões.
E então o mundo tremeu.
Ela correu.
Não sabia para onde.
A rua virou grito.
Vidros viraram chuva.
Poeira tomou a garganta.
Ela sentiu o corpo pequeno.
Sentiu o coração bater errado.
Entrou em um abrigo com desconhecidos.
Apertos.
Cheiro de medo.
Choro contido.
Silêncio obrigatório.
Ela segurou a própria respiração.
E pensou nele como se fosse última vez.
Quando saiu, a rua era outra.
Uma parede caiu.
Uma loja desapareceu.
Um poste estava no chão.
A normalidade tinha sido arrancada.
As pessoas procuravam nomes.
Ela também procurou.
Mas não era por alguém ali.
Era por Yahzzir, longe.
Ela percebeu o absurdo:
a guerra destruía o que estava perto
e ameaçava o que estava longe.
À noite, ela sentiu tremor nas mãos.
Sem frio.
Sem febre.
Só impacto.
O amor virou medo concreto.
Ela deixou de pedir notícias.
Passou a implorar por existência.
Ela aprendeu a viver com sobressalto.
Qualquer ruído era ameaça.
Qualquer demora era presságio.
Os muros foram cobertos de propaganda.
Os jornais traziam palavras duras.
A cidade perdeu cores.
Os rostos perderam juventude.
Ela, com 20 anos,
sentiu-se antiga.
A guerra não matava só pessoas.
Matava ritmo, beleza, delicadeza.
Ela ficou mais dura por fora.
Para proteger o que restava por dentro.
E isso, em segredo,
a entristecia.
Porque ela lembrava quem tinha sido.
E agora vivia como outra.
Mesmo sem querer.
Mesmo sem escolha.


Yahzzir, o Menestrel — O Ponto Sem Retorno

O limite não foi uma batalha só.
Foi a soma.
Foi um dia em que o barulho não parava.
Foi o cheiro de fumaça grudado na pele.
Foi a visão repetida de queda.
Foi a sensação de que a vida
podia terminar por acaso.
Ele correu.
Abaixou.
Levantou.
Obedeceu.
E, no meio disso,
teve um instante de lucidez brutal:
se eu morrer aqui,
ela não saberá como.
A ideia o atingiu mais que qualquer explosão.
Ele percebeu o tamanho da distância.
O amor, naquela hora,
não era conforto.
Era lâmina.
Porque amar aumentava o que se podia perder.
Ele viu um amigo cair.
E não pôde parar.
Isso o feriu de um jeito novo.
Um ferimento moral.
Depois, à noite,
ele lavou as mãos
e não sentiu que limpava.
Ele começou a questionar
a própria humanidade.
A guerra exigia o impossível:
ser máquina e ser homem ao mesmo tempo.
Ele continuou por disciplina.
Mas a disciplina também se desintegrava.
Ele ficou mais silencioso.
Mais duro.
Mais atento ao vazio.
As cartas ficaram ainda menores.
Duas linhas.
Três.
Um “estou vivo” implícito.
Ele guardava palavras
como se fossem munição emocional.
Porque gastar demais
podia deixar nada para o dia seguinte.
Ele se pegou imaginando o rosto dela.
E não conseguindo lembrar detalhes.
Isso o apavorou.
Então ele repetiu mentalmente:
olhos, boca, cabelo, riso.
Como quem recita para não perder.
Ele entendeu que a guerra
não mata apenas com armas.
Mata com esquecimento.
E ele jurou, sem dizer,
que não deixaria a memória dela morrer dentro dele.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (04/10)

Posted in Sem categoria on 3 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

A ausência não gritava.
Ela se acumulava.
Em cadeiras vazias,
em pratos a menos,
em cartas que não chegavam.
O amor deixou de ser companhia
e virou disciplina:
continuar sentindo
quando tudo ensinava a endurecer.

Capítulo IV — A Guerra e a Ausência

Najillah, a Musa — A Vida Entre Filas e Silêncios

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A cidade mudou de ritmo.
As manhãs começaram com ruídos de rádio.
Não eram músicas; eram boletins.
O pão ficou menor.
A fila ficou maior.
O tempo virou espera.
Ela aprendeu a medir a vida por faltas.
Faltava açúcar.
Faltava tecido.
Faltava luz.
Faltava notícia.
O trabalho ficou mais pesado.
O cansaço ficou mais permanente.
Ela passou a guardar sobras.
A reaproveitar tudo.
A costurar remendos com delicadeza.
O vestido virou utilidade.
A cor virou acaso.
Os sapatos perderam a elegância.
E isso doeu mais do que ela esperava.
Não pela vaidade.
Pelo símbolo.
A guerra tirava pequenos sinais de normalidade.
A casa ficou mais fria.
Mesmo no verão.
As pessoas falavam baixo.
Como se o medo escutasse.
Ela viu cartazes novos nos muros.
Propaganda.
Avisos.
Chamados.
Proibições.
A noite tinha apagões.
Cortinas grossas.
Janelas vedadas.
A rua, silenciosa demais.
Ela aprendeu a dormir com sobressaltos.
Aprendeu a acordar sem motivo.
Aprendeu o som da sirene.
E a diferença entre longe e perto.
As cartas viraram alimento emocional.
Quando chegavam.
Muitas não chegavam.
Ela escrevia mesmo assim.
Escrevia para manter o vínculo vivo.
Descrevia coisas pequenas.
O jardim que não floresceu.
O cheiro do café fraco.
A vizinha que chorou.
O bonde atrasado.
A criança que pediu doce.
Ela escondia o terror.
Por pudor.
Por amor.
Por medo de destruir o que os sustentava.
As mãos dela aprenderam a tremor discreto.
O rosto aprendeu a sorriso econômico.
Ela foi ficando adulta depressa.
Mas sem ganhar segurança.
Ganhou apenas resistência.
O amor deixou de ser companhia.
Virou prova.
Virou disciplina.
Virou oração sem linguagem religiosa:
um hábito de persistir.
Ela guardava uma foto dele.
Num envelope.
Como se papel pudesse proteger.
Ela tocava o retrato quando faltava ar.
E isso a fazia continuar.
Porque a guerra não era só bombas.
Era a erosão diária da esperança.
Ela começou a entender:
a ausência também mata.
Mas mais lentamente.
E deixa o corpo inteiro vivo para sentir.


Yahzzir, o Menestrel— O Homem Reduzido a Sobrevivência

O uniforme não era fantasia.
Era uma segunda pele imposta.
Ele aprendeu regras novas.
Aprendeu horários rígidos.
Aprendeu a obedecer por instinto.
Aprendeu a engolir perguntas.
A guerra exigia rapidez.
E punia hesitação.
Ele sentiu o primeiro choque real
quando viu um corpo no chão
e percebeu que não podia parar.
A vida virou deslocamento.
Estradas.
Barracas.
Trens militares.
Cheiros de óleo e fumaça.
O tempo não era mais calendário.
Era intervalo entre riscos.
Ele viu homens corajosos quebrarem.
Viu homens agressivos chorarem.
Viu silêncio virar idioma comum.
A fome existia.
Mas o medo era maior.
Ele aprendeu a dormir em minutos.
Aprendeu a acordar pronto.
Aprendeu a ouvir tudo.
Passos.
Vento.
Estalos.
O amor, no começo, era calor no peito.
Depois virou lembrança.
Depois virou dor.
Não por falta de sentimento,
mas por excesso de realidade.
Ele escreveu cartas rápidas.
Poucas palavras.
Sem poesia.
Sem descrição demais.
Porque descrever podia matar alguém por dentro.
Ele dizia que estava bem.
Mesmo quando não estava.
Ele dizia que voltaria.
Mesmo sem saber.
Ele carregava uma coisa dela:
um lenço, um perfume, uma fotografia.
Isso o mantinha humano.
Mas também o enfraquecia.
A guerra não queria humanidade.
Queria função.
Ele viu cidades partidas.
Pontes quebradas.
Hospitais lotados.
Ele viu o mundo se dissolver em ruína.
E sentiu raiva.
Mas a raiva também cansava.
Ele começou a viver em camadas:
a camada de fora, obediente;
a camada de dentro, intacta por teimosia.
À noite, quando havia silêncio,
o peso vinha inteiro.
Os rostos que não saíam da mente.
Os sons que insistiam.
O cheiro metálico do medo.
Ele se perguntava se ainda era ele.
E respondia com o nome dela.
Como quem segura uma corda na escuridão.
Ele notou que estava ficando mais velho.
Não por idade,
mas por desgaste moral.
Na guerra, não existe apenas ferida física.
Existe uma alteração no olhar.
Ele percebeu:
não era mais possível voltar igual.
E isso o aterrorizou.
Porque voltar diferente era, também,
voltar com risco de não ser reconhecido.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (03/10)

Posted in Sem categoria on 2 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

A guerra não chegou como explosão.
Chegou como mudança de tom.
Como se o mundo falasse mais baixo antes de gritar.
As despedidas começaram a acontecer sem abraços.
O amor passou a existir sob vigilância do tempo.
E, naquele instante, amar tornou-se ato perigoso:
não por ser proibido,
mas por não haver garantia de amanhã.

Capítulo III — O Início da Guerra

Najillah, a Musa — O Primeiro Rompimento

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A notícia chegou antes do impacto.
Mudou o ar.
Mudou os gestos.
Ela sentiu algo deslocar.
Não sabia nomear.
O medo ainda era abstrato.
Mas o silêncio cresceu.
As conversas ficaram curtas.
O futuro encolheu.
Ela percebeu a instabilidade.
Não como ameaça direta.
Mas como sombra.
O amor tornou-se urgente.
Não intenso — frágil.
Ela começou a observar despedidas.
Mesmo sem separação concreta.
Dormia mal.
Pensava demais.
A normalidade começou a falhar.
Ela ainda acreditava.
Mas já desconfiava.


Yahzzir, o Menestrel — A Consciência do Fim

Ele entendeu antes.
Não por coragem.
Por lucidez.
A guerra não lhe parecia abstrata.
Parecia inevitável.
Ele sentiu o peso da escolha.
Não havia opção real.
A vida anterior começou a se fechar.
Ele passou a observar tudo como última vez.
O amor ganhou densidade.
Não romantismo.
Peso.
Ele não prometeu retorno.
Prometeu honestidade.
Sabia que partir não era escolha.
Era imposição histórica.
Ele carregou isso em silêncio.
O mundo que conhecia estava terminando.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (02/10)

Posted in Sem categoria on 1 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Capítulo II — Antes da Guerra

Najillah, a Musa — O Amor Como Descoberta

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O encontro não foi grandioso.
Foi cotidiano.
Um gesto comum.
Um olhar sustentado por segundos a mais.
Ela não sentiu medo.
Sentiu curiosidade.
Ele não prometeu nada.
Isso a tranquilizou.
Os dias passaram a ter expectativa.
O tempo ganhou textura.
Ela passou a observar detalhes.
A forma como ele escutava.
A maneira como segurava objetos.
A atenção silenciosa.
O amor cresceu sem anúncio.
Sem pressa.
Sem discursos.
Ela se sentia segura.
Não protegida — respeitada.
A rotina ganhou cor.
O mundo parecia estável outra vez.
Ela passou a planejar.
Não muito.
Mas passou.
Pensava em continuidade.
Em permanência.
Não em urgência.
O amor era abrigo.
Não refúgio.
Ela não sabia que isso mudaria.


Yahzzir, o Menestrel— O Amor Como Âncora

Ele percebeu antes do que admitiu.
Não resistiu.
Não romantizou.
Apenas permaneceu.
O amor lhe trouxe equilíbrio.
Uma sensação de eixo.
Ele passou a pensar em dois.
A reorganizar escolhas.
Não sentia medo do compromisso.
Sentia responsabilidade.
Via nela algo que não queria perder.
Mas não pensava em perda.
Pensava em cuidado.
O mundo parecia menos áspero.
A rotina, mais habitável.
Ele acreditava que a vida seguia.
Que os dias se acumulavam.
Que o futuro era administrável.
Não percebia as fissuras.
Não ouvia os alertas.
O amor o ancorava.
E o tornava, sem saber, vulnerável.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)