O Último Lugar da Fila
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Ainda eram oito horas da manhã quando a fila já dobrava o corredor do órgão público.
Na parede, um painel eletrônico chamava as senhas lentamente. Tão lentamente que parecia ter aprendido a caminhar com a burocracia.
Alguns olhavam para o relógio.
Outros, para o celular.
Quase todos olhavam para a porta do guichê como quem esperava um milagre administrativo.
— Isso aqui nunca muda.
Foi o primeiro comentário da manhã.
Um senhor de boné respondeu sem tirar os olhos do painel.
— Se mudasse muito, a gente desconfiava.
Alguns riram.
Outros continuaram reclamando.
Uma mulher dizia que perderia a consulta médica.
Um rapaz reclamava que faltaria ao trabalho.
Outro comentava que já era sua terceira visita porque sempre faltava um documento diferente.
No fim da fila, uma senhora segurava uma pasta de plástico transparente junto ao peito.
Ninguém reparava nela.
Quando alguém chegava, perguntava automaticamente:
— Quem é o último?
Ela levantava discretamente a mão.
— Sou eu.
Pouco depois, um jovem entrou apressado.
Olhou o tamanho da fila e soltou um suspiro daqueles que todo brasileiro conhece.
— Nossa… Isso vai longe.
Foi para o final.
Cinco minutos depois já reclamava do atendimento, da quantidade de funcionários, da demora e até do café vendido na cantina.
A senhora apenas escutava.
Depois de algum tempo, ele perguntou:
— A senhora também está esperando faz tempo?
Ela sorriu.
— Desde as sete.
— Nossa…
— Vale a pena.
Ele fez um gesto de quem não entendia.
Ela abriu cuidadosamente a pasta.
Dentro havia apenas uma certidão antiga.
Amarelada pelo tempo.
— Hoje vou conseguir colocar o nome do meu pai na minha certidão de nascimento.
O rapaz ficou em silêncio.
Ela continuou.
— Tenho setenta e dois anos.
Esperei a vida inteira por isso.
A fila pareceu diminuir de tamanho.
Mais adiante, um senhor aguardava para renovar a carteira de motorista.
Uma jovem precisava registrar a filha recém-nascida.
Um casal buscava documentos para comprar a primeira casa.
Um rapaz tentava regularizar o título de eleitor.
Outro precisava provar que existia no papel para conseguir um emprego.
De repente, ninguém estava ali apenas por causa da fila.
Cada pessoa carregava uma história.
Cada senha escondia uma urgência diferente.
Quando finalmente o painel chamou o número da senhora, ela levantou devagar.
Antes de entrar no atendimento, olhou para o jovem.
— Agora acho que chegou minha vez.
Ele sorriu.
— Acho que sim.
Ela entrou.
O rapaz observou o painel eletrônico mais uma vez.
Continuava lento.
Continuava chamando uma senha de cada vez.
Nada havia mudado.
Mas alguma coisa era diferente.
Às vezes reclamamos do tempo que passamos esperando.
Quase nunca imaginamos quanto tempo a pessoa à nossa frente esperou para chegar até ali.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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