Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 37/39)
Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos
Trilha: Antonín Dvořák — Serenade for Strings, II Tempo di Valse
(Betto Gasparetto)
Capítulo 37 — A Sauna Romana

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na ala sul do Solar havia um ambiente raramente mencionado aos visitantes.
A antiga sauna romana.
Construída décadas antes por um ancestral fascinado por arquitetura clássica, permanecia revestida em mármore escuro, colunas baixas, mosaicos antigos e pequenas luminárias embutidas nas paredes curvas. O vapor aquecia o ambiente lentamente, criando uma névoa suave que deformava contornos e tornava os rostos menos precisos.
Talvez por isso os homens da casa gostassem daquele lugar.
Ali expressões desapareciam.
E expressões costumam denunciar mais do que palavras.
Naquela noite encontravam-se ali:
Alaric von Eichenwald.
Émile Laurent.
Matteo Ricci.
Sebastian Krüger.
E pouco depois Lukas.
Nenhum falava.
O som da água.
O estalar discreto do vapor.
Respirações.
Silêncio.
Foi Matteo quem rompeu:
— O frio piorou a senhora Clara.
Silêncio.
Alaric permaneceu imóvel.
Émile observava a água.
Sebastian fechara os olhos.
Matteo insistiu:
— Ela não precisa apenas de remédios.
Silêncio.
Mais um.
— Precisa de paz.
Longa pausa.
Alaric respondeu:
— Paz não é tratamento médico.
Matteo ergueu os olhos.
— Não.
Silêncio.
Depois:
— Mas a ausência dela produz doenças extraordinariamente previsíveis.
Silêncio absoluto.
Porque Matteo falava de Clara.
Mas não apenas.
Émile sorriu discretamente.
Triste.
Muito.
Depois:
— Algumas doenças começam quando alguém passa tempo demais vivendo uma vida que pertence a outras pessoas.
Silêncio.
Lukas ergueu lentamente os olhos.
Porque aquela frase lhe atingira de modo cruel.
Alaric observou Émile.
Longamente.
Muito.
E pela primeira vez em dias não havia cordialidade no olhar.
Nem disfarce.
Nem hospitalidade.
Apenas passado.
E vapor.
Muito vapor.
Porque existem ambientes construídos para relaxar.
E outros construídos para impedir que pessoas se matem.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
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Próximo Capítulo: 38


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