Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 1 – Cap 6/7)

Episódio I — A Casa Que Observa

Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight”Ludwig van Beethoven


(Betto Gasparetto)

Capítulo 6 — Vozes Atrás das Paredes

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa não dormia.
Apenas diminuía o movimento visível, como um corpo que, mesmo imóvel, continua a trabalhar em silêncio.

Havia horas em que o som parecia nascer das próprias paredes.
Não como eco, mas como origem.

No corredor do andar intermediário, o ar tornara-se mais espesso.
O tipo de densidade que não se explica pela arquitetura, mas pela memória acumulada.

Émile Laurent caminhava com cautela.
Cada passo seu, era precedido por escuta.
Cada decisão, por hesitação consciente.

Ele não procurava um lugar específico.
Procurava um ponto de coerência.

Algo que explicasse o que já não podia ser ignorado.

Parou diante de uma parede lateral.

Ali…

o som era diferente.

Não vinha do corredor.
Nem de algum aposento próximo.

Vinha… de dentro.

Não como voz clara.
Mas como fragmento.

Um ritmo irregular.
Uma intenção incompleta.

Émile aproximou o ouvido.

Silêncio.

Afastou-se um pouco.

O som voltou.

Mais nítido.

Não palavras.

Mas algo próximo a elas.

Como se alguém falasse em outro tempo, e apenas parte daquilo atravessasse até o presente.

Ele apoiou a mão na madeira.

A superfície estava fria.

Mas não inerte.

Havia uma leve vibração.

— Não é possível… — murmurou.

Mas já não era uma questão de possibilidade.

Era de presença.


No andar superior, Sophie von Eichenwald não voltara a dormir.

Sentada à beira da cama, o caderno fechado sobre o colo, ela mantinha o olhar fixo na parede à sua frente.

Também ali…

o som.

Mais fraco.
Mais distante.

Mas perceptível.

Ela levantou-se lentamente.

Aproximou-se.

Encostou a mão.

Fechou os olhos.

— Eu sei que você não quer desaparecer — disse, em voz baixa.

A resposta veio.

Não como voz.

Mas como alteração no ar.

Como se algo tivesse escutado.

Sophie abriu os olhos.

— Então não se esconda.

O silêncio voltou.

Mas não como antes.

Agora… atento.


No quarto de hóspedes, Amélie permanecia acordada.

Seu olhar não se movia.

Estava fixo em um ponto da parede, logo acima da cabeceira da cama.

Ali, o som era mais claro.

Mais próximo.

Como se não atravessasse a parede.

Mas nascesse dela.

A menina ergueu-se lentamente.

Aproximou-se.

Encostou a testa na madeira.

— Você está preso — disse.

O som cessou por um instante.

Depois voltou.

Mais urgente.

Mais… desesperado.

Amélie recuou um passo.

— Eu não posso abrir — disse.

Seus olhos não demonstravam medo.

Mas havia algo novo ali.

Reconhecimento.


No salão inferior, Helena Dubois já não permanecia imóvel.

Caminhava.

Uma vez.

Outra.

Sempre pelo mesmo trajeto.

Como se repetisse um gesto aprendido há muito tempo.

O molho de chaves em sua mão produzia um som irregular.

Diferente de antes.

Menos controlado.

Ela parou diante da parede principal do salão.

Ali também.

O som.

Mais profundo.

Mais… antigo.

Helena fechou os olhos.

— Não agora — disse, novamente.

Mas desta vez…

não havia certeza na voz.


No aposento superior, atrás da porta que raramente era aberta, um leve movimento ocorreu.

Clara von Eichenwald abriu os olhos.

Lentamente.

Como se retornasse de um lugar distante.

Sua respiração era leve.
Mas irregular.

Ela não se levantou.

Mas voltou o rosto em direção à parede.

— Eles ouviram — murmurou.

A voz era fraca.

Mas lúcida.

— Está tarde demais…

Seus olhos permaneceram abertos.

Pela primeira vez em muito tempo… conscientes.


No corredor, Émile afastou-se da parede.

O som continuava.

Agora mais distribuído.

Como se percorresse a casa inteira.

Ele olhou ao redor.

Nada visível.

Mas tudo alterado.

— Quem está aí? — perguntou, sem elevar a voz.

O silêncio respondeu.

Mas não como negação.

Como recusa.


No jardim, o vento havia cessado completamente.

As árvores permaneciam imóveis.

Como testemunhas.

A forma entre os troncos já não se movia.

Mas também não desaparecera.

Apenas… aguardava.


Dentro da casa, o som intensificou-se por alguns segundos.

Depois…

cessou.

De forma abrupta.

Total.

Como se algo tivesse decidido parar.

Ou sido interrompido.


O relógio marcou a hora.

Uma batida.

Duas.

Três.

O eco percorreu os corredores.

Mas agora…

sem resposta.


Helena abriu os olhos.

Seu rosto havia mudado.

Não completamente.

Mas o suficiente.

— Eles começaram a escutar… — disse, em voz baixa.


No quarto, Amélie voltou para a cama.

Deitou-se.

Mas continuou olhando para a parede.

— Eu ouvi — sussurrou.

E, pela primeira vez naquela noite…

não houve resposta alguma.

(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 7

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