Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 40/49)

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Gabriel Fauré — Sicilienne

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 40 —  Um Encontro Diferente à Mesa

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na manhã seguinte, o Solar acordou em silêncio excessivo.

Silêncios normais pertencem às primeiras horas do dia.

Aquele não.

Aquele possuía peso.

Parecia atravessar portas, infiltrar-se entre cortinas, acomodar-se sobre pratos e cadeiras como uma presença que ninguém convidara, mas todos reconheciam.

O céu permanecia cinzento.

A tempestade diminuíra.

Mas a neve agora cobria quase completamente os jardins, as esculturas externas, os caminhos e parte das janelas inferiores.

O mundo desaparecera.

Restara apenas o Solar.

E, pela primeira vez desde a chegada dos hóspedes, alguns começaram a perceber a violência dessa constatação.

Porque confinamentos prolongados produzem fenômeno curioso:

as pessoas deixam de olhar para fora.

E passam a olhar umas para as outras.

O salão de desjejum fora preparado com cuidado habitual.

Pratas.

Porcelanas.

Compotas.

Pães.

Frutas.

Chocolate quente.

Café.

Mas os lugares à mesa pareciam diferentes.

Ninguém sentava onde sentara dias antes.

Mudanças pequenas.

Mudanças perigosas.

Lukas sentara-se distante do pai.

Marguerite evitara proximidade com Clara.

Helena Dubois escolhera lugar próximo à janela.

Émile Laurent permanecia perto de Sophie.

Lucia Bianchi observava todos.

Sebastian Krüger parecia escrever mentalmente.

Anika atravessava discretamente o salão supervisionando criados.

E Nikola permanecia próximo dela.

Silêncio.

Foi Katarina Varga quem falou:

— Estranho.

Todos ergueram os olhos.

Ela tomou café lentamente.

Depois:

— Ninguém mencionou Adrien.

Silêncio absoluto.

Talheres pararam.

Pequenos movimentos cessaram.

Porque às vezes uma pergunta simples produz terremotos elegantes.

Clara fechou os olhos.

Marguerite desviou o rosto.

Helena Dubois observou a mesa.

Alaric permaneceu imóvel.

Longa pausa.

Depois:

— Não há razão para discutir nomes desconhecidos.

A voz veio de Alaric.

Muito calma.

Excessivamente calma.

Katarina sorriu pouco.

Muito pouco.

— Curioso.

Silêncio.

— Pessoas normalmente não proíbem assuntos irrelevantes.

Silêncio absoluto.

Lukas ergueu os olhos.

Émile também.

Porque a frase não fora ataque.

Pior.

Fora observação.

E observações possuem talento especial para permanecer.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 41

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