Atrás daquela porta esconde-se um coração de pedra!
O bobo – Majestade, alguém está cobiçando vosso trono!
O Rei – Imaginas quem é?
O bobo – Não sabem El-Rei! Uns dizem Tiradentes, outros, Vandré!
O povo na praça se reúne, oh Rei!
O Rei – Quem são eles?
O bobo – São gente da UNE!!!
O Rei – O que querem?
O bobo – Querem acesso à justiça e liberdade também!
O Rei – Mandes rezar umas missas, tantas quantas puderes…
O bobo – Por que vossa majestade, se mal vos pergunte?
O Rei – Pediram comida, dei-lhes estrume
Pediram escolas, dei-lhes esmolas…
O que querem afinal? Mais fornos??
O bobo – não saberei responder, embora seja eu teu ministro
do entretenimento, o que posso fazer?
Majestade não estais com medo que em tudo isso
Um mal aconteça?
O Rei – Ministros! Ministros! Não tenhais medo meus nobres!
Mandem chamar Tancredus…
O bobo – Teu nobre orador?
O que acontecerá então?
O Rei – Antes que haja uma revolução, Mendes construir cadeias…
O bobo – Majestade! Majestade!
Não temos mais verbas!
O povo reclama de tantos tributos…
O Rei – Onde está o 1º Ministro?
Peça a ele que organize a cavalaria,
Reúna os marechais-de-campo…
Agendes um encontro com Napoleão!
O bobo – Majestade! O vosso ministro Ullysses, está arquitetando
Outra ideologia…
O Rei – Quem ele pensa que é?
Me contes, quais são as tramóias??
O bobo – Presente de grego majestade! Presente de grego!
Parece Cavalo de Tróia !!!
Ele confabulou com os seus…
Querem tirar deste grande império
O poder dos tiranos monarquistas,
E instituir um parlamento livres…
Uma tal democracia! Coisa de grego, Majestade!
O Rei – Convoques a milícia imediatamente!
Armem os soldados com o mais grosso calibre
Até os dentes…
Compres mais canhões, se preciso for!
No forte, ainda temos pólvora e dinamites!
Não temais meus ministros!
Tudo ficará em ordem!
O bobo – E o povo majestade? E o povo?
O Rei – Por que tanta mediocridade?
Não vês que são meros detalhes?
Mande-os agora para as praças!
O bobo – Quem irá celebrar as missas?
O Rei – Como? O religioso nobre néscio!
O bobo – Majestade, os religiosos, mudaram-se para as
fronteiras, dentro das florestas
foram construir missões!
Abrigam os silvícolas,
Amparam os desamparados,
Ensinam os ignorantes a lutar
Pelos seus direitos, Majestade!!!
O Rei– Torturas! Torturas! Um a um é o que merecem…
Terão que confessar quem são!
O bobo – E o povo majestade?
O Rei – Distribua balas a todos!
Se querem espetáculos, contratemos circos…
Se querem comida, pães amanhecidos…
Retires-te daqui, que repousar!
Mas antes, enches minha taça com vinho!
O bobo – Majestade?!
O Rei – O que foi?
O bobo – O mensageiro real vos trouxe uma mensagem!
O Rei – Leias então! O que estás esperando?
O bobo – Diz assim:
“oh Majestade sem reino
teus dias estão findando…
plantastes muito veneno,
teu povo estais ‘liminando!
Pedimos licença então
Pra um pedido fazer:
Queremos tudo de bom
Pra nossa vida viver!
Se achais que tudo é difícil,
Livre-nos das trapaças…
Adulteraram o diesel,
Os nobres fazem fumaça!
Vede Senhor os teu servos,
Não são simples criaturas…
Queremos tirar os pregos…
À liberdade, abertura!
Estamos todos nas trevas
Sem liberdade ou ação!
Teus nobres queimam uma erva
Só pra sentir emoção!
São todos feitos de pedras,
São frios até no amor…
Somos de distantes épocas,
Já acabou o terror!
Enquanto pão precisamos
Comeis então strogonoffs!
Por isso estamos lutando,
Com foices e molotovs!
Vossa milícia sem soldo
Doentes querem partir!
Bebem remédios de boldo,
Mandados lá do Haiti!
Nós só queremos justiça,
E ficar em nossas terras…
Mas tudo acaba em pizza…
Seu reino produz só guerras!
É melhor que abdiqueis
Deste trono de uma vez…
Em vossa corte, os reis
Só vivem de embriaguez!
O povo sente saudades
De tanta terra querida
Plantavam até erva-mate
Tinham um motivo na vida!
O reino sujo de sangue
Que alimenta os corvos,
A nossa casa é no mangue,
Vosso palácio de porcos!
Vejo que nossos avisos
De mais nada adiantam!
Vosso reinado de guisos,
Mandam cortar as gargantas!!!
Então vendemos pamonha
Nas feras de cada dia!
Vossos herdeiros, maconha,
E nos banquetes, farinha!!
Escuteis os vossos sinos!
Que já reclamam bem tarde:
Nem mesmo os pobres suínos
São maltratados, quem sabe?
Seria este o motivo,
De nossa humilde mensagem!
É preciso estar bem vivo
Mesmo que seja bem tarde!
Nós não queremos de novo
Chegar com outra mensagem
Mesmo que seja passagem,
Quem assina é teu Povo!”
O Rei – Mas que atrevimento desse povo!
Se comportam como donos!!!!
É preciso fazer algo…
O bobo – O que Majestade?
O Rei – Me chame o fidalgo da Corte, Paulus Cesárius…
Digas a ele que espalhe notícias
Pelos jornais:
“oh povo dos subterrâneos!
Vosso rei a partir desta data
Criará o Silêncio Público…
Tereis Cestas Básicas uma vez por ano!
Saúde? Salvo engano, estão todos bem!
Será preciso aumentar tributos
Para aumentar nossos passos!Que se faça, que se cumpra!
Aceito vossas desculpas
Pelas mensagens que enviastes!Assinado: Vosso Amado Rei!
Assim, depois de um mês
O bom rei veio a falecer,
Julgava ser imortal!
Mas é a vida!
São as leis!
Assume outro em seu lugar!
Que irá mudar toda a situação.
Poeta?
Músico?
Artista?
Ou mandarim?
Não se sabe ao certo!
Pelo jeito o seu nome é Rasputim!!!
E o povo era feliz e não sabia!!!
(Out: 14, 1988)
Disparada, Jair Rodrigues:
Disparada , Yamandu Costa:
11 de janeiro de 2008 às 16:15
Muito bom!!! Acho mágica como o humor utiliza o bobo como a voz do povo!!! E essa música disparada também é perfeita!
11 de janeiro de 2008 às 20:42
Qualquer semelhança com fatos reais…
Eu também sinto uma desesperança nos ares brasilis.
Maravilhoso poema, um roteiro amargo e real da vida por aqui. Preciso beber muito deta fonte, professor.
Parabéns! 🙂
Beijo da Dai
11 de janeiro de 2008 às 20:57
Outro dia estava ouvindo Disparada e é incrível como esta música em qualquer versão me emociona sempre.
Ela fala sozinha e conta a História solitária de cada um de nós, ao mesmo tempo que, de certa forma nos convoca a todos a não desistirmos da luta. Ou pelo menos que não nos esqueçamos de um passado recente. Eu e minha filha nascemos dentro da Ditadura. 25 anos de vergonha que não deveriam ser esquecidos jamais. Porém às vezes o povo me parece mesmo o BOBO.
Parabéns, emocionante!!!!
11 de janeiro de 2008 às 21:13
Yamandu Costa assina embaixo do que eu penso sobre as forças serem eternas. Não é apenas a versão ‘moderna’ mas saber que a luta há de continuar, só precisamos saber que armas se usar desta vez.
MARAVILHOSO ARTIGO! COMPLETO. PERFEITO! (emocionou demais)
Um abraço forte!
12 de janeiro de 2008 às 06:12
Olá! :
Seu textos fez ressoarem varios ‘cliques’ em minha mente:
1º A situação política de nosso país => realmente/infelizmente, nosso povo sofrido mais parece estar vivendo sob as regras de Maquiavel (pão e circo para o povo!
Sendo ‘pão’ os ‘leves-leites’ e as diversas ‘bolsas’; sendo ‘circo’ os BBB, novelas, folhetins – Caras, Tititi’s – e futebol – este último ‘circo’ na versão masculina): não só sob este governo, mas sob as ordens de governos que antecederam-no.
Dê peixe a um homem e ele pode morrer de fome quando não estiverdes presente; dê-lhe uma vara, ensine-o a pescar e ele andará com as próprias pernas.
2º – Os grandes festivais => Ah, emocionei-me! Só tenho 32 anos e não pude acompanhá-los todos. Só uma leve recordação de quando, muito menina, vi o último: torci tanto por Oswaldo (voa condor) e quem ganhou foi a Tetê….Deu uma saudades, menino!
3º – Meus pensamentos sobre ‘bobos’ => minhas postagens sobre ‘bobos’ foram inspiradas em um poema de Fernando Pessoa, na qual ele dizia ‘que os bobos vivem melhor, e só eles sabem o que é verdadeiramente amar’.
Bom…então, é isso!
Grande abraço, Gaspar!
13 de janeiro de 2008 às 15:24
muito bom o texto Professor.