(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Há violências que não exigem gritos.
Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.
Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.
O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.
Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.
Esses sonetos recusam essa tradução confortável.
Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.
O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.
Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.
Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.
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I – A Banalidade do Aplauso
“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)
Na sala cheia, palmas disciplinam
o gesto exato do homem correto;
ninguém pergunta ao rito obsoleto
por que as engrenagens assassinam.
Chamam “ordem” ao medo que ensinam,
“dever” ao silêncio mais discreto;
e o erro, de terno e voto secreto,
sorri enquanto as vozes declinam.
O mal não ruge — cumpre expediente,
bate o ponto, carimba o destino,
aplaude a própria culpa obediente.
E eu escrevo, contra o hino
que absolve o gesto indiferente:
pensar é o único desatino.
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II – Fronteira de Pó e Oliva
“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)
Na linha seca entre pedra e vento,
um nome resiste ao mapa rasgado;
o soldado guarda o campo cercado,
mas a raiz insiste no cimento.
Chamam “segurança” ao confinamento,
“paz” ao muro armado;
e o trigo, sob o céu sitiado,
aprende a crescer em silêncio lento.
A pátria é mais que cerca e bandeira,
é voz que atravessa a fronteira
como água sob a areia.
Se o mundo fecha a cancela,
o poema abre a clareira:
ninguém exila uma ideia.
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III – Inventário da Cor Silenciada
“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)
Catalogaram a pele em gavetas,
mediram o tom com régua moral;
chamaram “exótico” o que é vital,
e “raça” ao medo de suas metas.
Ergueram tronos sobre algemas discretas,
e à história deram verniz colonial;
mas a memória, vulcão ancestral,
arde sob as páginas quietas.
Não sou cifra em arquivo alheio,
nem figurante no drama do império;
sou a voz que recusa o freio.
Se o mundo insiste no critério,
eu escrevo — negro e inteiro —
contra o silêncio do cemitério.
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IV – O Estrangeiro em Plena Praça
“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)
No centro exato da cidade clara,
sinto-me alheio ao próprio chão;
a praça vibra em exaltação,
mas o sentido me escapa e dispara.
Chamam “verdade” à voz que declara
certezas prontas na multidão;
eu busco o sol na contradição
que o absurdo íntimo me prepara.
Se nada salva, salvo o gesto lúcido;
se tudo é ruído, escolho o silêncio;
se a lei é máscara, fico intrépido.
Viver é resistir ao consenso:
na praça plena, permaneço único,
estrangeiro ao falso incenso.
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V – Manual para Esquecer um Corpo
“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)
Enterram o corpo com notícia breve,
três linhas frias e foto menor;
a cidade segue seu rumor,
o lucro cresce, a dor não se escreve.
Chamam “fatalidade” ao que não deve,
“estatística” ao sangue em flor;
mas a memória — semente e ardor —
rompe o asfalto onde a verdade ferve.
Não esquecerei o nome calado,
nem a rua que viu o disparo;
não deixarei o rosto apagado.
Se o mundo prefere o avaro,
eu guardo o gesto lembrado:
memória é justiça em preparo.
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VI – A Liberdade em Regime de Vitrine
“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)
Vendemos a liberdade em parcelas,
com juros brandos e selo oficial;
o medo vira hábito social,
e a escolha se faz entre janelas.
Chamam “opção” às mesmas querelas,
“autonomia” ao script digital;
mas o ser, inquieto e visceral,
recusa o molde das sentinelas.
Livre é quem assume o peso do ato,
não quem repete o gesto esperado
sob o aplauso do contrato.
E se o mundo exige lado,
eu escolho o risco exato:
ser livre é ser responsabilizado.
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VII – Crônica do Mundo ao Avesso
“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)
No mercado, vendem sonhos usados,
com desconto para quem não sonha;
a guerra vira tela risonha,
e os mortos, dados já somados.
Chamam “crise” aos salários cortados,
“ordem” à rua medonha;
a verdade, tímida e tristonha,
vive nos cantos ignorados.
Mas há histórias sob a poeira,
há vozes pequenas que sustentam
o peso da noite inteira.
E quando elas se levantam,
o império treme na cadeira:
a narrativa é arma que enfrentam.
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VIII – A Casa Dentro da Tempestade
“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)
Na casa estreita da própria mente,
a chuva bate com voz severa;
mas a janela, ainda que impera
a noite, guarda luz persistente.
Chamam “fraqueza” ao peito ardente,
“histeria” à dor sincera;
mas o pensamento não se encerra
na etiqueta conveniente.
Resisto à norma que me nomeia,
recuso o rótulo fácil e estreito;
minha verdade não se enleia.
Se a tempestade insiste no peito,
eu escrevo — e a palavra semeia
uma casa mais firme que o preconceito.
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IX – Voz Clandestina
“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)
Aprendem cedo a dobrar a espinha,
a concordar com o poder sentado;
chamam “prudência” ao medo calado,
e “virtude” à consciência mesquinha.
A verdade vira voz clandestina,
o grito é vício mal tolerado;
mas há no íntimo um fado
que não aceita disciplina.
Ser conveniente é fácil caminho,
mas cobra a alma como tributo;
paga-se caro pelo vizinho.
Eu escolho o verso absoluto:
prefiro o risco sozinho
à paz comprada por luto.
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X – A Cidade Transparente
“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)
A cidade ergue torres de vidro,
promete céu em condomínio fechado;
mas o chão, cansado e pisado,
sussurra verdades sob o ruído.
Chamam “progresso” ao brilho polido,
“futuro” ao passado reciclado;
e o homem, em aço moldado,
perde o rosto no próprio espelho líquido.
Quero leveza contra o peso bruto,
quero ar nas ruas comprimidas,
quero espaço no concreto astuto.
Se a torre vigia nossas vidas,
eu ergo o verso, agudo e enxuto:
transparência é romper as medidas.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)