Arquivo para março, 2026

Quando as Máscaras Caem

Posted in Sem categoria on 3 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.

Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.

Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.

O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.

Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.

Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.

E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.

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I – República das Máscaras

“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na praça erguem bustos de virtude,
polidos rostos sem fissura ou dor;
mas sob o bronze vive o rumor
de pactos feitos em quietude.

Chamam “ordem” à velha servitude,
“bem comum” ao lucro maior;
e o cidadão, pequeno ator,
aplaude a própria inquietude.

Máscaras reinam na claridade,
cada qual vende a sua versão
como se fosse eternidade.

Eu rasgo o pano da encenação:
prefiro a frágil sinceridade
à glória oca da aprovação.

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II – Elegia ao Muro Invisível

“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Entre ruas sem nome e sem retrato,
ergue-se um muro de opinião;
não é de pedra, mas de negação,
de olhares que recusam contato.

Chamam “medo” ao preconceito exato,
“prudência” à segregação;
mas cada rosto pede chão
e cada passo exige trato.

O muro cai quando alguém escuta,
quando o nome encontra o seu lugar,
quando a história não é disputada.

Se o mundo insiste na conduta
de excluir para governar,
eu ergo o verso como enxada.

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III – Sermão Contra o Ouro Polido

“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

No templo erguido ao lucro e à taxa,
pregam fé no mercado invisível;
a fome é dado estatístico plausível,
e a dívida vira marcha.

Chamam “civilização” à farsa,
“progresso” ao grilhão previsível;
mas o povo, em murmúrio audível,
prepara a ruptura que não disfarça.

Não é sagrado o ouro polido,
nem eterno o trono que o sustém;
a história cobra o que foi omitido.

E quando o grito disser “amém”
não será hino do oprimido,
mas juízo contra o desdém.

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IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral

“A revolta dá dignidade.” (Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

Prometem céu em urna lacrada,
distribuem esperança impressa;
mas a palavra muda depressa
quando a cadeira é conquistada.

Chamam “povo” à massa cansada,
“mudança” à mesma promessa;
a revolta, se se expressa,
é tida por desvairada.

Mas há dignidade na recusa,
no “não” que rompe o protocolo,
na crítica que não se desculpa.

Se o voto vira dolo,
a consciência recusa
ser cúmplice do rolo.

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V – Litania para um Nome Esquecido

“Se você não contar sua história, outro contará por você.(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

No bairro antigo, sob luz incerta,
um nome cai no chão da memória;
ninguém registra a breve história,
ninguém reabre a porta aberta.

Chamam “caso” à vida deserta,
“trágico” ao fato sem glória;
mas a palavra, feita vitória,
ressurge quando alguém desperta.

Escrevo o nome em pedra clara,
não para culto ou altar,
mas para que a cidade o encare.

Se o mundo insiste em apagar,
o poema insiste e repara:
lembrar é resistir ao calar.

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VI – Confissão do Homem Ajustado

“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Disse que não era comigo,
que o mundo gira e eu apenas sigo;
mas no espelho, rosto antigo,
vi meu silêncio como abrigo.

Chamei prudência ao medo amigo,
chamei “real” ao gesto ambíguo;
mas a consciência — aço antigo —
cortou-me o pacto vago e frio.

Ajustar-se é fácil conforto,
mas custa a espinha do querer;
cala-se a alma no porto.

Hoje escolho responder:
prefiro o risco torto
à paz de não me mover.

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VII – Crônica do Mundo que Se Vende

“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

Vendem a chuva em garrafa fina,
o ar em lata, o sonho em série;
a infância vira estatística etérea,
e a guerra rende oficina.

Chamam “negócio” à fome menina,
“dado” ao pranto que fere;
mas a memória, quando interfere,
desmonta a farsa que domina.

Quem compra o mundo perde o chão,
quem vende a alma perde o nome;
há preço alto na transação.

E quando o lucro consome,
descobre-se tarde a lição:
nem tudo se compra ou se some.

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VIII – A Casa que o Corpo Habita

“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

No quarto estreito da própria pele,
escuto vozes que me definem;
mas minhas veias se autodeterminam
contra o rótulo que me repele.

Chamam “desvio” ao que não convém,
“normal” ao molde repetido;
mas meu corpo, lúcido e erguido,
recusa o padrão que o contém.

Habito a casa que me invento,
não a que me deram pronta;
sou gesto, falha e movimento.

Se a norma me afronta,
respondo com pensamento:
ser é luta que não desmonta.

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IX – Salmo para um Século Cansado

“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Século exausto de brilho falso,
de guerras breves e longas telas;
a verdade, entre janelas,
perde o lugar no palco.

Chamam “avanço” ao passo em falso,
“rede” às novas correntes paralelas;
mas há ainda vozes singelas
que recusam o gesto encalço.

O poeta não é santo ou herói,
é aquele que nomeia a dor
quando o discurso a corrói.

Se o tempo exige temor,
ele escreve e constrói
uma ética em fervor.

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X –  A Palavra Contra o Mundo

“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Quando o ruído cobre a cidade,
resta a palavra como lâmina;
não para ferir, mas para a trama
de outra possível claridade.

Chamam “utopia” à liberdade,
“ingênuo” ao gesto que reclama;
mas cada verso que se inflama
abre fissura na opacidade.

Não é espada, é semente;
não é grito, é consciência;
não é fuga, é presente.

Se o mundo insiste na aparência,
a poesia, persistente,
ergue o ser contra a indiferença.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

O Confinamento da Linguagem

Posted in Sem categoria on 2 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há violências que não exigem gritos.
Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.

Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.

O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.

Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.

Esses sonetos recusam essa tradução confortável.

Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.

O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.

Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.

Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.

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I – A Banalidade do Aplauso

“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na sala cheia, palmas disciplinam
o gesto exato do homem correto;
ninguém pergunta ao rito obsoleto
por que as engrenagens assassinam.

Chamam “ordem” ao medo que ensinam,
“dever” ao silêncio mais discreto;
e o erro, de terno e voto secreto,
sorri enquanto as vozes declinam.

O mal não ruge — cumpre expediente,
bate o ponto, carimba o destino,
aplaude a própria culpa obediente.

E eu escrevo, contra o hino
que absolve o gesto indiferente:
pensar é o único desatino.

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II – Fronteira de Pó e Oliva

“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Na linha seca entre pedra e vento,
um nome resiste ao mapa rasgado;
o soldado guarda o campo cercado,
mas a raiz insiste no cimento.

Chamam “segurança” ao confinamento,
“paz” ao muro armado;
e o trigo, sob o céu sitiado,
aprende a crescer em silêncio lento.

A pátria é mais que cerca e bandeira,
é voz que atravessa a fronteira
como água sob a areia.

Se o mundo fecha a cancela,
o poema abre a clareira:
ninguém exila uma ideia.

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III – Inventário da Cor Silenciada

“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Catalogaram a pele em gavetas,
mediram o tom com régua moral;
chamaram “exótico” o que é vital,
e “raça” ao medo de suas metas.

Ergueram tronos sobre algemas discretas,
e à história deram verniz colonial;
mas a memória, vulcão ancestral,
arde sob as páginas quietas.

Não sou cifra em arquivo alheio,
nem figurante no drama do império;
sou a voz que recusa o freio.

Se o mundo insiste no critério,
eu escrevo — negro e inteiro —
contra o silêncio do cemitério.

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IV – O Estrangeiro em Plena Praça

“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

No centro exato da cidade clara,
sinto-me alheio ao próprio chão;
a praça vibra em exaltação,
mas o sentido me escapa e dispara.

Chamam “verdade” à voz que declara
certezas prontas na multidão;
eu busco o sol na contradição
que o absurdo íntimo me prepara.

Se nada salva, salvo o gesto lúcido;
se tudo é ruído, escolho o silêncio;
se a lei é máscara, fico intrépido.

Viver é resistir ao consenso:
na praça plena, permaneço único,
estrangeiro ao falso incenso.

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V – Manual para Esquecer um Corpo

“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

Enterram o corpo com notícia breve,
três linhas frias e foto menor;
a cidade segue seu rumor,
o lucro cresce, a dor não se escreve.

Chamam “fatalidade” ao que não deve,
“estatística” ao sangue em flor;
mas a memória — semente e ardor —
rompe o asfalto onde a verdade ferve.

Não esquecerei o nome calado,
nem a rua que viu o disparo;
não deixarei o rosto apagado.

Se o mundo prefere o avaro,
eu guardo o gesto lembrado:
memória é justiça em preparo.

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VI – A Liberdade em Regime de Vitrine

“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Vendemos a liberdade em parcelas,
com juros brandos e selo oficial;
o medo vira hábito social,
e a escolha se faz entre janelas.

Chamam “opção” às mesmas querelas,
“autonomia” ao script digital;
mas o ser, inquieto e visceral,
recusa o molde das sentinelas.

Livre é quem assume o peso do ato,
não quem repete o gesto esperado
sob o aplauso do contrato.

E se o mundo exige lado,
eu escolho o risco exato:
ser livre é ser responsabilizado.

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VII – Crônica do Mundo ao Avesso

“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

No mercado, vendem sonhos usados,
com desconto para quem não sonha;
a guerra vira tela risonha,
e os mortos, dados já somados.

Chamam “crise” aos salários cortados,
“ordem” à rua medonha;
a verdade, tímida e tristonha,
vive nos cantos ignorados.

Mas há histórias sob a poeira,
há vozes pequenas que sustentam
o peso da noite inteira.

E quando elas se levantam,
o império treme na cadeira:
a narrativa é arma que enfrentam.

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VIII – A Casa Dentro da Tempestade

“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

Na casa estreita da própria mente,
a chuva bate com voz severa;
mas a janela, ainda que impera
a noite, guarda luz persistente.

Chamam “fraqueza” ao peito ardente,
“histeria” à dor sincera;
mas o pensamento não se encerra
na etiqueta conveniente.

Resisto à norma que me nomeia,
recuso o rótulo fácil e estreito;
minha verdade não se enleia.

Se a tempestade insiste no peito,
eu escrevo — e a palavra semeia
uma casa mais firme que o preconceito.

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IX – Voz Clandestina

“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Aprendem cedo a dobrar a espinha,
a concordar com o poder sentado;
chamam “prudência” ao medo calado,
e “virtude” à consciência mesquinha.

A verdade vira voz clandestina,
o grito é vício mal tolerado;
mas há no íntimo um fado
que não aceita disciplina.

Ser conveniente é fácil caminho,
mas cobra a alma como tributo;
paga-se caro pelo vizinho.

Eu escolho o verso absoluto:
prefiro o risco sozinho
à paz comprada por luto.

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X – A Cidade Transparente

“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)

A cidade ergue torres de vidro,
promete céu em condomínio fechado;
mas o chão, cansado e pisado,
sussurra verdades sob o ruído.

Chamam “progresso” ao brilho polido,
“futuro” ao passado reciclado;
e o homem, em aço moldado,
perde o rosto no próprio espelho líquido.

Quero leveza contra o peso bruto,
quero ar nas ruas comprimidas,
quero espaço no concreto astuto.

Se a torre vigia nossas vidas,
eu ergo o verso, agudo e enxuto:
transparência é romper as medidas.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

A Banalização do Ser como Espetáculo

Posted in Sem categoria on 1 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há uma etiqueta ensinada cedo demais: sorrir enquanto se ignora, concordar enquanto se teme, prosperar sem perguntar quem ficou para trás. Estes sonetos surgem contra essa etiqueta. Não como sermão, mas como fricção. O que está em jogo aqui não é apenas a desigualdade evidente — é a coreografia elegante que a torna aceitável.

Em cada poema, a cena é conhecida: a miséria tratada como inconveniência estética; a cidadania reduzida a protocolo; a política convertida em espetáculo; o amor submetido à vitrine moral; a vida humana transformada em gráfico. O escândalo não é a violência explícita — é a sua administração polida. A pobreza aprende a ser discreta; o privilégio aprende a parecer natural.

Se Brecht desconfiava da moral que chega antes do pão, é porque o discurso frequentemente serve para disciplinar os que têm fome. Se Orwell alertava para a manipulação das palavras, é porque a troca de termos altera a percepção da realidade. Se Arendt analisou a banalização do mal, é porque a omissão organizada pode ser tão destrutiva quanto a brutalidade declarada. E se Bauman descreveu a fragilidade das relações contemporâneas, foi para mostrar como o descarte tornou-se método — inclusive nas relações humanas.

Aqui, a crítica não aponta apenas para instituições; ela atravessa o indivíduo comum — o cidadão exemplar que atravessa a rua para não ver, o espectador que aplaude o escândalo do dia enquanto esquece o de ontem, o consumidor que confunde liberdade com escolha de prateleira. O problema não é apenas estrutural: é cultural. É a normalização da indiferença.

Estes textos recusam a decoração do sofrimento. Não romantizam o excluído nem demonizam em caricatura o poderoso. Preferem expor o mecanismo: a linguagem que suaviza a exclusão, o espetáculo que substitui o debate, a moral que vigia o íntimo enquanto absolve o abuso público.

Se existe alguma aposta nestes poemas, ela não está na indignação efêmera, mas na permanência da pergunta. Perguntar quem lucra, quem cala, quem decide, quem desaparece. Perguntar é romper o roteiro previamente ensaiado.

Escrever, aqui, é não colaborar com o silêncio conveniente.

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I – Manual de Boas Maneiras para a Miséria

“Primeiro vem o pão, depois a moral.” (Inspirado em Bertolt Brecht – Alemanha)

Vendam-me um sonho em prestações suaves,
com brinde e selo “promoção do bem”;
a fome assina embaixo, e não convém
que a rua manche os ternos mais graves.

Nos salões, as virtudes são escravas:
sorri-se em prata, a lágrima é refém;
quem pede um prato ouve: “culpa de alguém”,
e o lucro segue, santo, pelas naves.

Chamam “ordem” ao cerco do pobre;
chamam “mérito” ao berço de veludo;
e a lei, de toga, ao fraco sempre cobra.

Eu rio — riso amargo, quase mudo:
a etiqueta perdoa o que encobre,
mas não perdoa o pão fora de estudo.

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II – Elegia ao País das Aparências

“A máscara é a verdade mais usada.” (Inspirado em Federico García Lorca – Espanha)

Na vitrine, a cidade se perfuma,
finge harmonia, vende luz e paz;
mas sob o asfalto a febre se refaz
e a noite engole a última pluma.

O povo aprende a respirar espuma:
aplaude o golpe, chama-o de “capaz”;
o medo vira moda, e satisfaz
quem troca a alma por qualquer suma.

E eu, poeta, no beco, desconfio:
o belo aqui é só verniz exato;
a fome tem o mesmo tom do frio.

Quem mede o mundo pelo próprio prato
não vê que a praça é palco e desafio:
sorri-se em público, chora-se no ato.

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III – Caderno de Instruções para Ser Invisível

“Falar é existir.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Aprendi o silêncio como ofício:
ser pouco, ser ninguém, ser só perfil;
ser sombra útil, número civil,
sem voz que desagrade ao edifício.

Chamam “progresso” ao velho precipício;
chamam “paz” ao porrete juvenil;
e a tela — tribunal volátil —
absolve o forte e vende sacrifício.

Mas há na língua um fogo subterrâneo,
um “não” que nasce quando a dor ferve;
um nome antigo que rasga o calendário.

Eu ergo a voz — e o muro não me serve:
prefiro o risco ao selo cotidiano;
ser invisível é morrer em breve.

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IV – Balada Cínica do Bom Cidadão

“O melhor carece de convicção.” (Inspirado em W. B. Yeats – Irlanda)

Sou “bom cidadão”: pago a minha pressa,
finjo não ver o corpo no chão;
assino a culpa na própria mão
e digo: “é triste”, enquanto atravessa.

Na fila, a alma aprende a ser promessa,
a esperar o milagre do balcão;
o pobre pede pão, recebe “não”,
e o rico chama isso de “progresso” à mesa.

Que cinismo gentil o da cidade:
ela condena o grito, ama o ruído;
chama “barbárie” a lucidez.

E eu, cúmplice, sei do meu sentido:
a neutralidade é vaidade —
uma virtude feita de vazio.

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V – Contrato Social de Vidro Fino

“Não se nasce livre: torna-se.” (Inspirado em Simone de Beauvoir – França)

Assinei com o mundo um papel brilhante:
“serás exemplo, dócil, regular”;
se te ferires, aprende a disfarçar,
sorrir na queda, agradecer ao instante.

Chamam “amor” ao controle elegante;
chamam “família” ao medo de mudar;
e o corpo, que queria respirar,
vira vitrine de um juiz constante.

Eu rasgo o molde: não por heroísmo,
mas por fadiga de ser figurino;
prefiro a verdade ao aplauso manso.

E se me chamam “fria”, “sem destino”,
respondo: é só higiene do cinismo —
liberdade exige um passo e um cansaço.

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VI – República do Aplauso e do Esquecimento

“Ser culto é o único modo de ser livre.” (Inspirado em José Martí – Cuba)

Na praça, vendem pátria em embalagem,
com hino curto e desconto no final;
o povo vira coro eleitoral
e a fome assina a própria sabotagem.

A cada crise, um show, uma passagem;
a cada escândalo, um moral viral;
o tirano sorri, sentimental,
e a lei cochila, amiga da vantagem.

Mas há um livro aberto no subsolo,
há uma escola teimosa em cada esquina,
há uma criança que pergunta: “por quê?”

Se a pergunta resiste ao caramelo,
o império treme — e a máscara termina:
um povo acorda quando aprende a ler.

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VII – A Parábola do Homem que Virou Estatística

“Até o leão precisa do contador de histórias.” (Inspirado em Chinua Achebe – Nigéria)

Morreu um homem — e foi só planilha:
célula fria num gráfico sem cor;
o noticiário deu-lhe um “favor”,
um número curto, e seguiu a trilha.

A rua cheira a metal e armadilha,
a fábrica mastiga o trabalhador;
e a fé do mercado, sem pudor,
diz: “é o preço”, e ergue outra rodilha.

Quem conta a história devolve o rosto,
repara o nome, resgata o passado;
sem narrativa, a vida é só imposto.

Eu escrevo: contra o cálculo dourado,
contra o esquecimento bem composto —
pois cada morto exige ser lembrado.

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VIII – Ministério da Verdade Cotidiana

“Quem controla o passado controla o futuro.” (Inspirado em George Orwell – Reino Unido)

A tela me vigia com ternura,
sugere o medo em forma de canção;
eu clico, concordo, dou permissão
à jaula doce da vida segura.

Mudam palavras, muda-se a postura:
“guerra é paz”, “miséria é ascensão”;
e a dúvida — pecado — vira razão
para cortar a língua da criatura.

Mas há um gesto antigo: desconfiar;
há um lápis que resiste ao algoritmo;
há uma janela aberta no pensar.

Eu rio do slogan, do culto mínimo:
quem chama “livre” o próprio colecionar
já vendeu a alma ao seu próprio ritmo.

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IX – O Amor em Tempos de Vitrine Moral

“O erotismo é a outra face da liberdade.” (Inspirado em Octavio Paz – México)

Amar aqui é cumprir protocolo:
postar sorriso, etiquetar afeto;
o beijo vira anúncio, e o coração discreto
tem medo de parecer “fora do bolo”.

A cidade cobra pureza em alto dolo,
mas negocia o desejo em modo secreto;
ela condena o corpo no panfleto,
e o vende à noite, em silêncio e rolo.

Eu te amo sem vitrine nem aplauso,
com o risco de ser mal interpretado;
amor não é uniforme, é incêndio manso.

E se a moral nos julga pelo mercado,
respondo: o gesto íntimo é o meu espaço —
onde o mundo não entra algemado.

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X – Pequeno Elogio da Contradição

“Somos a soma de acasos organizados.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)

A vida prega peças com elegância:
num dia, lei; no outro, improviso;
o certo muda o nome no aviso,
e o erro usa gravata de importância.

O rico chama “sorte” à herança;
o pobre chama “crime” ao próprio piso;
e o meio termo, em seu sorriso,
vende prudência e compra ignorância.

Eu celebro o humano — esse intervalo
entre o que somos e o que prometemos;
a contradição é nosso espelho.

Se o mundo exige um rosto sem abalos,
prefiro o risco: ao menos assumimos
que até a verdade tem seu joelho.

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(Betto Gasparetto – vii-mmxviii)