Arquivo para março, 2026

A Promessa Quebrada

Posted in Sem categoria on 7 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Juraste amor no altar da madrugada,
Com tua mão firmada sobre a minha,
E cada estrela em ouro se deitava,
Pra testemunhar a chama que caminha.

Mas logo a aurora trouxe a dura prova,
Teu coração buscou nova estrada,
E minha fé, que firme se renovava,
Ficou em ruína, em dor abandonada.

As torres altas guardam tua ausência,
As ruas frias cantam teu adeus,
E a esperança, em cinza, sem essência,
Se perde em pranto sobre os olhos meus.

A vida é jogo injusto de saudade,
É mão que fere o peito em compaixão,
E a lembrança, em cruel eternidade,
Faz da promessa apenas maldição.

Ainda assim te busco em cada canto,
Pois mesmo em dor, ainda sei amar,
E no silêncio ergo meu próprio pranto,
Com tua sombra a me acompanhar.

(Betto Gasparetto – v-mmix)

Sonho Desfeito

Posted in Sem categoria on 6 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Sonhei contigo ao sopro da manhã,
Tua figura em seda reluzente,
Mas logo o dia, em chama tão vã,
Rasgou do sonho a imagem tão presente.

Teu rosto claro em sombra se apagava,
Teus lábios frios negaram meu desejo,
E o que restava em mim já se calava,
Na despedida amarga do teu beijo.

A primavera em pranto se tornou,
As flores murcham sob vento agreste,
E minha vida em cinza se pintou,
Pois foste embora quando mais me deste.

Oh sonho breve, imagem de esperança,
Que se perdeu em névoa tão cruel,
Ainda guardo em mim tua lembrança,
Mas já não creio em céu.

Assim caminho em luto, em desalento,
Com olhos secos de tanto sofrer,
E cada passo, em duro sofrimento,
É peso eterno de jamais te ver.

(Betto Gasparetto – v-mmix)

O Canto Interrompido

Posted in Sem categoria on 5 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ergui minha alma em versos de esperança,
Cantando ao vento o sonho de te ter,
Mas o destino, em dura aliança,
Fez da promessa um cântico a morrer.

Os bosques guardam rastros de tua fala,
O rio chora o tempo que se vai,
E minha vida, em dor que não se cala,
É nau sem porto em mar que nunca é paz.

Teu riso doce foi-se como aurora,
Trazendo luz e logo se apagando;
E minha voz, que em ti vivia outrora,
Agora é eco inútil, se arrastando.

Se em ti pensei o todo do universo,
E te entreguei meu mundo sem temores,
Agora restam cinzas sobre o verso,
E o coração, em dor, não vê mais flores.

Eis-me perdido, errante no caminho,
Com meu cantar suspenso e tão vazio;
A noite ri, zombando do meu hino,
E o peito arde em fogo tão sombrio.

(Betto Gasparetto – v-mmix)

A Rosa que Partiu

Posted in Sem categoria on 4 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na tarde fria, a sombra se alongava,
Teu riso doce em ecos me seguia,
E cada pétala ao vento se lançava,
Trazendo em dor a face da agonia.

Teu nome, em cinzas, rompe o firmamento,
O tempo, em vão, não cura tal ferida,
E a lembrança, que vive em desalento,
Revela em mim a lágrima contida.

O sol se esconde atrás de nuvem parda,
O mar recua em ondas de silêncio,
E a solidão, cruel, em mim se guarda,
Fazendo o peito um cárcere sem lenço.

Amor é chama em brasa que consome,
É fonte ardente em sede que não finda;
Por mais que o mundo negue o teu nome,
Ainda em mim tua lembrança é linda.

Mas vais, ao longe, e nada me devolve,
A estrada é fria, e o passo se desfaz;
E a esperança, em sombra, se dissolve,
Na cinza clara de um amor fugaz.

 (Betto Gasparetto – v-mmix)

Quando as Máscaras Caem

Posted in Sem categoria on 3 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.

Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.

Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.

O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.

Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.

Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.

E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.

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I – República das Máscaras

“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na praça erguem bustos de virtude,
polidos rostos sem fissura ou dor;
mas sob o bronze vive o rumor
de pactos feitos em quietude.

Chamam “ordem” à velha servitude,
“bem comum” ao lucro maior;
e o cidadão, pequeno ator,
aplaude a própria inquietude.

Máscaras reinam na claridade,
cada qual vende a sua versão
como se fosse eternidade.

Eu rasgo o pano da encenação:
prefiro a frágil sinceridade
à glória oca da aprovação.

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II – Elegia ao Muro Invisível

“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Entre ruas sem nome e sem retrato,
ergue-se um muro de opinião;
não é de pedra, mas de negação,
de olhares que recusam contato.

Chamam “medo” ao preconceito exato,
“prudência” à segregação;
mas cada rosto pede chão
e cada passo exige trato.

O muro cai quando alguém escuta,
quando o nome encontra o seu lugar,
quando a história não é disputada.

Se o mundo insiste na conduta
de excluir para governar,
eu ergo o verso como enxada.

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III – Sermão Contra o Ouro Polido

“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

No templo erguido ao lucro e à taxa,
pregam fé no mercado invisível;
a fome é dado estatístico plausível,
e a dívida vira marcha.

Chamam “civilização” à farsa,
“progresso” ao grilhão previsível;
mas o povo, em murmúrio audível,
prepara a ruptura que não disfarça.

Não é sagrado o ouro polido,
nem eterno o trono que o sustém;
a história cobra o que foi omitido.

E quando o grito disser “amém”
não será hino do oprimido,
mas juízo contra o desdém.

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IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral

“A revolta dá dignidade.” (Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

Prometem céu em urna lacrada,
distribuem esperança impressa;
mas a palavra muda depressa
quando a cadeira é conquistada.

Chamam “povo” à massa cansada,
“mudança” à mesma promessa;
a revolta, se se expressa,
é tida por desvairada.

Mas há dignidade na recusa,
no “não” que rompe o protocolo,
na crítica que não se desculpa.

Se o voto vira dolo,
a consciência recusa
ser cúmplice do rolo.

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V – Litania para um Nome Esquecido

“Se você não contar sua história, outro contará por você.(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

No bairro antigo, sob luz incerta,
um nome cai no chão da memória;
ninguém registra a breve história,
ninguém reabre a porta aberta.

Chamam “caso” à vida deserta,
“trágico” ao fato sem glória;
mas a palavra, feita vitória,
ressurge quando alguém desperta.

Escrevo o nome em pedra clara,
não para culto ou altar,
mas para que a cidade o encare.

Se o mundo insiste em apagar,
o poema insiste e repara:
lembrar é resistir ao calar.

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VI – Confissão do Homem Ajustado

“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Disse que não era comigo,
que o mundo gira e eu apenas sigo;
mas no espelho, rosto antigo,
vi meu silêncio como abrigo.

Chamei prudência ao medo amigo,
chamei “real” ao gesto ambíguo;
mas a consciência — aço antigo —
cortou-me o pacto vago e frio.

Ajustar-se é fácil conforto,
mas custa a espinha do querer;
cala-se a alma no porto.

Hoje escolho responder:
prefiro o risco torto
à paz de não me mover.

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VII – Crônica do Mundo que Se Vende

“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

Vendem a chuva em garrafa fina,
o ar em lata, o sonho em série;
a infância vira estatística etérea,
e a guerra rende oficina.

Chamam “negócio” à fome menina,
“dado” ao pranto que fere;
mas a memória, quando interfere,
desmonta a farsa que domina.

Quem compra o mundo perde o chão,
quem vende a alma perde o nome;
há preço alto na transação.

E quando o lucro consome,
descobre-se tarde a lição:
nem tudo se compra ou se some.

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VIII – A Casa que o Corpo Habita

“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

No quarto estreito da própria pele,
escuto vozes que me definem;
mas minhas veias se autodeterminam
contra o rótulo que me repele.

Chamam “desvio” ao que não convém,
“normal” ao molde repetido;
mas meu corpo, lúcido e erguido,
recusa o padrão que o contém.

Habito a casa que me invento,
não a que me deram pronta;
sou gesto, falha e movimento.

Se a norma me afronta,
respondo com pensamento:
ser é luta que não desmonta.

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IX – Salmo para um Século Cansado

“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Século exausto de brilho falso,
de guerras breves e longas telas;
a verdade, entre janelas,
perde o lugar no palco.

Chamam “avanço” ao passo em falso,
“rede” às novas correntes paralelas;
mas há ainda vozes singelas
que recusam o gesto encalço.

O poeta não é santo ou herói,
é aquele que nomeia a dor
quando o discurso a corrói.

Se o tempo exige temor,
ele escreve e constrói
uma ética em fervor.

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X –  A Palavra Contra o Mundo

“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Quando o ruído cobre a cidade,
resta a palavra como lâmina;
não para ferir, mas para a trama
de outra possível claridade.

Chamam “utopia” à liberdade,
“ingênuo” ao gesto que reclama;
mas cada verso que se inflama
abre fissura na opacidade.

Não é espada, é semente;
não é grito, é consciência;
não é fuga, é presente.

Se o mundo insiste na aparência,
a poesia, persistente,
ergue o ser contra a indiferença.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)