Os Doze Cânticos da Permanência (04/12)

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico IV — Nenhuma Fortaleza Nasce Completa

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Transitus Primus — Os Primeiros Alicerces

Muito antes que qualquer muralha alcançasse a imponência que desafiava o horizonte, existiu apenas um terreno silencioso onde o olhar humano enxergou a possibilidade de construir algo destinado à permanência.
Nenhuma fortaleza nasce completa.
Toda grande obra começa como uma ideia cuidadosamente protegida pela prudência.
Primeiro escolhe-se o lugar.
Depois observa-se a firmeza do solo.
Em seguida, cada pedra encontra sua posição sem disputar importância com as demais.
Assim também se edificam os sentimentos capazes de atravessar os anos.
Não surgem da precipitação.
Erguem-se lentamente, sustentados por decisões discretas que raramente despertam a atenção dos observadores apressados.
As manhãs chegavam envolvidas por uma claridade serena que fazia as antigas construções parecerem ainda mais nobres.
As torres recebiam a luz antes dos jardins.
As ameias desenhavam longas sombras sobre os pátios de pedra.
Os artesãos iniciavam suas tarefas enquanto a cidade despertava sem alvoroço.
Cada atividade possuía seu próprio tempo.
Cada ofício conhecia o valor da paciência.
Nada ali era conduzido pela ansiedade.
A excelência jamais se aliou à pressa.

Transitus Secundus — As Virtudes Invisíveis

Os corredores do castelo guardavam ecos de conversações antigas.
Suas paredes haviam aprendido que as palavras mais importantes quase sempre são pronunciadas em voz baixa.
Os grandes compromissos dispensam solenidades exageradas.
A sinceridade prefere a discrição.
O respeito nunca necessita elevar o tom para afirmar sua existência.
Foi nesse ambiente de serenidade que o afeto encontrou espaço para amadurecer.
Nenhum gesto procurava impressionar.
Cada atitude nascia da intenção sincera de tornar os dias mais leves.
Havia delicadeza em oferecer companhia durante uma longa caminhada.
Havia elegância em dividir o silêncio sem transformá-lo em constrangimento.
Havia grandeza em perceber as inquietações antes mesmo que elas fossem transformadas em palavras.
A convivência revelava lentamente aquilo que o primeiro olhar jamais conseguiria alcançar.
As qualidades mais preciosas permanecem ocultas aos encontros passageiros.
Elas necessitam da continuidade para revelar sua verdadeira dimensão.
Somente o tempo possui autoridade para retirar os véus que escondem o caráter.
Cada amanhecer acrescentava um novo detalhe ao retrato daquela afeição.
Uma nova demonstração de confiança.
Uma nova lembrança compartilhada.
Uma nova certeza construída sem qualquer necessidade de juramentos.

Transitus Tertius — Os Jardins da Sabedoria

As bibliotecas do castelo permaneciam silenciosas.
Fileiras de manuscritos repousavam sobre estantes de madeira escurecida pelos anos.
As páginas revelavam histórias de povos distantes, de navegadores prudentes, de construtores pacientes e de governantes cuja maior virtude consistia em ouvir antes de decidir.
Toda sabedoria parecia convergir para uma única conclusão.
Nada verdadeiramente valioso floresce na impaciência.
O entusiasmo não diminuía por causa da serenidade.
Ao contrário.
Tornava-se mais profundo.
Mais estável.
Mais luminoso.
Era semelhante ao fogo cuidadosamente mantido durante longas noites de inverno.
Não produzia labaredas desordenadas.
Oferecia calor constante.
Iluminava sem consumir aquilo que protegia.
Os jardins transformavam-se conforme as estações.
Algumas flores encerravam seu ciclo.
Outras iniciavam discretamente o florescimento.
As árvores renovavam sua folhagem sem jamais perder a firmeza das raízes.
A natureza ensinava diariamente que mudar não significa abandonar a própria essência.
Também as pessoas amadurecem dessa maneira.
Aprendem novas formas de compreender.
Descobrem horizontes antes ignorados.
Expandem a generosidade.
Fortalecem a prudência.
Conservam, porém, aquilo que lhes concede identidade.

Transitus Quartus — A Fortaleza Invisível

As conversações percorriam inúmeros assuntos.
Falavam das cidades que prosperavam graças ao trabalho honesto.
Dos artesãos cuja dedicação transformava matéria simples em beleza duradoura.
Dos campos cultivados com disciplina.
Dos caminhos abertos pela coragem daqueles que preferiam construir em vez de destruir.
Cada reflexão aproximava ainda mais duas inteligências que aprendiam a admirar não apenas as palavras, mas sobretudo os princípios que lhes davam origem.
O respeito tornava-se admirável exatamente porque dispensava demonstrações espetaculares.
Manifestava-se na escuta atenta.
Na compreensão paciente.
Na disposição permanente para aprender.
As diferenças deixavam de representar obstáculos.
Transformavam-se em novas possibilidades de crescimento.
Cada perspectiva ampliava a visão da outra.
Cada experiência acrescentava profundidade ao entendimento comum.
O castelo permanecia imóvel sobre a colina.
Entretanto, sua verdadeira grandeza não residia na altura das torres nem na espessura das muralhas.
Estava na harmonia que permitia a milhares de pedras sustentarem umas às outras sem disputar protagonismo.
Essa silenciosa arquitetura parecia oferecer uma lição permanente.
Os vínculos mais sólidos não dependem da força isolada de um único elemento.
Existem porque inúmeras virtudes escolhem cooperar.
A lealdade fortalece a confiança.
A gentileza fortalece a proximidade.
A prudência fortalece a estabilidade.
A admiração fortalece o entusiasmo.
Quando todas caminham juntas, nenhuma tempestade encontra facilidade para desfazer aquilo que levou tanto tempo para ser construído.
Ao entardecer, o horizonte adquiria tonalidades suaves que envolviam a fortaleza em uma luz quase dourada.
As sombras alongavam-se pelos jardins.
As janelas refletiam os últimos clarões do dia.
As fontes prosseguiam oferecendo suas águas com a mesma serenidade da manhã.
Nada parecia extraordinário aos olhos distraídos.
Todavia, para quem aprendera a contemplar lentamente, cada instante revelava uma beleza impossível de reproduzir.
Foi então que se compreendeu a mais discreta das verdades.
O maior castelo jamais erguido pelas mãos humanas não é feito apenas de pedra, madeira ou ferro cuidadosamente trabalhado.
Sua estrutura mais resistente nasce quando duas existências escolhem edificar, dia após dia, um lugar invisível onde a confiança encontra abrigo, a admiração permanece desperta, a delicadeza governa todas as palavras e o amor deixa de ser apenas um sentimento para tornar-se uma forma permanente de habitar o tempo com nobreza, serenidade e inesgotável dignidade.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

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