Arquivo para janeiro, 2008

Violeta de Outono (Cartas Chilenas)

Posted in Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 21 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Não conseguiria cingir palavras
Em tom de alegria,
Porque a minha saudade é triste!

Relembro o dedilhar de lamentações
de um ‘não’ revoltado,
peças ruas as bocas famintas,
os pés explorados,
as mãos mutiladas,
os olhos ardentes,
os sonhos abortados!

Tudo isso por um
‘Pelo amor de Deus!”

meu quarto, as paredes
choravam de melancolia…
choraram prantos,
tantos quantos dos operários…

trouxeram certa vez,
uma correspondência
deslacrada
com digitais de milícias
ao meu quarto!

Era um dia nublado onde relampejava
Sobre as pradarias
O crepúsculo de um dia
Que desvirginava pelas galerias
Dos déspotas
O momento livre!

Minhas mãos tremulavam,
Segurando a correspondência…
Sem remetente,
Sem data,
Num momento saudoso!

Quando estava no colégio
E via ao longe teus símbolos,
Nossa querida marca,
Sendo içada aos sete ventos latinos,
No gorjeio de cantos:

Democracia! Democracia! Si! Democracia!

O que restava da civilização, choramingava
Pelas sarjetas carimbadas
Pelos tributos feudais,
Pelos abusos dos senhores da lei,
Pelos togados enteados na nação!
Oriundos de genitores de aluguéis…
Cortejavam no vício do câncer feudal
O ser ou não ser da liberdade!

O século virou, e com ele as décadas vieram,
O cenário mudou,
Os personagens mantêm-se no podium!
Patronatus Profanus,
Invólucros paternuum,
Célebros elitistas,
Méritos escárnios,
Prostibulus clerus,
Meros fundadores da poção canônica
De serem puros filhos….

Labuta! Labuta!

Não me satisfaço em ler esta correspondência,
A primeira depois de ouvir
Que as flores podadas,
Que as cores foram furtadas,
Que as dores foram atadas,
Mas Violeta canta! Mesmo assim, canta!

Canta!
Estronda na platéia operária
As vozes roucas
E soturnas de homens, mulheres, crianças,
E logo surgem das mãos de um oficial
Um cale-a-boca chileno,
Emudecendo assim o grito de basta!

Não findou da Violeta felina sei dedilhar,
Na guitarra latina, o eco de libertas!

Do meu quarto salpico
Pelas janelas as correspondência,
Sem remente,
Sem data,
De alguém que algum dia
Cortejava em temor servil:
Gracias a la Vida!”

(Set: 04, 2001)

Violeta Parra:

Mercedes Sosa:

Iod-Hê-Vo-Hê!

Posted in 11 Hendecassílabos, Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 21 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Fico calado, mas isso só não basta!
Bolso cálido vazio fica traindo…
Sempre vejo e a vida se desgasta!
Viram hortênsias e murcham se esvaindo…

Tenho um álibi que se faça partir!
Um pão que não comeram depois da Ceia,
O bolso pálido já tenta dividir:
A esperança que em tudo se baseia!

E só assim o meu calar já não basta!
Imploro com humildade o que semeias:
A cana e o trigo que tu me presenteias!

De júbilo te exalto entre as nações,
‘gradecendo tudo mesmo qu’eu pequei!
Tu És, o meu Pai, o meu Senhor, e Rei!

(Jun: 17, 1997)

Luna Pubianna y El Sol Martin Pescador

Posted in 06 Heróico Quebrado, Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 21 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Parte I – O Amor

Teus lábios eu mordi
No outono passado
De cerejas? Talvez!
A tua silhueta
Teu hálito sublime
Torna-me então um álibi…
Meus vícios são teus beijos!

Ataste-me assim
No calor dos teus lábios
És pubiannamente
Mulher, a minha gueixa!
O que és meu amor?
O nosso alucinógeno?
Amarras da paixão?
Somos ambos escravos!

Ouvi versos venéreos
Dos frios romanceiros,
As ruas ficam úmidas
D’indigentes amantes?
Delinqüentes errantes?
evidentes Cervantes?
Não sabem ser amor,
Só sabem sofrer!
Sonham com seus velórios
Pensand’em não sofrer
Mas sofrer o que é?
Um copo de amargura
Que toda criatura
Recebe sem saber?

Meios fios gravei-te
O teu nome inteiro
com o meu em carvão!
Pena que não durou!
Veio a chuva e lavou…
Cavou nosso romance
Num instante de dor!

Os teus sinais são belos,
Teu corpo é com’um cais,
Vou te avistando ao porto
Todas as cicatrizes
Marcadas em navios
Que se afogam no mar
Num gosto das salinas
Do teu útero ser!

Parte II – O Ódio

Bebem tuas salivas
Quais bêbados marujos…
À noite eles juram
O mais completo amor!
De dia vão embora
Desesperados de dores!
São fugitivos loucos
Que se perderam nus
Inocentes das docas!

Um bando de urubus
Que te blasfemam nomes
Que gesticulam blues
São todos eles xulos
Todos fogem quais lobos…
Arrotando Gin Tônica
Caem na fantasia
De te terem bebido
Com receios dadores!

Carregam nas mochilas
As suas vidas tortas
Que pensam como náufragos,
Que morrem como vítimas
De um abandono raro
Que tuas mãos pesaram!

A tatuagem fica
De vários canivetes…
Nos rostos pubianos
Da triste Pubiana
Que chora em qualquer canto!
Num canto triste chora,
Não se sente bonita
Não passa pó de arroz
No pubiano rosto!
O seu nécessaire
Tão cheio de mistérios
Brilha um estilete
E junto um bracelete
Tatuado seu signo:
Um bonito dragão!

Parte III – O Abandono

De todo o ritual
Vai molhando seus pulsos
Com água destilada
E álcool de cozinha,
Amarra seus cabelos…
Esfrega com carinho
Com gestos digitais
Talvez a única chance
De se fazer feliz!

Pubianna não quis
Nos braços alheios
Nem tentar ser feliz!

Tentou sempre fugir,
Sina de sua vida
Vida insinua vida!
Tenta fingir, por quê?
És Luna Pubiana
Que queres desta vida?
Retirastes enfim
Da mais amarga dor
do inculto prazer,
tiraste todo o gelo
que havia no corpo
mesmo no coração!
Um calendário Maia
Carregas em teu peito,
Dilaceras, portanto
A mortalha vital:
Tuas cinzas nuas
Luna sem compaixão,
Sol sem bordas no frio
Que saiu tão discreto
Foi embora sem dizer
Não tinha o que dizer,
Foi mágoa apenas, foi!

Parte IV – O Adeus

Alguém muito El Sol
Daquele que foi gravado
No peito da amada
Aquela que não tentou
Ser feliz, ser feliz!

Por tudo que se foi,
Num coração que dói,
E por remoer isso
El Sol não mais ficou…
Esqueceu sua boina
O camafeu de Luna
Esqueceu de dizer
Apenas um adeus….
Voltar? Talvez voltar….
Um dia, uma noite…
Mas se ela pedisse,
Se pubianamente
Enfim obedecesse!
Voltar? Talvez voltar….

Um recado deixou
Gravado no K-7,

“Ao meu amor, meu fim!”

Foi Cartola quem disse?
“Que sejas bem feliz!

(Mai, 26, 1989)

Perfumes ao Vento (ou Rastros de Adeus) XVIII

Posted in 03 Trissílabos, Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 21 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

FASES

I
Travesseiros
De espuma
O que queres?
To cansado!
To com sono!
As mulheres?
Abandono?

Travesseiros
De espuma
Ser feliz?
Sou feliz?
Onde estás?
Num vazio?
No armário?
‘tás com frio?

Travesseiros
 de espuma:
natureza
foi embora!
o carinho…
sentimentos…
os olhares…
quem te quis?
As estradas?
Os caminhos
Todos tortos?
Sem sentidos?

II
Travesseiros
 de espuma:
Quando fui
T’encontrar?
As lembranças!
As saudades!
As nuâncias!
Os quereres!
Milk shakes!
Os perfumes!
Os ciúmes!
Nossas brigas…
És feliz?
Ser feliz?
Sou feliz?

Travesseiros
 de espuma:
no teu corpo,
o carinho,
o conforto,
o segredo,
no meu dedo,
o teu corpo,
vaidades,
sentimentos!
Teus suores
E salivas,
O encontro!

III
Travesseiros
 de espuma:
natureza
foi embora!
Fico aqui,
Meio só,
Só ouvindo
Minhas lágrimas
Tão vazias,
Sem um ombro
Que me queira!
É besteira!
Ficar só!
Vou sair,
Buscar noites,
Buscar dias!
Talvez só!
Talvez dois!
Eu não sei!
Só sei que
Travesseiro
De espuma
És maldito
Travesseiro!

(Ago: 11, 2001)

À Sombra da Acácia

Posted in 10 Decassílabos, Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 21 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Mas as montanhas cravam-se na terra
Num alicerce natural que cava
Rompe-se do celeste, o relampejo,
Teu verbo no futuro que se cala…

E se dilata a célula nociva
No navegar constante em mar venoso…
Balança na justiça em peito aberto
Que és muda, cega, surda! –“Já nem ouço!”

Sinto-me tão distante do Arquiteto
Pois, meu calar aberra-se em tumulto,
Não conseguindo mais amar teu vulto!

De uma rocha sem valor tão perto
Se esmaga nas acácias minha sina,
O novo é vago, meu olhar termina!

(Jan: 07, 1982)