Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 8 – Cap 68/70)

Episódio 8 — Identidades Rasuradas

Trilha: Symphony No.9 Adagio — Anton Bruckner

(Betto Gasparetto)

Capítulo 68—  Astrid e a Galeria de Arte

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A galeria permanecia silenciosa.

Mas não vazia.

Sophie encontrou Astrid Nyström diante de uma tela inacabada. A pintora estava imóvel, segurando o pincel no ar, como se tivesse esquecido como respirar.

— Eu não pintei isso — disse Astrid.

Sophie aproximou-se.

Na tela, surgia o salão principal do Solar. Mas havia algo novo ao fundo.

Uma escadaria.

Uma porta.

Um homem de sobretudo escuro.

E ao lado dele:

uma criança.

Silêncio absoluto.

Sophie sentiu frio.

Não o frio da neve.

Outro.

O frio das coisas que atravessam tempo demais antes de serem vistas.

Astrid apontou para a parte inferior da pintura.

A tinta ainda brilhava.

Mas nenhuma mão a havia tocado.

A criança segurava um cavalo de madeira.

— Ontem ela não estava ali — disse Astrid.

Sophie perguntou:

— E o homem?

Astrid demorou a responder.

Muito.

— O homem aparece em todos os meus quadros agora.

Silêncio.

A tela estalou.

A madeira da moldura pareceu contrair-se.

Atrás dela surgiu: GY

E abaixo:

“Alguns retratos terminam décadas depois porque esperam que alguém sobreviva para vê-los.”

Sophie olhou novamente a pintura.

A porta ao fundo estava entreaberta.

E de dentro dela vinha luz.

Pequena.

Dourada.

Impossível.

Astrid sussurrou:

Sophie...

— Sim?

— A criança está olhando para você.

Sophie congelou.

Porque era verdade.

Na pintura, a criança não olhava para o homem.

Nem para a porta.

Olhava diretamente para fora.

Como se soubesse que alguém, finalmente, estava prestando atenção.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 69

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