Os Doze Cânticos da Permanência (05/12)

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico V — O Caminho Onde Floresciam as Palavras

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Transitus Primus — A Estrada da Serenidade

Nenhuma estrada nasce para conduzir apenas os viajantes.
Existem caminhos que parecem ter sido desenhados para aproximar pensamentos antes mesmo que aproximem passos.
As antigas vias de pedra serpenteavam entre campos cultivados, bosques silenciosos e muralhas que há muito haviam aprendido a observar a passagem das estações.
Cada curva escondia uma nova paisagem.
Cada horizonte sugeria uma possibilidade ainda desconhecida.
Nada havia de precipitado naquele percurso.
A própria estrada ensinava que toda chegada digna começa por uma caminhada paciente.
As árvores inclinavam suavemente seus galhos sobre o caminho.
As folhas moviam-se com discrição diante da brisa constante.
Os raios da manhã atravessavam a copa das grandes faias e desenhavam delicados mosaicos de luz sobre o solo.
A natureza parecia dialogar com os viajantes sem recorrer a qualquer palavra.
Tudo possuía equilíbrio.
Tudo revelava ordem.
Tudo convidava à contemplação.
Entre aquelas paisagens crescia um entendimento silencioso que dispensava demonstrações grandiosas.
Os olhares já não buscavam descobrir quem caminhava ao lado.
Procuravam apenas apreciar aquilo que diariamente continuava sendo revelado.
Toda convivência verdadeira amplia o horizonte da descoberta.
Jamais reduz a surpresa.
Quanto mais profundo o conhecimento, maior se torna a admiração.

Transitus Secundus — O Jardim das Conversações

As conversações percorriam longos trechos do caminho.
Falavam da beleza das cidades construídas por gerações dedicadas.
Da elegância dos jardins planejados para oferecer serenidade ao espírito.
Da sabedoria preservada nas antigas bibliotecas.
Da habilidade dos mestres artesãos que compreendiam a dignidade existente em cada detalhe de sua obra.
Cada assunto parecia acrescentar uma nova janela à compreensão recíproca.
As palavras nunca eram utilizadas como instrumentos de vaidade.
Recebiam tratamento semelhante ao concedido aos metais preciosos.
Antes de serem oferecidas, eram cuidadosamente lapidadas pela reflexão.
Nenhuma frase procurava ferir.
Nenhuma opinião desejava prevalecer pela força.
Toda expressão encontrava sua beleza justamente na delicadeza com que era apresentada.
Assim, pouco a pouco, o diálogo transformava-se em um jardim invisível.
Cada pensamento sincero fazia nascer uma nova flor.
Cada gesto respeitoso fortalecia as raízes daquele lugar imaginário.
Cada demonstração de confiança ampliava seus caminhos internos.
Nenhuma estação conseguia empobrecer aquele jardim.
Sua fertilidade dependia exclusivamente da dedicação cotidiana.
Os antigos marcos de pedra distribuídos ao longo da estrada indicavam distâncias.
Mas havia medidas que jamais poderiam ser registradas por qualquer monumento.
Quem poderia calcular o espaço percorrido pela confiança?
Quem conseguiria medir a extensão alcançada pela admiração?
Quem encontraria instrumentos capazes de avaliar a profundidade da serenidade compartilhada entre duas existências?
Certas jornadas pertencem apenas ao coração disciplinado pela prudência.

Transitus Tertius — As Pontes da Permanência

Os dias sucediam-se com admirável tranquilidade.
A luz das manhãs renovava as cores dos campos.
As tardes ofereciam longas sombras repousando sobre as colinas.
Ao entardecer, o céu parecia recolher lentamente todas as tonalidades espalhadas pela paisagem ao longo do dia.
Cada instante ensinava que a beleza prefere a continuidade ao excesso.
As grandes obras não procuram surpreender a cada momento.
Elas permanecem.
Essa permanência era o fundamento daquele romance.
Não havia necessidade de proclamações.
A dedicação cotidiana possuía eloquência suficiente.
Um olhar atento durante uma conversa.
Uma pausa respeitosa antes de responder.
A lembrança de um detalhe aparentemente insignificante.
A disposição constante para dividir alegrias e inquietações.
Esses pequenos acontecimentos sustentavam uma construção infinitamente mais sólida do que qualquer entusiasmo passageiro.
As antigas pontes de pedra cruzavam rios de águas transparentes.
Suas estruturas permaneciam firmes apesar da passagem dos anos.
Não resistiam por desafiarem a correnteza.
Resistiam porque aprenderam a trabalhar em harmonia com ela.
Também os grandes afetos descobrem cedo essa verdade.
Não procuram dominar o tempo.
Escolhem caminhar ao lado dele.
Aceitam suas mudanças.
Compreendem seus ritmos.
Encontram maturidade em cada nova estação.

Transitus Quartus — O Horizonte Compartilhado

A estrada prosseguia adiante.
Nunca parecia terminar.
Sempre oferecia outro horizonte.
Outra colina.
Outro bosque.
Outra oportunidade para prolongar a caminhada.
Era exatamente essa ausência de pressa que tornava o percurso tão precioso.
Quando ninguém deseja apressar a chegada, cada passo transforma-se em parte essencial da própria viagem.
Os viajantes já não caminhavam apenas sobre pedras antigas.
Percorriam também as regiões mais delicadas da memória.
Cada lembrança tornava-se um novo marco daquele caminho.
Cada conversa permanecia guardada como um manuscrito cuidadosamente preservado.
Cada sorriso discreto encontrava lugar entre as páginas invisíveis de uma história que continuava sendo escrita sem interrupção.
As fortalezas surgiam novamente no horizonte.
Suas torres recebiam a luz dourada do final da tarde.
As bandeiras moviam-se lentamente sobre os altos muros.
Os portões permaneciam abertos para acolher aqueles que regressavam com a serenidade de quem aprendera o verdadeiro significado da jornada.
Nenhum tesouro transportado por carruagens possuía valor comparável ao conhecimento adquirido durante um caminho percorrido com lealdade.
Nenhuma riqueza ultrapassava a nobreza de uma convivência edificada sobre respeito permanente.
Quando finalmente a noite aproximou-se com sua tranquilidade habitual, as primeiras estrelas ainda não eram necessárias para iluminar a paisagem.
Havia claridade suficiente na memória construída durante aquele percurso.
Compreendia-se, então, que algumas estradas jamais conduzem apenas de um lugar a outro.
Elas conduzem uma existência para dentro da outra.
Transformam distâncias em proximidade.
Convertem palavras em abrigo.
Fazem da confiança uma morada permanente.
E ensinam que o romance mais elevado não é aquele que encanta pela rapidez dos acontecimentos, mas aquele que floresce lentamente ao longo do caminho, até que cada pedra, cada árvore, cada ponte e cada horizonte passem a guardar, em absoluto silêncio, a memória de duas vidas que aprenderam a caminhar juntas com a elegância serena das obras destinadas a jamais conhecer o esquecimento.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

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