Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 8 – Cap 65/70)
Episódio 8 — Identidades Rasuradas
Trilha: Andante Festivo — Jean Sibelius
(Betto Gasparetto)
Capítulo 65— A Manhã sem Pássaros

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na manhã seguinte, Sophie acordou antes da casa.
Antes dos criados.
Antes do fogo.
Antes do primeiro ruído humano.
Silêncio.
Muito.
A neve ainda cobria os jardins do Solar von Eichenwald–Lancaster, mas não caía. O céu permanecia imóvel, pálido, quase doente. Sophie aproximou-se da janela e percebeu aquilo que ninguém mais perceberia de início.
Não havia pássaros.
Nenhum.
Nem corvos nos cedros.
Nem pardais nos beirais.
Nem asas cortando o ar frio.
Nada.
A propriedade parecia suspensa dentro de um quadro.
Ou presa dentro de uma lembrança.
Silêncio absoluto.
Então Sophie compreendeu que o Solar havia mudado durante a noite. Não as paredes. Não os móveis. Não os corredores visíveis.
Algo mais profundo.
Como se a casa tivesse reorganizado sua própria respiração enquanto todos dormiam.
Desceu lentamente.
O relógio do salão marcava 08h17.
O da escadaria, 07h29.
O do corredor norte, 08h53.
Silêncio.
Os relógios mentiam.
Franz Adler estava certo.
E quando Sophie tocou o corrimão, sentiu a madeira fria pulsar sob seus dedos, como se uma frase antiga tentasse atravessar a casa inteira.
Na parede, sob um retrato pequeno que antes passava despercebido, surgiu uma inscrição recente: GY
E abaixo:
“Quando os pássaros deixam uma casa, é porque a memória começou a caçar.”
Sophie recuou.
Porque pela primeira vez entendeu:
o silêncio não estava apenas escondendo algo.
Estava preparando todos.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
——-***———-***——-***———-
Próximo Capítulo: 66
Deixe um comentário