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A Banalização do Ser como Espetáculo

Posted in Sem categoria on 1 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Há uma etiqueta ensinada cedo demais: sorrir enquanto se ignora, concordar enquanto se teme, prosperar sem perguntar quem ficou para trás. Estes sonetos surgem contra essa etiqueta. Não como sermão, mas como fricção. O que está em jogo aqui não é apenas a desigualdade evidente — é a coreografia elegante que a torna aceitável.

Em cada poema, a cena é conhecida: a miséria tratada como inconveniência estética; a cidadania reduzida a protocolo; a política convertida em espetáculo; o amor submetido à vitrine moral; a vida humana transformada em gráfico. O escândalo não é a violência explícita — é a sua administração polida. A pobreza aprende a ser discreta; o privilégio aprende a parecer natural.

Se Brecht desconfiava da moral que chega antes do pão, é porque o discurso frequentemente serve para disciplinar os que têm fome. Se Orwell alertava para a manipulação das palavras, é porque a troca de termos altera a percepção da realidade. Se Arendt analisou a banalização do mal, é porque a omissão organizada pode ser tão destrutiva quanto a brutalidade declarada. E se Bauman descreveu a fragilidade das relações contemporâneas, foi para mostrar como o descarte tornou-se método — inclusive nas relações humanas.

Aqui, a crítica não aponta apenas para instituições; ela atravessa o indivíduo comum — o cidadão exemplar que atravessa a rua para não ver, o espectador que aplaude o escândalo do dia enquanto esquece o de ontem, o consumidor que confunde liberdade com escolha de prateleira. O problema não é apenas estrutural: é cultural. É a normalização da indiferença.

Estes textos recusam a decoração do sofrimento. Não romantizam o excluído nem demonizam em caricatura o poderoso. Preferem expor o mecanismo: a linguagem que suaviza a exclusão, o espetáculo que substitui o debate, a moral que vigia o íntimo enquanto absolve o abuso público.

Se existe alguma aposta nestes poemas, ela não está na indignação efêmera, mas na permanência da pergunta. Perguntar quem lucra, quem cala, quem decide, quem desaparece. Perguntar é romper o roteiro previamente ensaiado.

Escrever, aqui, é não colaborar com o silêncio conveniente.

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I – Manual de Boas Maneiras para a Miséria

“Primeiro vem o pão, depois a moral.” (Inspirado em Bertolt Brecht – Alemanha)

Vendam-me um sonho em prestações suaves,
com brinde e selo “promoção do bem”;
a fome assina embaixo, e não convém
que a rua manche os ternos mais graves.

Nos salões, as virtudes são escravas:
sorri-se em prata, a lágrima é refém;
quem pede um prato ouve: “culpa de alguém”,
e o lucro segue, santo, pelas naves.

Chamam “ordem” ao cerco do pobre;
chamam “mérito” ao berço de veludo;
e a lei, de toga, ao fraco sempre cobra.

Eu rio — riso amargo, quase mudo:
a etiqueta perdoa o que encobre,
mas não perdoa o pão fora de estudo.

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II – Elegia ao País das Aparências

“A máscara é a verdade mais usada.” (Inspirado em Federico García Lorca – Espanha)

Na vitrine, a cidade se perfuma,
finge harmonia, vende luz e paz;
mas sob o asfalto a febre se refaz
e a noite engole a última pluma.

O povo aprende a respirar espuma:
aplaude o golpe, chama-o de “capaz”;
o medo vira moda, e satisfaz
quem troca a alma por qualquer suma.

E eu, poeta, no beco, desconfio:
o belo aqui é só verniz exato;
a fome tem o mesmo tom do frio.

Quem mede o mundo pelo próprio prato
não vê que a praça é palco e desafio:
sorri-se em público, chora-se no ato.

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III – Caderno de Instruções para Ser Invisível

“Falar é existir.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Aprendi o silêncio como ofício:
ser pouco, ser ninguém, ser só perfil;
ser sombra útil, número civil,
sem voz que desagrade ao edifício.

Chamam “progresso” ao velho precipício;
chamam “paz” ao porrete juvenil;
e a tela — tribunal volátil —
absolve o forte e vende sacrifício.

Mas há na língua um fogo subterrâneo,
um “não” que nasce quando a dor ferve;
um nome antigo que rasga o calendário.

Eu ergo a voz — e o muro não me serve:
prefiro o risco ao selo cotidiano;
ser invisível é morrer em breve.

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IV – Balada Cínica do Bom Cidadão

“O melhor carece de convicção.” (Inspirado em W. B. Yeats – Irlanda)

Sou “bom cidadão”: pago a minha pressa,
finjo não ver o corpo no chão;
assino a culpa na própria mão
e digo: “é triste”, enquanto atravessa.

Na fila, a alma aprende a ser promessa,
a esperar o milagre do balcão;
o pobre pede pão, recebe “não”,
e o rico chama isso de “progresso” à mesa.

Que cinismo gentil o da cidade:
ela condena o grito, ama o ruído;
chama “barbárie” a lucidez.

E eu, cúmplice, sei do meu sentido:
a neutralidade é vaidade —
uma virtude feita de vazio.

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V – Contrato Social de Vidro Fino

“Não se nasce livre: torna-se.” (Inspirado em Simone de Beauvoir – França)

Assinei com o mundo um papel brilhante:
“serás exemplo, dócil, regular”;
se te ferires, aprende a disfarçar,
sorrir na queda, agradecer ao instante.

Chamam “amor” ao controle elegante;
chamam “família” ao medo de mudar;
e o corpo, que queria respirar,
vira vitrine de um juiz constante.

Eu rasgo o molde: não por heroísmo,
mas por fadiga de ser figurino;
prefiro a verdade ao aplauso manso.

E se me chamam “fria”, “sem destino”,
respondo: é só higiene do cinismo —
liberdade exige um passo e um cansaço.

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VI – República do Aplauso e do Esquecimento

“Ser culto é o único modo de ser livre.” (Inspirado em José Martí – Cuba)

Na praça, vendem pátria em embalagem,
com hino curto e desconto no final;
o povo vira coro eleitoral
e a fome assina a própria sabotagem.

A cada crise, um show, uma passagem;
a cada escândalo, um moral viral;
o tirano sorri, sentimental,
e a lei cochila, amiga da vantagem.

Mas há um livro aberto no subsolo,
há uma escola teimosa em cada esquina,
há uma criança que pergunta: “por quê?”

Se a pergunta resiste ao caramelo,
o império treme — e a máscara termina:
um povo acorda quando aprende a ler.

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VII – A Parábola do Homem que Virou Estatística

“Até o leão precisa do contador de histórias.” (Inspirado em Chinua Achebe – Nigéria)

Morreu um homem — e foi só planilha:
célula fria num gráfico sem cor;
o noticiário deu-lhe um “favor”,
um número curto, e seguiu a trilha.

A rua cheira a metal e armadilha,
a fábrica mastiga o trabalhador;
e a fé do mercado, sem pudor,
diz: “é o preço”, e ergue outra rodilha.

Quem conta a história devolve o rosto,
repara o nome, resgata o passado;
sem narrativa, a vida é só imposto.

Eu escrevo: contra o cálculo dourado,
contra o esquecimento bem composto —
pois cada morto exige ser lembrado.

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VIII – Ministério da Verdade Cotidiana

“Quem controla o passado controla o futuro.” (Inspirado em George Orwell – Reino Unido)

A tela me vigia com ternura,
sugere o medo em forma de canção;
eu clico, concordo, dou permissão
à jaula doce da vida segura.

Mudam palavras, muda-se a postura:
“guerra é paz”, “miséria é ascensão”;
e a dúvida — pecado — vira razão
para cortar a língua da criatura.

Mas há um gesto antigo: desconfiar;
há um lápis que resiste ao algoritmo;
há uma janela aberta no pensar.

Eu rio do slogan, do culto mínimo:
quem chama “livre” o próprio colecionar
já vendeu a alma ao seu próprio ritmo.

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IX – O Amor em Tempos de Vitrine Moral

“O erotismo é a outra face da liberdade.” (Inspirado em Octavio Paz – México)

Amar aqui é cumprir protocolo:
postar sorriso, etiquetar afeto;
o beijo vira anúncio, e o coração discreto
tem medo de parecer “fora do bolo”.

A cidade cobra pureza em alto dolo,
mas negocia o desejo em modo secreto;
ela condena o corpo no panfleto,
e o vende à noite, em silêncio e rolo.

Eu te amo sem vitrine nem aplauso,
com o risco de ser mal interpretado;
amor não é uniforme, é incêndio manso.

E se a moral nos julga pelo mercado,
respondo: o gesto íntimo é o meu espaço —
onde o mundo não entra algemado.

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X – Pequeno Elogio da Contradição

“Somos a soma de acasos organizados.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)

A vida prega peças com elegância:
num dia, lei; no outro, improviso;
o certo muda o nome no aviso,
e o erro usa gravata de importância.

O rico chama “sorte” à herança;
o pobre chama “crime” ao próprio piso;
e o meio termo, em seu sorriso,
vende prudência e compra ignorância.

Eu celebro o humano — esse intervalo
entre o que somos e o que prometemos;
a contradição é nosso espelho.

Se o mundo exige um rosto sem abalos,
prefiro o risco: ao menos assumimos
que até a verdade tem seu joelho.

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(Betto Gasparetto – vii-mmxviii)