Arquivo para março, 2026

O Confinamento da Linguagem

Posted in Sem categoria on 2 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há violências que não exigem gritos.
Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.

Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.

O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.

Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.

Esses sonetos recusam essa tradução confortável.

Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.

O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.

Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.

Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.

============*==*==*============

I – A Banalidade do Aplauso

“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na sala cheia, palmas disciplinam
o gesto exato do homem correto;
ninguém pergunta ao rito obsoleto
por que as engrenagens assassinam.

Chamam “ordem” ao medo que ensinam,
“dever” ao silêncio mais discreto;
e o erro, de terno e voto secreto,
sorri enquanto as vozes declinam.

O mal não ruge — cumpre expediente,
bate o ponto, carimba o destino,
aplaude a própria culpa obediente.

E eu escrevo, contra o hino
que absolve o gesto indiferente:
pensar é o único desatino.

============*==*==*============

II – Fronteira de Pó e Oliva

“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Na linha seca entre pedra e vento,
um nome resiste ao mapa rasgado;
o soldado guarda o campo cercado,
mas a raiz insiste no cimento.

Chamam “segurança” ao confinamento,
“paz” ao muro armado;
e o trigo, sob o céu sitiado,
aprende a crescer em silêncio lento.

A pátria é mais que cerca e bandeira,
é voz que atravessa a fronteira
como água sob a areia.

Se o mundo fecha a cancela,
o poema abre a clareira:
ninguém exila uma ideia.

============*==*==*============

III – Inventário da Cor Silenciada

“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Catalogaram a pele em gavetas,
mediram o tom com régua moral;
chamaram “exótico” o que é vital,
e “raça” ao medo de suas metas.

Ergueram tronos sobre algemas discretas,
e à história deram verniz colonial;
mas a memória, vulcão ancestral,
arde sob as páginas quietas.

Não sou cifra em arquivo alheio,
nem figurante no drama do império;
sou a voz que recusa o freio.

Se o mundo insiste no critério,
eu escrevo — negro e inteiro —
contra o silêncio do cemitério.

============*==*==*============

IV – O Estrangeiro em Plena Praça

“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

No centro exato da cidade clara,
sinto-me alheio ao próprio chão;
a praça vibra em exaltação,
mas o sentido me escapa e dispara.

Chamam “verdade” à voz que declara
certezas prontas na multidão;
eu busco o sol na contradição
que o absurdo íntimo me prepara.

Se nada salva, salvo o gesto lúcido;
se tudo é ruído, escolho o silêncio;
se a lei é máscara, fico intrépido.

Viver é resistir ao consenso:
na praça plena, permaneço único,
estrangeiro ao falso incenso.

============*==*==*============

V – Manual para Esquecer um Corpo

“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

Enterram o corpo com notícia breve,
três linhas frias e foto menor;
a cidade segue seu rumor,
o lucro cresce, a dor não se escreve.

Chamam “fatalidade” ao que não deve,
“estatística” ao sangue em flor;
mas a memória — semente e ardor —
rompe o asfalto onde a verdade ferve.

Não esquecerei o nome calado,
nem a rua que viu o disparo;
não deixarei o rosto apagado.

Se o mundo prefere o avaro,
eu guardo o gesto lembrado:
memória é justiça em preparo.

============*==*==*============

VI – A Liberdade em Regime de Vitrine

“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Vendemos a liberdade em parcelas,
com juros brandos e selo oficial;
o medo vira hábito social,
e a escolha se faz entre janelas.

Chamam “opção” às mesmas querelas,
“autonomia” ao script digital;
mas o ser, inquieto e visceral,
recusa o molde das sentinelas.

Livre é quem assume o peso do ato,
não quem repete o gesto esperado
sob o aplauso do contrato.

E se o mundo exige lado,
eu escolho o risco exato:
ser livre é ser responsabilizado.

============*==*==*============

VII – Crônica do Mundo ao Avesso

“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

No mercado, vendem sonhos usados,
com desconto para quem não sonha;
a guerra vira tela risonha,
e os mortos, dados já somados.

Chamam “crise” aos salários cortados,
“ordem” à rua medonha;
a verdade, tímida e tristonha,
vive nos cantos ignorados.

Mas há histórias sob a poeira,
há vozes pequenas que sustentam
o peso da noite inteira.

E quando elas se levantam,
o império treme na cadeira:
a narrativa é arma que enfrentam.

============*==*==*============

VIII – A Casa Dentro da Tempestade

“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

Na casa estreita da própria mente,
a chuva bate com voz severa;
mas a janela, ainda que impera
a noite, guarda luz persistente.

Chamam “fraqueza” ao peito ardente,
“histeria” à dor sincera;
mas o pensamento não se encerra
na etiqueta conveniente.

Resisto à norma que me nomeia,
recuso o rótulo fácil e estreito;
minha verdade não se enleia.

Se a tempestade insiste no peito,
eu escrevo — e a palavra semeia
uma casa mais firme que o preconceito.

============*==*==*============

IX – Voz Clandestina

“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Aprendem cedo a dobrar a espinha,
a concordar com o poder sentado;
chamam “prudência” ao medo calado,
e “virtude” à consciência mesquinha.

A verdade vira voz clandestina,
o grito é vício mal tolerado;
mas há no íntimo um fado
que não aceita disciplina.

Ser conveniente é fácil caminho,
mas cobra a alma como tributo;
paga-se caro pelo vizinho.

Eu escolho o verso absoluto:
prefiro o risco sozinho
à paz comprada por luto.

============*==*==*============

X – A Cidade Transparente

“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)

A cidade ergue torres de vidro,
promete céu em condomínio fechado;
mas o chão, cansado e pisado,
sussurra verdades sob o ruído.

Chamam “progresso” ao brilho polido,
“futuro” ao passado reciclado;
e o homem, em aço moldado,
perde o rosto no próprio espelho líquido.

Quero leveza contra o peso bruto,
quero ar nas ruas comprimidas,
quero espaço no concreto astuto.

Se a torre vigia nossas vidas,
eu ergo o verso, agudo e enxuto:
transparência é romper as medidas.

============*==*==*============

(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

A Banalização do Ser como Espetáculo

Posted in Sem categoria on 1 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há uma etiqueta ensinada cedo demais: sorrir enquanto se ignora, concordar enquanto se teme, prosperar sem perguntar quem ficou para trás. Estes sonetos surgem contra essa etiqueta. Não como sermão, mas como fricção. O que está em jogo aqui não é apenas a desigualdade evidente — é a coreografia elegante que a torna aceitável.

Em cada poema, a cena é conhecida: a miséria tratada como inconveniência estética; a cidadania reduzida a protocolo; a política convertida em espetáculo; o amor submetido à vitrine moral; a vida humana transformada em gráfico. O escândalo não é a violência explícita — é a sua administração polida. A pobreza aprende a ser discreta; o privilégio aprende a parecer natural.

Se Brecht desconfiava da moral que chega antes do pão, é porque o discurso frequentemente serve para disciplinar os que têm fome. Se Orwell alertava para a manipulação das palavras, é porque a troca de termos altera a percepção da realidade. Se Arendt analisou a banalização do mal, é porque a omissão organizada pode ser tão destrutiva quanto a brutalidade declarada. E se Bauman descreveu a fragilidade das relações contemporâneas, foi para mostrar como o descarte tornou-se método — inclusive nas relações humanas.

Aqui, a crítica não aponta apenas para instituições; ela atravessa o indivíduo comum — o cidadão exemplar que atravessa a rua para não ver, o espectador que aplaude o escândalo do dia enquanto esquece o de ontem, o consumidor que confunde liberdade com escolha de prateleira. O problema não é apenas estrutural: é cultural. É a normalização da indiferença.

Estes textos recusam a decoração do sofrimento. Não romantizam o excluído nem demonizam em caricatura o poderoso. Preferem expor o mecanismo: a linguagem que suaviza a exclusão, o espetáculo que substitui o debate, a moral que vigia o íntimo enquanto absolve o abuso público.

Se existe alguma aposta nestes poemas, ela não está na indignação efêmera, mas na permanência da pergunta. Perguntar quem lucra, quem cala, quem decide, quem desaparece. Perguntar é romper o roteiro previamente ensaiado.

Escrever, aqui, é não colaborar com o silêncio conveniente.

=============*==*==*=============

I – Manual de Boas Maneiras para a Miséria

“Primeiro vem o pão, depois a moral.” (Inspirado em Bertolt Brecht – Alemanha)

Vendam-me um sonho em prestações suaves,
com brinde e selo “promoção do bem”;
a fome assina embaixo, e não convém
que a rua manche os ternos mais graves.

Nos salões, as virtudes são escravas:
sorri-se em prata, a lágrima é refém;
quem pede um prato ouve: “culpa de alguém”,
e o lucro segue, santo, pelas naves.

Chamam “ordem” ao cerco do pobre;
chamam “mérito” ao berço de veludo;
e a lei, de toga, ao fraco sempre cobra.

Eu rio — riso amargo, quase mudo:
a etiqueta perdoa o que encobre,
mas não perdoa o pão fora de estudo.

=============*==*==*=============

II – Elegia ao País das Aparências

“A máscara é a verdade mais usada.” (Inspirado em Federico García Lorca – Espanha)

Na vitrine, a cidade se perfuma,
finge harmonia, vende luz e paz;
mas sob o asfalto a febre se refaz
e a noite engole a última pluma.

O povo aprende a respirar espuma:
aplaude o golpe, chama-o de “capaz”;
o medo vira moda, e satisfaz
quem troca a alma por qualquer suma.

E eu, poeta, no beco, desconfio:
o belo aqui é só verniz exato;
a fome tem o mesmo tom do frio.

Quem mede o mundo pelo próprio prato
não vê que a praça é palco e desafio:
sorri-se em público, chora-se no ato.

=============*==*==*=============

III – Caderno de Instruções para Ser Invisível

“Falar é existir.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Aprendi o silêncio como ofício:
ser pouco, ser ninguém, ser só perfil;
ser sombra útil, número civil,
sem voz que desagrade ao edifício.

Chamam “progresso” ao velho precipício;
chamam “paz” ao porrete juvenil;
e a tela — tribunal volátil —
absolve o forte e vende sacrifício.

Mas há na língua um fogo subterrâneo,
um “não” que nasce quando a dor ferve;
um nome antigo que rasga o calendário.

Eu ergo a voz — e o muro não me serve:
prefiro o risco ao selo cotidiano;
ser invisível é morrer em breve.

=============*==*==*=============

IV – Balada Cínica do Bom Cidadão

“O melhor carece de convicção.” (Inspirado em W. B. Yeats – Irlanda)

Sou “bom cidadão”: pago a minha pressa,
finjo não ver o corpo no chão;
assino a culpa na própria mão
e digo: “é triste”, enquanto atravessa.

Na fila, a alma aprende a ser promessa,
a esperar o milagre do balcão;
o pobre pede pão, recebe “não”,
e o rico chama isso de “progresso” à mesa.

Que cinismo gentil o da cidade:
ela condena o grito, ama o ruído;
chama “barbárie” a lucidez.

E eu, cúmplice, sei do meu sentido:
a neutralidade é vaidade —
uma virtude feita de vazio.

=============*==*==*=============

V – Contrato Social de Vidro Fino

“Não se nasce livre: torna-se.” (Inspirado em Simone de Beauvoir – França)

Assinei com o mundo um papel brilhante:
“serás exemplo, dócil, regular”;
se te ferires, aprende a disfarçar,
sorrir na queda, agradecer ao instante.

Chamam “amor” ao controle elegante;
chamam “família” ao medo de mudar;
e o corpo, que queria respirar,
vira vitrine de um juiz constante.

Eu rasgo o molde: não por heroísmo,
mas por fadiga de ser figurino;
prefiro a verdade ao aplauso manso.

E se me chamam “fria”, “sem destino”,
respondo: é só higiene do cinismo —
liberdade exige um passo e um cansaço.

=============*==*==*=============

VI – República do Aplauso e do Esquecimento

“Ser culto é o único modo de ser livre.” (Inspirado em José Martí – Cuba)

Na praça, vendem pátria em embalagem,
com hino curto e desconto no final;
o povo vira coro eleitoral
e a fome assina a própria sabotagem.

A cada crise, um show, uma passagem;
a cada escândalo, um moral viral;
o tirano sorri, sentimental,
e a lei cochila, amiga da vantagem.

Mas há um livro aberto no subsolo,
há uma escola teimosa em cada esquina,
há uma criança que pergunta: “por quê?”

Se a pergunta resiste ao caramelo,
o império treme — e a máscara termina:
um povo acorda quando aprende a ler.

=============*==*==*=============

VII – A Parábola do Homem que Virou Estatística

“Até o leão precisa do contador de histórias.” (Inspirado em Chinua Achebe – Nigéria)

Morreu um homem — e foi só planilha:
célula fria num gráfico sem cor;
o noticiário deu-lhe um “favor”,
um número curto, e seguiu a trilha.

A rua cheira a metal e armadilha,
a fábrica mastiga o trabalhador;
e a fé do mercado, sem pudor,
diz: “é o preço”, e ergue outra rodilha.

Quem conta a história devolve o rosto,
repara o nome, resgata o passado;
sem narrativa, a vida é só imposto.

Eu escrevo: contra o cálculo dourado,
contra o esquecimento bem composto —
pois cada morto exige ser lembrado.

=============*==*==*=============

VIII – Ministério da Verdade Cotidiana

“Quem controla o passado controla o futuro.” (Inspirado em George Orwell – Reino Unido)

A tela me vigia com ternura,
sugere o medo em forma de canção;
eu clico, concordo, dou permissão
à jaula doce da vida segura.

Mudam palavras, muda-se a postura:
“guerra é paz”, “miséria é ascensão”;
e a dúvida — pecado — vira razão
para cortar a língua da criatura.

Mas há um gesto antigo: desconfiar;
há um lápis que resiste ao algoritmo;
há uma janela aberta no pensar.

Eu rio do slogan, do culto mínimo:
quem chama “livre” o próprio colecionar
já vendeu a alma ao seu próprio ritmo.

=============*==*==*=============

IX – O Amor em Tempos de Vitrine Moral

“O erotismo é a outra face da liberdade.” (Inspirado em Octavio Paz – México)

Amar aqui é cumprir protocolo:
postar sorriso, etiquetar afeto;
o beijo vira anúncio, e o coração discreto
tem medo de parecer “fora do bolo”.

A cidade cobra pureza em alto dolo,
mas negocia o desejo em modo secreto;
ela condena o corpo no panfleto,
e o vende à noite, em silêncio e rolo.

Eu te amo sem vitrine nem aplauso,
com o risco de ser mal interpretado;
amor não é uniforme, é incêndio manso.

E se a moral nos julga pelo mercado,
respondo: o gesto íntimo é o meu espaço —
onde o mundo não entra algemado.

=============*==*==*=============

X – Pequeno Elogio da Contradição

“Somos a soma de acasos organizados.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)

A vida prega peças com elegância:
num dia, lei; no outro, improviso;
o certo muda o nome no aviso,
e o erro usa gravata de importância.

O rico chama “sorte” à herança;
o pobre chama “crime” ao próprio piso;
e o meio termo, em seu sorriso,
vende prudência e compra ignorância.

Eu celebro o humano — esse intervalo
entre o que somos e o que prometemos;
a contradição é nosso espelho.

Se o mundo exige um rosto sem abalos,
prefiro o risco: ao menos assumimos
que até a verdade tem seu joelho.

=============*==*==*=============

(Betto Gasparetto – vii-mmxviii)