Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 34/39)

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: César Franck — Violin Sonata in A Major, III Recitativo-Fantasia

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 34 — A Biblioteca

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela noite, a biblioteca parecia menor.

Não fisicamente.

Emoções fazem isso com os espaços.

Transformam salões em caixas.

Corredores em labirintos.

E lareiras em testemunhas.

Émile Laurent permanecia sozinho.

Ao menos acreditava.

A neve golpeava os vidros com uma persistência quase humana. As chamas iluminavam as estantes altas, os livros russos, alemães e franceses, enquanto sombras subiam pelas paredes como antigas lembranças recusando repouso.

Em suas mãos:

a fotografia.

Antiga.

Levemente amarelada.

No centro:

Marguerite Lefèvre.

Ao lado:

Alaric von Eichenwald.

E entre ambos:

uma criança.

Silêncio.

Émile aproximou a imagem da luz.

As mãos tremiam discretamente.

Não de medo.

Do tipo de dor que aparece quando a memória chega antes da razão.

Porque o problema não era reconhecer Marguerite.

Nem Alaric.

Era a criança.

Pequena.

Talvez cinco anos.

Talvez seis.

Casaco escuro.

Olhar sério.

E algo no rosto parecia insuportavelmente familiar.

Silêncio.

Mais um.

Então passos.

Émile virou-se.

Helena Dubois.

Parada à entrada.

Imóvel.

Como sempre.

Ela observou a fotografia.

Depois Émile.

Depois novamente a fotografia.

Longa pausa.

Muito longa.

Então:

— Onde encontrou?

Silêncio.

Émile sorriu pouco.

Triste.

— Curioso.

Helena não respondeu.

Ele continuou:

— Nesta casa todos fazem a mesma pergunta.

Mais silêncio.

Depois:

— Mas quase ninguém pergunta por quê.

Helena aproximou-se.

Muito lentamente.

Viu a imagem.

Empalideceu.

Não muito.

Mas o suficiente.

Porque naquela casa pequenas mudanças possuíam valor de terremoto.

Longo silêncio.

Depois:

— Guarde isso.

Émile ergueu os olhos.

— Por quê?

Silêncio.

Mais um.

Helena respondeu:

— Porque existem objetos que permanecem quietos até serem vistos.

Pausa.

Olhou a fotografia.

E concluiu:

— E depois disso nunca mais param.

Silêncio absoluto.

Mas Émile não guardou.

Porque algo em seu rosto começava a mudar.

Uma ideia.

Uma suspeita.

Ou uma ferida.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 35

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