Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 6 – Cap 53/54)
Episódio 6 — O Terceiro Inverno
Trilha: Maurice Ravel — Pavane pour une infante défunte
(Betto Gasparetto)
Capítulo 53 – A Piscina Coberta

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na ala leste do Solar havia um lugar quase esquecido.
A antiga piscina coberta.
Desativada havia muitos anos.
Pouquíssimos hóspedes a conheciam.
Menos ainda a visitavam.
E quase ninguém falava sobre ela.
Talvez porque lugares abandonados desenvolvam estranha reputação.
Ou talvez porque determinadas famílias aprendam a transformar silêncio em arquitetura.
Sophie chegara ali por acaso.
Ou pelo tipo de acaso que a casa parecia praticar.
Corredor estreito.
Escada baixa.
Porta pesada.
Silêncio.
Ao abrir—
o ar frio encontrou seu rosto.
Parou.
Imóvel.
O espaço era enorme.
Muito.
Cobertura de vidro arqueada.
Colunas claras.
Luminárias apagadas.
Bancos antigos.
Pequenas mesas de ferro.
E ao centro:
a piscina.
Vazia.
Sem água.
Mas não completamente.
No fundo permanecia fina camada escura, imóvel, refletindo pequenas luzes vindas das janelas superiores.
Silêncio.
Muito.
Muito longo.
Sophie aproximou-se lentamente.
Os passos ecoavam.
Cada som retornava.
Como se o ambiente devolvesse pessoas a si mesmas.
Parou junto à borda.
Olhou.
Silêncio.
Então:
algo.
Muito pequeno.
Muito baixo.
Quase imperceptível.
Uma voz.
Não exatamente voz.
Mais lembrança de voz.
Sophie permaneceu imóvel.
Outra vez.
Mais nítido:
“Não corra.”
Silêncio absoluto.
Virou-se imediatamente.
Ninguém.
Nada.
Colunas.
Escuridão.
Silêncio.
Respiração curta.
Depois outra frase.
Muito baixa.
Muito.
“Espere.”
Silêncio.
Sophie aproximou-se da parede.
Parou.
Na pedra: GY
E abaixo:
“Nem toda memória pertence a quem a recorda.”
Silêncio absoluto.
Porque naquele instante surgiu ideia terrível:
talvez certas lembranças circulassem naquela casa procurando donos.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
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Próximo Capítulo: 54

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