14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (09/14)
(Betto Gasparetto)
Átrio 9 – Abortos Inglórios (Ventre Nostrum)

by Dall-E 3
I
Ah, o aborto, ignomínia disfarçada de escolha,
Onde a vida, ainda incerta, se vê arrancada,
Antes mesmo de ter o direito de respirar,
E no silêncio do ventre, o futuro é desligado.
Que vil e ingloriosa é essa decisão,
Onde o destino de uma alma está selado
Pelas mãos de quem, na ânsia de um prazer,
Esqueceu a responsabilidade que vem com o toque da criação.
II
Que se faz da promessa de uma vida
Quando ela é apenas uma sombra a desaparecer?
Aquele que escolhe abortar a esperança,
Que planta o vazio onde poderia haver luz,
Não conhece o valor de um ser que poderia nascer,
De uma possibilidade que jamais será.
E o que resta, então, senão o eco da perda
Que retumba na alma de quem, ao decidir,
Se esqueceu que a vida não é uma mercadoria
Que pode ser descartada ao sabor do desejo?
III
Ah, mas vós, que julgais ter o direito de tomar tal decisão,
Não vêem que, ao levar a vida, tomais também a vossa?
Pois quem apagou o fogo do futuro,
Esteriliza o próprio coração,
E, no fundo, se torna prisioneiro de sua própria escolha.
IV
Porque, ao matar a possibilidade de um ser,
você mata algo mais profundo:
uma chance de aprender, de amar, de mudar.
E quando o silêncio do arrependimento chegar,
Já será tarde demais, pois a decisão, tomada com pressa,
É irremediável, e o vazio de um possível filho
Se transformará em um buraco sem fim,
A carregar uma dor que não se desliga.
V
Ah, e o que será de vós, ao olhardes para o espelho,
Sabendo que fostes os carrascos de um futuro não vívido?
O que será do coração, que jamais saberá o toque da mão
De quem poderia ter sido, mas não foi?
VI
(…)
VII
A vida, com todas as suas dores e alegrias,
Não pode ser descartada como um objeto velho,
Porque o que é dado à humanidade, como o nascimento,
Não pertence ao homem para destruir, mas para respeitar.
E ao fim, o que fica, quando o aborto é inglório,
Não é a paz, mas uma cicatriz na alma
Que jamais será curada, e que não há tempo
Para apagar a marca daquilo que se fez.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)
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