Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 43/49)
Episódio 5 — A Geometria das Ausências
Trilha: Claude Debussy — Clair de Lune
(Betto Gasparetto)
Capítulo 43— As Flores Raras

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A neve continuava.
Não com a violência da noite anterior.
Agora caía lentamente, em silêncio, como se o próprio inverno houvesse cansado de assustar pessoas e decidido observar.
Na estufa o calor permanecia agradável.
Papoulas orientais.
Orquídeas brancas.
Jasmins.
Pequenas árvores cítricas.
Vidros embaçados.
O perfume de terra aquecida misturava-se ao aroma de chá e folhas secas.
Ali estavam:
Clara von Eichenwald.
Helena Dubois.
Marguerite Lefèvre.
Anika Petrov.
Katarina Varga.
Amélie.
E pouco depois Sophie.
Nenhuma conversa importante começou importante.
Grandes tragédias raramente anunciam a entrada.
Falava-se sobre flores.
Depois sobre estações.
Depois sobre crianças.
Silêncio.
Foi Amélie quem perguntou:
— As flores percebem quando alguém está triste?
Pequena pergunta.
Pequena demais.
Mas ninguém respondeu imediatamente.
Porque a inocência possui habilidade irritante:
pergunta exatamente o que os adultos escondem.
Marguerite sorriu.
— Talvez.
Silêncio.
Clara observava as papoulas.
Depois:
— Algumas coisas vivem melhor perto da tristeza.
Silêncio.
Helena Dubois abaixou os olhos.
Anika cruzou os braços.
Katarina observava todas.
Então Clara falou outra vez:
— Algumas mulheres dão à luz filhos.
Longa pausa.
— Outras passam a vida inteira dando à luz ausências.
Silêncio absoluto.
Marguerite empalideceu.
Helena fechou os olhos.
Anika permaneceu imóvel.
Porque naquele instante todas compreenderam:
Clara não falava de maternidade.
Falava de feridas.
E, em certos lugares, feridas aprendem a vestir metáforas.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
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Próximo Capítulo: 44


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