O Vizinho que Nunca Sorria

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No prédio, quase ninguém sabia o nome dele.

Era simplesmente “o homem do 302″.

Saía cedo.

Voltava sempre no mesmo horário.

Entrava no elevador olhando para o painel dos andares.

Cumprimentava com um discreto movimento de cabeça.

Nunca puxava conversa.

Nunca participava das festas do condomínio.

Nunca aparecia nas reuniões.

As crianças diziam que ele era bravo.

Os adolescentes inventavam histórias.

Uns juravam que tinha sido militar.

Outros diziam que era delegado aposentado.

Havia até quem acreditasse que simplesmente não gostava de gente.

Quando passava pela garagem, sempre encontrava alguém disposto a comentar.

— Esse homem nunca sorri.

— Deve viver de mau humor.

— Tem gente que nasceu para reclamar.

Curiosamente, ninguém jamais o ouvira reclamar.

Apenas não sorria.

Numa quinta-feira de inverno, a energia acabou pouco antes das sete da noite.

O elevador parou.

As luzes de emergência acenderam.

O portão eletrônico deixou de funcionar.

Os moradores começaram a descer pelas escadas para entender o que estava acontecendo.

Foi então que ouviram um choro.

No quinto andar.

Era o pequeno Lucas.

Tinha apenas cinco anos.

Estava preso dentro do elevador com a mãe.

O menino gritava desesperado.

Enquanto algumas pessoas ligavam para a empresa de manutenção e outras apenas davam opiniões sobre o que deveria ser feito, o homem do 302 apareceu carregando uma caixa de ferramentas.

Não disse uma palavra.

Conversou rapidamente com o porteiro.

Abriu o painel da casa de máquinas.

Pediu apenas que ninguém tentasse forçar a porta.

Durante quase vinte minutos trabalhou em silêncio.

Lá dentro, o menino continuava chorando.

De repente, o elevador destravou.

A porta abriu lentamente.

Lucas saiu correndo e abraçou a mãe.

O corredor inteiro aplaudiu.

O homem apenas fechou sua caixa de ferramentas.

Quando se preparava para voltar ao apartamento, o síndico perguntou:

— O senhor trabalha com isso?

Ele respondeu pela primeira vez em muito tempo.

— Trabalhei.

Quarenta anos.

Manutenção de elevadores.

Só isso.

Sorriu de leve.

Talvez pela primeira vez que alguém do prédio percebeu.

Na semana seguinte, o elevador voltou a ser silencioso.

Mas alguma coisa havia mudado.

As crianças passaram a dizer bom-dia.

A vizinha do sexto andar começou a deixar um pedaço de bolo na porta dele quando fazia aniversário.

O porteiro descobriu que seu nome era Antônio.

E, pouco a pouco, os moradores entenderam uma coisa simples.

Nem todo silêncio é arrogância.

Nem toda expressão séria é tristeza.

Algumas pessoas apenas aprenderam a falar pouco.

E, quando realmente precisam dizer alguma coisa, preferem fazê-lo com as próprias mãos.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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