Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 30/39)

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Claude Debussy — Prélude à l’après-midi d’un faune

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 30 — A Estufa das Papoulas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A estufa de papoulas ficava ao sul, ligada ao corpo principal por uma galeria de vidro. No verão, abria-se para jardins perfumados. No inverno, tornava-se um pequeno país de calor, vapor e cores improváveis.

Havia orquídeas raras, papoulas de vermelho escuro, lírios, samambaias, violetas, pequenas árvores cítricas e vasos vindos de viagens antigas. O ar trazia perfume de terra úmida, folhas aquecidas e chá de ervas. A neve batia do lado de fora do vidro, mas dentro tudo parecia insistir em viver.

Helena Dubois organizou um chá ali para as mulheres da casa e algumas convidadas.

Compareceram Clara, Sophie, Amélie, Lucia, Marguerite, Katarina, Anika — chamada por Clara contra o costume — e, pouco depois, Elise Bauer, que chegara da aldeia com um recado de Greta Holm antes que a tempestade tornasse o retorno impossível.

A presença de Elise produziu leve desconforto.

Não por grosseria explícita.

Pior: pela delicadeza excessiva.

Lucia foi a primeira a oferecer-lhe lugar.

— Sente-se, por favor.

Elise agradeceu, mas permaneceu por um instante em pé, como se avaliasse se aquela cadeira era convite ou armadilha.

Lukas apareceu na entrada da estufa minutos depois.

Parou ao vê-la.

Elise também parou.

Nada disseram.

Mas o silêncio deles falou com tanta nitidez que Amélie baixou os olhos, Sophie ergueu os seus, e Helena Dubois endureceu o rosto.

Katarina percebeu tudo.

— O inverno tem uma vantagem — disse ela, tomando a xícara. — Obriga certos mundos a permanecerem no mesmo cômodo.

Marguerite sorriu.

— E isso raramente termina em harmonia.

— Harmonia pode ser apenas silêncio bem ensaiado — respondeu Katarina.

Clara olhou para ela com interesse.

— Gosto da senhora.

Helena interveio:

— A senhora von Eichenwald está fatigada.

Clara não tirou os olhos de Katarina.

— Não, Helena. Estou acordada. A fadiga é outra coisa.

A tensão tornou-se fina, mas cortante.

Foi Anika quem a quebrou de modo inesperado.

— Chá esfria quando se conversa demais sobre a dor dos outros.

Todos olharam para ela.

Anika sustentou o silêncio, sem pedir licença por existir naquele ambiente.

Helena Dubois disse, com voz contida:

Anika, seu trabalho na cozinha é indispensável.

— E meu ouvido funciona fora dela — respondeu a cozinheira.

O constrangimento foi geral.

Mas Elise sorriu quase imperceptivelmente.

Sophie escreveu no caderno:

“Hoje a cozinha falou mais verdade do que a nobreza.”

Naquele instante, Nikola entrou correndo pela galeria, sem fôlego.

— Mãe!

Anika levantou-se.

— O que houve?

O menino segurava um pequeno objeto preso na mão.

Um medalhão antigo, escurecido.

No verso, duas letras gravadas: GY

E dentro, quase apagado, o retrato de uma mulher jovem.

Marguerite empalideceu.

Clara levou a mão à boca.

Alaric, que surgira silenciosamente na entrada, parou como se tivesse visto retornar uma pessoa morta.

E pela primeira vez desde a chegada de Émile Laurent, o senhor do solar perdeu completamente a compostura.

— Onde encontrou isso?

Nikola recuou.

Anika colocou-se diante do filho.

— O senhor não falará com ele nesse tom.

A neve bateu contra o vidro.

O chá esfriou.

E o melodrama, que até então avançava em murmúrios, ergueu finalmente a voz.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

——-***———-***——-***———-

Próximo Capítulo: 31

Deixe um comentário