Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 8 – Cap 70/70)

Episódio 8 — Identidades Rasuradas

Trilha: Silent Woods — Dvořák

(Betto Gasparetto)

Capítulo 70—  A Estufa e o Homem do Lado de Fora

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Lukas encontrou Elise na estufa.

Aquele lugar parecia ignorar o inverno.

Flores.

Calor.

Vidros embaçados.

Papoulas vermelhas.

Orquídeas brancas.

Perfume doce demais.

Silêncio.

Elise observava Lukas com atenção dolorosa.

— Você olha para trás sempre que entra em qualquer lugar.

Lukas tentou sorrir.

Não conseguiu.

— Talvez eu tenha medo.

— De quê?

Longa pausa.

Muito longa.

— De lembrar.

Silêncio absoluto.

Elise aproximou-se.

Não o tocou.

Apenas ficou perto.

E às vezes proximidade é a única forma suportável de amor.

Então ela olhou para a janela.

Empalideceu.

Lukas…

Ele virou.

Do lado de fora, entre a neve quase parada, havia um homem.

Sobretudo escuro.

Relógio preso ao bolso.

Imóvel.

Muito.

Observando.

Lukas sentiu o corpo endurecer.

Porque não era a primeira vez que via aquela figura.

Mas agora o rosto estava mais próximo.

Mais nítido.

E havia algo nele.

Algo familiar.

Terrivelmente familiar.

Lukas correu para fora.

Neve.

Frio.

Vento.

Nada.

Nenhuma pegada.

Nenhuma sombra.

Nenhum corpo.

Quando voltou, Elise permanecia imóvel.

— Você viu? — ela perguntou.

Lukas respondeu:

— Vi.

Mas mentiu.

Porque não apenas vira.

Reconhecera.

Não o rosto.

O gesto.

A mão sobre o relógio.

A inclinação da cabeça.

A tristeza.

Silêncio absoluto.

Na condensação do vidro, uma frase começou a surgir sozinha, desenhada como por um dedo invisível: GY

E abaixo:

“O homem que aparece do lado de fora nunca esteve fora.”

Elise levou a mão à boca.

Lukas aproximou-se do vidro.

A frase desapareceu lentamente.

No lugar dela surgiu outra:

“Adrien não foi levado. Foi dividido.”

Silêncio.

Muito.

Muito longo.

E Lukas compreendeu, com horror, que talvez a pergunta não fosse mais:

quem era Adrien?

Mas sim:

quanto de Adrien ainda vivia dentro dele?

Naquela noite, pela primeira vez, a estufa perdeu o perfume das flores.

E começou a cheirar a terra aberta.

Como túmulo.

Ou nascimento.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

——-***———-***——-***———-

Próximo Inverno: em breve!

Deixe um comentário