Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 8 – Cap 66/70)
Episódio 8 — Identidades Rasuradas
Trilha: Symphony No.3, VI Langsam — Ruhevoll — Gustav Mahler
(Betto Gasparetto)
Capítulo 66— A Sala dos Mapas
By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Émile Laurent entrou sozinho na Sala dos Mapas.
Não sabia por quê.
Ou fingia não saber.
A sala ficava na ala oeste, quase sempre trancada, quase sempre esquecida. Havia globos, cartas antigas, mapas marítimos, plantas de propriedades e rotas traçadas por mãos que já haviam desaparecido há décadas.
Silêncio.
No centro, sobre uma mesa inclinada, repousava um enorme mapa da região.
Solar.
Cabana.
Estufa.
Lago.
Biblioteca.
Celeiro.
Sala Norte.
Cripta.
Corredor dos retratos.
Tudo estava ligado por linhas finas, vermelhas, como veias.
Émile aproximou-se.
No centro do mapa havia círculos.
Primeiro Inverno.
Segundo Inverno.
Terceiro Inverno.
Quarto Inverno.
E agora, escrito com tinta fresca:
Décimo Primeiro Inverno.
Silêncio absoluto.
Na lateral, nomes.
Muitos.
Famílias inteiras.
Sobrenomes riscados.
Sobrenomes substituídos.
Crianças assinaladas com pequenos pontos negros.
Émile passou os olhos pela lista.
Von Eichenwald.
Dubois.
Lefèvre.
Lancaster.
Laurent.
Parou.
Respiração curta.
Ao lado de Laurent havia uma palavra:
Transferido.
Silêncio.
Pessoas não eram transferidas.
Objetos eram.
Registros eram.
Propriedades eram.
Émile aproximou o rosto do mapa e percebeu uma anotação menor, quase invisível:
“A criança não desaparece quando muda de nome. Apenas aprende a responder ao nome errado.”
As mãos dele começaram a tremer.
Então uma lembrança atravessou sua cabeça.
Chuva.
Gritos.
Uma escada.
Uma mulher chorando.
Uma criança segurando um cavalo de madeira.
E uma voz dizendo:
— Levem antes que ele lembre.
Émile recuou.
Derrubou uma cadeira.
Silêncio absoluto.
No canto inferior do mapa: GY
E abaixo:
“Todos os caminhos foram desenhados antes que eles soubessem caminhar.”
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
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Próximo Capítulo: 67

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