Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 28/39)

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Johannes Brahms — Symphony No. 3, III. Poco Allegretto

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 28 — O Salão Nobre e o Primeiro Banquete

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O salão nobre fora preparado como se a beleza pudesse absolver qualquer inquietação.

Grandes lareiras ardiam nas extremidades do aposento. As chamas projetavam sobre o teto alto uma luz instável, dourada, quase líquida. Candelabros de bronze sustentavam velas longas. Tapetes orientais abafavam passos. Cortinas espessas de veludo verde-escuro cobriam parte das janelas, embora, por entre suas aberturas, ainda se visse a neve avançando contra o vidro.

A mesa principal brilhava.

Porcelanas de borda azul, talheres de prata, taças cristalinas, flores de inverno, frutas conservadas, pães escuros, caldos fumegantes, aves assadas, raízes em manteiga, vinhos antigos e pequenas garrafas de licor âmbar compunham um banquete que parecia dizer aos convidados: nada está fora de lugar.

Mas os corpos denunciavam o contrário.

Lukas von Eichenwald, filho de Alaric, permanecia à esquerda da mesa, jovem ainda, mas já marcado por uma espécie de impaciência moral. Tinha os olhos do pai, porém sem a mesma frieza. Havia nele algo que se recusava a endurecer. Quando os criados serviram o primeiro vinho, Lukas olhou pela janela, para além dos jardins, na direção da aldeia escondida pela neve. Talvez pensasse em Elise Bauer, a camponesa de quem se aproximara em segredo. Talvez pensasse no ridículo de estar cercado de cristais enquanto lá fora pessoas contavam lenha.

Lucia Bianchi, recém-chegada italiana, sentava-se próxima a Amélie. Parecia encantada com tudo: os quadros, as louças, a formalidade, o sotaque dos convidados. Mas sua ingenuidade era menos verdadeira do que aparentava. Lucia aprendia rápido. Seus olhos corriam de Helena Dubois para Alaric, de Clara para Émile, de Sophie para Lukas. Ela sorria, mas organizava informações.

Na outra extremidade da mesa, Sebastian Krüger, advogado de rosto seco e fala exata, aceitava o vinho sem elogiar. Havia nos dedos longos e na postura contida a severidade daqueles que acreditam que os documentos possuem mais força do que as pessoas. Sebastian não servia à justiça; servia ao papel. Testamentos, registros, assinaturas, batismos, rasuras — esse era seu reino. E talvez por isso Alaric o mantivesse próximo.

Também estavam ali Matteo Ricci, médico de Clara; Marguerite Lefèvre, antiga atriz francesa cuja chegada fora anunciada com pouca antecedência; Otto Reinhardt, homem da aldeia convidado por razões que ninguém explicou bem; e Katarina Varga, professora recém-instalada na região, cuja inteligência franca começava a incomodar antes mesmo de ser conhecida.

O jantar iniciou-se com os assuntos seguros.

Viagens.

Teatro.

Colheitas.

Estradas.

O frio.

A neve.

Tudo aquilo que se diz quando o verdadeiro assunto está sentado à mesa e ninguém deseja servi-lo.

Foi Marguerite quem primeiro alterou o clima.

Com voz baixa, mas clara, comentou:

— Há casas que mudam menos do que os rostos. Quando voltamos a elas, temos a impressão cruel de que fomos nós que envelhecemos sozinhos.

A frase pousou sobre a mesa como cinza fina.

Alaric ergueu a taça.

— A senhora conserva talento para a cena.

Marguerite sorriu.

— E o senhor conserva talento para fingir que não entendeu.

Silêncio.

Pequeno.

Mas suficiente para que Helena Dubois baixasse os olhos.

Clara levou a mão ao peito, não como quem se sente mal, mas como quem reconhece uma dor antiga chegando antes da palavra.

Émile, que até então quase não falara, observou Marguerite com gravidade. Algo entre eles existira. Ou fora interrompido. Ou fora sacrificado. Ninguém saberia dizer ainda, mas alguns presentes perceberam que o ar entre ambos possuía memória.

Alaric retomou a conversa com disciplina.

— Estamos reunidos para algumas semanas de repouso. A região nesta estação oferece silêncio, leituras, música e caminhadas, quando o tempo permite.

Lukas murmurou, sem levantar os olhos:

— O silêncio raramente é repouso, pai.

Afonso, se estivesse ali, teria respondido com diplomacia. Alaric não.

Apenas olhou para o filho.

— Depende do que cada um carrega dentro dele.

— Ou do que cada casa obriga a carregar — respondeu Lukas.

O choque não se transformou em discussão porque Helena Dubois interveio antes que o orgulho paterno encontrasse frase mais dura.

— O segundo prato será servido. Talvez a música ajude a aquecer o espírito.

Um pianista iniciou melodia lenta no canto do salão.

A diplomacia fora salva.

Mas não a paz.

Pois, enquanto os criados serviam, Sophie escreveu discretamente no caderno:

“Todos falam como se estivessem andando sobre gelo fino. Mas ninguém sabe quem cairá primeiro.”

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 29

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